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Artur Eduardo Benevides

 

Pacatuba, CE, 25.7.1923. Fortaleza, CE, 12.9.2014

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Poesia:


 

Resenha, ensaio & comentário: 


 

Fortuna:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels

 

William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

28.9.2014

 

"As palavras nos recriam"

 

28.09.2014

 

Há uma semana, Artur Eduardo Benevides saiu de cena, mas permanece como marco da literatura cearense

 

 

 

 

O universo lírico é o espaço onde os sentimentos podem aflorar, traduzidos em versos, e celebrar memórias e aspirações. Foi perseguindo essa liberdade através da poesia que Artur Eduardo Benevides destacou-se ao logo de sua trajetória literária, interrompida no domingo passado, 21, aos 91 anos. O título desta matéria é um dos versos do poema "A sombra das palavras" e dá uma ideia da motivação do escritor, de seguir criando incessantemente ao passar dos anos. Foi reinventando e recriando a sua linguagem poética que Artur Eduardo Benevides deixou um legado de mais de 40 livros, como contribuição para as Letras cearenses.

Benevides cultivou principalmente o conto e a poesia, cantando temas eternos, como o mar, a solidão, o amor e a cidade. "A poesia de Artur Eduardo Benevides é alicerçada sobre a imagem", diz Carlos Augusto Viana, crítico e poeta. "Ele faz poesia pura, que se concentra na imagem e na metáfora".

Caçula de uma família de 16 filhos, o menino Artur, muito cedo, começou a demonstrar vocação pelas letras, fazendo discursos e declamando poesias. Em Fortaleza, começou a trabalhar no jornal O Unitário. Ali, o escritor atuou como jornalista e publicou o seu primeiro poema, ilustrado pelo gênio modernista Antonio Bandeira. Contemporâneo de grandes nomes das letras e das artes visuais, Artur Eduardo Benevides integrou o grupo Clã, coordenado pelo jurista Fran Martins, a partir de 1949, mesmo ano de publicação de seu primeiro livro, "Navio da Noite".

Educação

Artur Eduardo Benevides também deixou sua marca na vida dos alunos, quando lecionou na Faculdade Católica de Filosofia do Ceará, que depois mudou o nome para Universidade Estadual do Ceará (Uece), e no curso de Letras da Universidade Federal do Ceará (UFC). Lá, incentivou toda uma geração de pesquisadores para o estudo da literatura e na produção de poesia e ficção, acreditando na liberdade e na disciplina do ofício. "Sei que não existe este dilema entre poesia antiga e poesia moderna, ou mesmo boa ou má poesia. O que existe é poesia, só isso", disse em uma entrevista concedida ao Diário do Nordeste, em 1987.

À frente da Academia Cearense de Letras, consolidou a instituição na atual sede, o Palácio da Luz - que antes abrigou a administração do Governo do Estado -, reestruturando a biblioteca e realizando diversos cursos de literatura. Um dos feitos mais marcante de sua gestão, foi a posse da escritora Rachel de Queiroz como acadêmica, na ocasião do centenário da ACL. Apesar de não ter sido a primeira mulher a integrar a Academia, a nomeação da escritora teve forte impacto simbólico.

Artur Eduardo Benevides saiu de cena ainda na ativa, admirado por seus pares, que evocavam sempre o título a ele atribuído: Príncipe dos Poetas Cearenses. De alma serena e espírito firme, a vocação poética ditou o norte de sua produção até o fim de sua vida.

Em entrevista concedida do Diário do Nordeste na ocasião da entrega do Troféu Sereia de Ouro de 1987, do qual foi um dos agraciados, Benevides já deixava claro a paixão pela escrita. "Se tivesse de refazer a minha vida, sei que não repetiria muita coisa. Mas escrever, ser poeta, isto com certeza eu faria", assegurou.

Biografia

Artur Eduardo Benevides nasceu em Pacatuba, Ceará, em 1921. Exerceu o jornalismo, mas diplomou-se em Direito e em Letras. Conciliou a dedicação à poesia e uma carreira acadêmica. Foi professor da Faculdade Católica de Filosofia do Ceará e da Universidade Federal do Ceará, onde exerceu o cargo de diretor do Centro de Humanidade.

O escritor morreu por volta das 9 horas do último domingo (21.9.2014). Ele se tratava de complicações de uma pneumonia e já vinha de uma série de internações. A causa oficial da morte foi falência múltipla dos órgãos. O corpo do poeta foi velado no saguão nobre da Academia Cearense de Letras, no Palácio da Luz, onde amigos, acadêmicos e autoridades foram prestar reverência e as últimas homenagens. O poeta cearense exerceu o cargo de diretor do Centro de Estudos Brasileiros em Rosário, Argentina. Foi portador de várias medalhas e vencedor de inúmeros prêmios literários, como o prestigiado Prêmio Nestlé de Literatura. Também foi eleito por entidades literárias como "Príncipe dos Poetas Cearenses".

Recebeu diversas premiações ao longo de sua carreira, entre os quais, prêmio Rio de Literatura o José Veríssimo, o Academia Brasileira de Letras, o Camões, da Casa de Portugal, o Cecília Meireles e da Academia de Letras de Brasília. Publicou mais de 40 livros, principalmente no gênero poesia, sendo dois no gênero conto, o "Caminho sem Horizonte" (1958) e "A Revolta do Computador e outros contos de mistério" (2001).

Foi presidente da Academia Cearense Letras, entre 1995 e 2005, e membro da Academia Cearense de Língua Portuguesa, dentre várias outras instituições culturais.

Leonardo Bezerra

Repórter

Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

   
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), L'Innocence

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Admiration Maternelle

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, Pietá

Artur Eduardo Benevides


Da poesia


1.

A poesia
é um pequenino veio nas colinas
a se espalhar por vésperas e matinas
até encontrar a solidão do mar.
E a solidão somos nós.
O mar:
o pranto o a voz
dos que Jamais puderam regressar.


2.

A poesia
(passacale final na escadaria
de mármore do templo)
é uma vela na noite a iluminar
os mais lívidos rostos, num convento.
Mas também é o momento
de despertar nas cores das manhãs
quando olhamos as aves sobre a paz
de acácias e romãs.


3.

É o apelo da flor na correnteza.
Ou a grandeza de todos os silêncios
sob a lâmina aguda da tristeza.
E é minha mão trêmula, a escrever
nas águas imóveis de um lago
o teu nome tão leve
qual súbito afago.


4.

e do nosso ser fragmentado.
E deve estar sempre ajoelhado
ao pé de seu êxtase e verdade.
Ele é mais do que o vôo de um pássaro
traçando linhas no azul dos céus
onde as tardes ficaram penduradas.
É o suplicar dos olhos das Amadas.
E nele respiramos. Ou cantamos.
E só assim nossa alma ficará
igual às noivas marchando para o altar.
Ou a jograis a narrar as suas coitas
e a relembrar a dor de vãs batalhas
em que morremos ao saltar do amor
as últimas muralhas.


5.

Oh, a poesia
é a tristeza sem fim no olhar de Lia!
É um balir de ovelhas ou um brilhar de estrelas
sobre as rosas nascidas a jusante
de nossa expectação mais verdadeira.
Ou a dolorosa verdade das cousas
que tentaram em vão acontecer.
E nós, que começamos a desaparecer,
semelhantes às nuvens de verão,
chegamos em silêncio
às torres finais da solidão.


6.

A poesia
(clarinete a tocar num minarete)
é minha outonal marinharia.
O madrigal arfante. A companhia
dos que demandam comigo o Santo Graal.
É minha Távola Redonda
(hermosa noche de ronda)
ou minha
mercadoria espiritual.


7.

Todo poema é triste. E sobreexiste
para que plenilúnios banhem os infortúnios
e Dionisos recrie perdidos paraísos
ou o inesperado
não doa qual visão da sombra do enforcado.


8.

Trampolim ou bergantim
a poesia é a palavra andarilha
a criar o soneto e a gentil redondilha.
Depois, em disparada, segue pelos montes
levando, em liberdade, o homem às suas fontes.
(Se tal não for será como o amor que nunca foi amor.)


9.

Ó poesia,
flamboyant que em silêncio pomos
no espaço em que já não existe
nenhum flamboyantl !
Ela é a lágrima da lágrima
como um filete de água
na prenhez inocente das manhãs.
É o gesto de afastarmos as palavras ásperas
para que não ressuscitem no terceiro dia.
É a infantaria
dos diálogos perdidos.
Ou o lavor
da sobrecanção que vem pousar
nas praias, junto ao mar.


10.

Ó êxtase incessante
em que nos escondemos do grito delirante
dos nossos fantasmas!
Ó plasma
das cousas inacontecidas
mas longamente procuradas
em toda a nossa vida!
E há uma secreta verdade no ser prisioneiro
no fundo do espelho.
Ou a geometria
de sentimentos que buscam retornar
ou tentam-me salvar
dos insucessos de vãs Cavalarias.
A poesia é um archote
que se acende nas mãos de Dom Quixote.
É uma borboleta pequenina
sobre o olhar dos cegos, numa esquina.
Por isso é um momento sagrado
ou um recado
escrito talvez em terra transmarina,
quando a pergunta fatal da última esfinge
nos atinge.
E escrevo teu nome, Amada. com meu sangue.
E torno a escrevê-lo até cair exangue.
Então, à beira do sétimo abismo,
ante o demônio da dor pratico o exorcismo
dos violões que afagam o rosto das canções.
E, às vezes, vens. E tens
a leveza das recordações.


11.

Sim, a poesia é a verdade mágica.
É o sonho a emplumar as tardes do real.
Ou alguma cousa que chega-nos, pelágica,
ou uma palavra eterna e pastoral.
A lógica poética é a beleza
a nascer do esplendor do ser em sagração
ou ao grito terrível da tristeza.
E tudo a voar, nas almas, é canção.


12.

Vem, poesia,
cobre a dor de teus pobres jograis,
enquanto os galos erguem, triunfais,
as dádivas do dia!
Ó coágulo do eterno!
Ó rosa a resistir ao implacável inverno!
Ó palavras em vôo nupcial
a salvar os pombos de bruma vesperal!
Com teus verdes segredos e vinhedos
és, poesia, a imaginária via
de andorinhas libertas de rochedos
a levar, na âmbula do olhar,
a lembrança de relvas e avelãs
que se ofertam, felizes, nas manhãs.


13.

A poesia é a festa
dos que não foram dançar.
É o verde solar
em que lembramos toda a nossa gesta.
De suas varandas olhamos comovidos
os nossos passos desaparecidos
em areias movediças, junto ao mar.
E para não chorarmos, ficamos a cantar.


14.

Tudo o que lágrima for
ou transmitir beleza em seu mistério
será um verso iluminando a dor
como, nas noites gregas, um saltério.
E a poesia é a cidadela insubmissa
por cuja ponte levadiça
só passa o Cavaleiro
que não trocou sua alma por dinheiro.


15.

Ela chega, numerosa,
e eu, quase louco, confundo-a com a rosa
que não depositei no colo das Amadas.
Do sono das aves, em horas encantadas,
vem. E tem
o vitral das metáforas ou o ônix das fábulas
e o claro azul andante das parábolas.
E é sagrada e profana.
A um tempo só — angélica e cigana.
As vezes, nave. Outras, a chave
com que abrimos os portões urbanos
ou os frios caminhos insulanos.
E vamos vindimar
com mãos de tecelão sobre o tear.
Ao fim do dia
teremos em nós a palavra perdida
ou a rima desnuda
e ressuscitaremos
para tudo o que amamos e jamais tivemos.
Mas nos livramos, com a canção,
de toda e qualquer maldição.


(do livro Noturnos de Mucuripe & Poemas de Êxtase e Abismo,
Ed. Casa José de Alencar, 1992)
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

 

 

 

 

 

 

 

 

Soares Feitosa, dez anos

Artur Eduardo Benevides


 

Um rapsodo das montanhas e dos ventos da Grécia

 

Tenho a impressão, ou a quase certeza, de que Soares Feitosa renasceu de si mesmo, através da fonte lustral da Poesia, para desempenhar um munus igual ao dos grandes bardos que viveram entre os celtas e gálios, ou de um vate romano ou de um rapsodo das montanhas e dos ventos da Grécia, narrando, com ímpeto de fogo, sua visão onírica, talássica e telúrica, escondida em seus silêncios de homem durante cinqüenta anos.
E traz, ao longo do Canto, aquele impulso épico, homérico ou rilkiano de celebrar o amor, os seres e os mitos, tendo como leitmotiv a memória ancestral do sertão, ou as dores gregárias do Nordeste, com seus sofridos personagens a caminhar, sob um sol wangoghiano, em procura do destino, deixando sobre a terra abrasada seu suor, seu sangue e suas lágrimas.

O material de que se serve esse jogral ressurecto é tão moderno ou tão eterno quanto a face da própria beleza: é o epos, ou o poema epopéico, sob a fonte da inspiração de arquétipos junguianos e lembranças localistas e universais, sobretudo da infância, com a força do olhar subitamente estendido sobre as estilhas do tempo, para cantar, com a síntese do verso, o fulgor dos temas que não morrem.

Sua chegada à poesia brasileira, saindo dos cafundós heróicos do Ceará, onde outrora soaram os bacamartes de guerra dos Feitosas, Montes e Mourões traz-nos a grande semente de que nasceram um dia a Odisséia e a Ilíada, ou a Eneida e os Lusíadas, como depois Dom Quixote ou as lendas belíssimas do Graal, e, já agora no Brasil o Canto de um Gerardo Mello Mourão, com seus Peãs, ou versos hínicos e flemejantes, de rara transcendência temática ou imagética.

A chegada de Soares Feitosa é um acontecimento de significação marcante.

E quem o ignorar não sabe o que é Poesia.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

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Nelly Novaes Coelho

 

 

 

 

Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ruth, by Francesco Hayez

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Albrecht Dürer, Mãos

Artur Eduardo Benevides


 

Morreste

 

1.
 

Morreste, afinal, ó poeta geral,
ou prossegues, lívido, a cantar
à paz de teu silêncio
e ao verde-azul
do mar?
Se ponho — sim, estás vivendo em mim.
Se digo — não, contemplo-te em canção,
qual fantasma, insone, a vagar
em nossa solidão.
Se morreste, também morreu Ricardo
e Álvaro se foi, partiu Alberto.
Ou todos esses e quantos mais tu foste
— como as máscaras gregas da tragédia —
só viveram no poema, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?
Pode um poeta perder o seu futuro
ou a morte não passa de interlúdio
no resfolgar fatal de seus ginetes?
E o fingimento? E todo o sal do mar
nascido das guitarras marinheiras
na hora de cantar?
Ai, cantar e chorar
são sempre a mesma cousa!
Ambos rimam conosco e inscrevem-se na lousa
que vai cobrir o que de essência somos.
E tu, irmão do Tejo, do Lima e do Montego,
por que tão perto estás e és cacto com medo
a perecer no meio de um deserto?
Oh, o teu verso tão certo a brilhar
sobre os homens e o mar
português!
Teu verso que se fez
de sono, mito, encantação e olhar.
Mesmo não crendo, creste. E assim criavas
novas formas de fé que alimentavam
a lenta sombra rubra da existência.
E foste na tarde a sobretarde
e no real/irreal a consciência
em fome de verdade.
E cantaste da vida a brevidade
entre o sempre e o jamais, a mágoa
e a História.
E nossa foi
tua vasta visão premonitória.


2.
 

É certo: em brumas sobrevéns
de Alcácer-Quibir.
Foi-te dado com isso pressentir
o mistério do tempo e da memória,
o lá-dentro das cousas e o lá-fora,
a estrada de Delfos e de Ofir.
Então, se tal se deu, nunca morreste.
Estás nos tombadilhos, a boreste,
com capa e pince-nez, a viajar.
E aqui ficamos a te reinventar
como as nuvens inventam sua sombra
de naves fantásticas no mar.
O mar de Camões. O reino das canções.
A concha dos mistérios e navegações.
E aqui te esperamos.
Virás — quem sabe — de qualquer ilhota
(ao lado de Almada e Sá-Carneiro)
no solitário voar das gaivotas.
Ou te erguerás, triunfal, a qualquer hora,
de algum poema teu, à luz de auroras.
Ou talvez desardomeças num soneto
inglês. E todos de uma vez
gritaremos teu nome que não some
e é camerata, e luz, e dor, e ritmo,
ou sagrado logaritmo
nas álgebras
do poema.


3.
 

No tempo te saúdo. Não te enxergo
na morte silenciosa. E só estás mudo.
A tua voz se oculta entre as ramagens
da árvore da vida. A tua voz
ferida. A tua voz
tão perto e tão distante.
Voz, como os perfumes, caminhante,
na curva e contracurva de algum fado.
E aqui estou, igual a ti, parado,
a louvar tua face essencial.
Teu sonho delirante e teu naval
olhar.
Ou o teu guitarreio e suspirar.
Ou o maldizer. Ou o teu saber.
Ou o teu grito crescendo em solidão
no reino de Netuno ou de Plutão.
 

 

 

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alphonsus Guimaranes Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

Artur Eduardo Benevides


Innamorato


I

O som de tua voz
é um ramo a nascer
da árvore da vida.
Com medo de perder-te,
sempre que chegas sinto
o travo da partida.
E quero ficar à tua margem
— Ó rosa e Mar! —
e ver tua leveza de pássaro
a voar.


II

Estar sem ti
é estar em silêncio de montanha
sem existir montanha.
É ficar em desterro,
ou regressar, calado, de um enterro
e tomar lentamente um copo de vinho,
sozinho.


III

Estar contigo
é sempre amanhecer.
É sentir que o sol de repente
toca em mim com a doçura
do que se põe no azul a florescer.


IV
Ai, tecelã da eterna poesia,
um pouco mais de ti em mim
e eu voaria!
Nem me dês teus frutos.
Basta que sorrias.
Não mereço mais. 

 

 

 

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Jorge Medauar

 

 

25/07/2005