Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Arlene Holanda

arlenehnm@yahoo.com.br

Poussin, Venus Presenting  Arms to Aeneas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia da autora:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dimas Macedo

 

Leontino Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Nurture of Bacchus

 

 

 

 

 

Arlene Holanda


 

Quadras primevas


D`água os olhos da fonte
Por essas terras bem-vinda
correndo, a vida e a água
inverno e verão não finda.

A vida quando semente
quer vingar, frutificar.
Ficar depois de partir,
ah, quem não ousa sonhar?

Uma casa de jardim
Para os sonhos florescer
fosse pensar em tristezas,
muito melhor esquecer.

Um duelo de conquistas,
uma bandeira, um castelo.
No alto daquela torre,
meu amor dorme singelo.

Um caminho para o mundo,
Que não existe, transpira.
Na alma que de teimosa
Contra o sol, sombra conspira.

Velhos caminhos de pedra,
Olhos turvos, viajantes.
Agora depois da terra
Nada será como antes.

Traziam o mar nos braços
e o longe no olhar.
Na terra, a pedra e o fogo,
Boa bigorna forjar.

Uma casa de guarida
aos passos cinzas, cansados.
uma cama para o pouso
de sonhos azuis, velados.

Borboletas contra o vento
Cores fugidas na pressa
O vento, o sol o caminho
Chegar já não interessa.

Muitos sois, muitas estrelas
morrem na cinza dos dias
o mundo ou talvez a lua
e o que mais tu querias?

Vão os sonhos sem carona
Batendo em porta fechada
Quando feliz se fizerem
Não é preciso mais nada.

Fosse presente diário
Morada, sombra, guarida
Quantos amores perdidos
Podem caber numa vida?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arlene Holanda


 

Retalhos sentimentais nordestinos


Retalhos de sonho
o riso e a prosa
a vida renova
bonita e garbosa
fazenda enfestada
florida e formosa.

O pano do circo
de lona encerada
a roda do parque
vertigem e risada
você do meu lado
não falta mais nada.

Caminhos de terra
noite enluarada
tão pura alegria,
há muito esperada
a festa da alma
singela morada.

A rede listrada
cheirando a lavada
alpendre de estrelas
solidão velada
a conta das mágoas
já foi encerrada.

O pote de água,
tão doce e tão boa
o pouso, a guarida
pra qualquer pessoa
benção como essa
não se acha a toa.

Baú cravejado
de tantas lembranças
parede emoldura
do tempo as andanças
as letras, amores
e as desesperanças.

A vida não é flor
Tão pouco é espinho.
Carinho fugaz
Sombra no caminho
Porque existem juntos
Alçapão e ninho.

O amarelo ouro
o verde limão
vermelho, encarnado
azul, azulão.
desfilam na feira
flores de chitão.

A colcha, toalha
a saia faceira.
nessa primavera,
a mais brasileira
a mais nordestina
a mais verdadeira.

A chuva rescende
no chão perfumado
do leito do rio
em cinzas velado
o gado, os carneiros
em festa o cercado.

A festa da terra
Já finda a saudade
promessa de verde
da vida que invade
a terra, a ribeira
que em gozo já arde.

Os dedos e as contas
nas voltas do mundo
Jesus e Maria
Antonia e Raimundo
santos e retratos
respeito fecundo.

A roupa de gala
espera engomada
romaria santa
de sonhos alada
galo no terreiro
vitória cantada.

Espelhos e fitas
contas e cocares
sois índio na alma
por onde andares
sois negro, sois branco
Calabar, palmares.

A velha sanfona
o passo ligeiro
morena assanhada
caboclo brejeiro
sereno da noite
cheirosa, faceiro.

O feijão se perde
onde a vista alcança
o milho em boneca
qual loira criança
sinal de bom tempo
fartura e bonança.

Os olhos em festa
já passam em revista
a planta, o legume
o feudo, a conquista
no canto da sala
colheita benquista.

O talhe na carne
Ao sabor da calma
O fogo, o negrume
dos caibros, da palma
sustança, carinho
comida da alma.

O cheiro verdinho
vindo do giral
o doce, a moringa
o toque final
a sesta, o descanso
santo bacanal.

Dois olhos sinceros
prescutam caminhos
janelas da alma
flores e espinhos
ao final do dia
pássaro nos ninhos.

No fim da jornada
as mãos calejadas
e a roupa de couro
campeiam boiadas
de ossos e sonhos
lonjura e estradas.

Juntando as lembranças
no fim da invernada
as muitas andanças
não deram em nada
só resta a caatinga
eterna morada.

Aboio longínquo
de longe, dos mares
na língua que fala
a pinga dos bares
solidão curtida
afoga os pesares.

Tribos, sesmarias
as léguas varadas
no vento as palavras
bandeiras sagradas
do tempo em desuso
a ferro gravadas.

Moeda cunhada
de honra e ruína
boiada estourada.
selou sua sina
a terra é senhora
a flor é menina.

Herança de fogo
largada a caminho
perdida a aposta
seguindo sozinho
sem pouso, sem sombra
coroa de espinho.

A sorte deixada
na curva de um rio
seu leito de pedra
torrado no estio
franzino e descalço
no seu desafio.

A noite ao encalço
mistério velado
como um fogo fátuo
de halo azulado
que ainda resiste
em ser desvendado.

Seguindo o comboio
de lua e de sonho
ao som do espantalho
que cresce medonho
na luta renhida
de terra e cansaço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arlene Holanda


 

Viezes


Vã filosofia

A vida passa. A passos largos. É sabido.
Tudo pode acabar a qualquer instante.
E nem por isso os sonhos são menos.

banal

Chuto o copo largado na sala.
nada que valha a pena...
coisa pequena, de sombra longa,
se desloca e toca o poste.

Paisagem

Sem horizonte ou ponto de fuga
nenhuma fuga é possível
só a paisagem é real.
A meia, o sapato, o chulé...
A escova de dentes,
o desodorante. Vazio.
A grade rua sem mar
morre suja e triste
na paia.

Bolinhas de pão

Pão amassado
matando o tempo
ou o tempo, teria me matado
e eu ainda não sei?
Três três passarás,
a infância passou.
E sem endereço,
os sonhos voltam sempre
a casa vazia.


Que fio ainda nos conduz

Chove
A mágoa lava o lixo
da noite insone
estrelas pálidas e impossíveis.
Mas... seguro sua mão
e ouço tambores
ritmos e rituais.
E no peito ainda batem
pasmem; dois corações...

Profissão

Porque o mundo
não precisa mais de poetas
e outros (poetas)
já disseram tudo
que devia ser dito
construirei pontes
farei analises físico-químicos
defenderei causas quase perdidas...
e escreverei essas palavras
que sem vento vela
não chegarão a nenhum destino.

Ninguém verá

Nem sonhos
nem palavras
tampouco poemas...
a vida é assim
para quem tem pressa
e não sabe perder o tempo.
Amanhã é certo,
mas apesar da luz,
não há janelas.

Necessidades básicas

As pessoas comem. Dormem.
E quando podem, até são felizes.
O malabarismo. O esquecimento
o caminho das veias
para o coração.
A identidade ( perdida? )
a fotocópia, o crime...
que não saiu no jornal.

Anti poema para fortaleza


Roça no ônibus
a perna poema
troco trocado miúdos.
Sem enxergar um centímetro a frente
A vida aos encontrões. Rebentando. Rejeitos.
Todos são poetas de palavras mau-ditas
Que nunca cicratizam.
Sob o sol,
essa cidade nos parece tão bela.

Esperando você ( te )

A forma gramaticalmente correta
Se perdeu boca a boca.
As palavras saem aos tropeções
doidas para morder
ou nadar sob o sol.
Cães famintos, fêmeas no cio
sem nenhuma correção ortográfica.

promessa

A arvore é a única promessa cumprida
de sombra e abrigo
talvez frutos e flores.

esperando

Horas
perdidas
roubadas
fugidas
ruminadas
percorridas.
Dando voltas sobre si mesmo
toc toc dos sapatos
esperando....

canteiro

Os tons vivos do canteiro
vermelho, amarelo, rosa...
não combina com cinza.
só a beleza parece ser feliz.

(in) cômodos

A saudade não cabe
nessa casa de tão grandes cômodos.
Nunca vivi aqui e a tenho,
do que poderia ter sido.
Uma manhã, um café, um carinho.
Um cavalo amarrado na árvore
trazendo noticias de um mundo
que não existiu para mim.
Um mundo aprisionado nos retratos
de moldura oval, quase sem sorrisos.
Em continência diante da vida
que passou, como também passará.

A tia bisavó parece frágil e triste
E seu retrato de moldura oval
precisa de urgentes reparos.
Sua lembrança, quase apagada
pela umidade do inverno
pelos que foram embora.
Mas eu estou aqui
trago um sorriso
meio condolente, alguns genes
sei quem é você. E por isso
não estais mais sozinha

 

 

 

 

 

 

14/11/2005