José Costa Matos


A Vida

A vida não dá presentes. Podemos até: colher duas estrelas para reacender os olhos de Jorge Luís Borges; denunciar a Deus que os povos ricos riscaram do dicionário as moedas dos povos pobres; revitalizar a esperança no milenarismo, onde os utopistas de tantos séculos marcam encontros para falar mal da natureza humana; entregar Fernando Pessoa à Polícia, para protegê-lo dos assaltantes de idiossincrasias; fundar pátrias, com bandeiras e hinos de arrepios cívicos. A vida não dá presentes. Podemos até: governar o Brasil com a Constituição-Artigo-Único de Capistrano de Abreu; pintar de saúde os meninos doentes do Nordeste; escutar as glórias das velhas prostitutas do Cais de Santos; entrar na guerra e salvar dos arranha-céus as mangueiras de Fortaleza; vestir a sotaina dos jesuítas e aldear as lagostas no fundo do mar, contra os Bandeirantes do Capitalismo aqui-e-agora; retroagir a Máquina do Tempo e refazer o mundo sem a semeadura de pavores que assustou o nosso Pedro Nava; levar o Pontífice Paulo II ao Congresso Brasileiro para testemunhar que os índios não são bichos. Mas a vida não dará presentes. A plenitude humana é trabalho de mineração, com galerias cavadas no Infinito.


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