John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail

Artur Eduardo Benevides


 

Soneto inglês


Esse teu ar de estrela e de mulher,
Esse jeito de flor e de mistério,
Esse lume que tens, imenso, etéreo,
Esse vasto querer que ora me quer;
Esse olhar que me fere mas não mata,
Esse sorrir de brisa matinal,
Essa imagem de verso provençal,
Esse segredo que ninguém desata;
Esse estilo de vida, esse teu dom,
Esse estado de graça e de leveza,
Essa clara verdade, essa beleza,
Esse gesto de amor em sobretom


Fazem-te grande, sendo pequenina,
Dando à mulher encanto de menina.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Caio Porfírio Carneiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

Artur Eduardo Benevides


 

De um tema de Ronsard


Por que, tão bela sendo, me maltratas,
Se sabes que me dóis e me magoas
E me deixas igual a essas pessoas
De almas quase errantes, inexatas?


Abri-te a porta e a vida, mas me matas
E não ouves as súplicas e loas.
Eu te daria tantas cousas boas,
Mas te afastas qual som de serenatas.


A vida é curta, Amada, para tudo.
O tempo fica logo tão desnudo
Que brilho, e sonho, e viço — tudo passa.


Só temo que se um dia resolveres
Aceitar de uma vez os meus quereres
Eu já seja, num cais, velha barcaça.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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José Peixoto Jr

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

Artur Eduardo Benevides


 

Soneto de mágoa e de esperança


Por que de mim te alongas ou te afastas?
Será que em ti perdi meu gesto e rosto?
As minhas horas todas já são gastas
Em sonhar-te ditosa ou sem desgosto.


És glória, luz e amor. E eu? Sol-posto.
Mas, fugindo de mim, tu me vergastas
E deixas-me ferido, e pobre, exposto
Às vinganças do tempo, iconoclastas.


Para agradar-te, finjo que sou jovem.
Busco enganar-te, a ver se te comovem
As palavras que oferto, de afeição,


A fim de que, qual dádiva, me olhes
Com toda a tua graça e não desfolhes
As pétalas da última ilusão.
 

 

 

Ruth, by Francesco Hayez

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Natércia Campos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carvagio, Tentação de São Tomé, detalhe

Artur Eduardo Benevides


 

Soneto inglês


Na divina tolice dos que amam,
Quando se traçam rumos sem sentido.
Algumas cousas belas se proclamam
Do acontecido ou do inacontecido.
De repente, fiquei enamorado!
Será, talvez, na idade, uma loucura.
Mas, se é destino meu mudar o fado,
Já sei que o desatino não tem cura.
Por que somente agora vejo tudo?
Por que guardas em ti tanta poesia?
Com tua luz ficou feliz e mudo
Um coração que a morte pressentia.


Mas, esse amor, que agora em mim se enflora,
Será por certo, o último, Senhora.
 

 

 

Albrecht Dürer, Mãos

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Thiago de Mello

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), Girl, detail

Artur Eduardo Benevides


 

Soneto em Recife


Tão leve qual capulho de algodão
Que a brisa da tarde transportasse
Sinto o doce luar de tua face
Sobre o azul dos gestos em canção.


Mesmo distante, vem-me tua mão
Trazendo a flor que agora despertasse
Na manhã de teu sonho, de que nasce
A paz das verdes relvas pelo chão.


Que fazes por aí? Aqui, eu teço
Uma saudade enorme. Não te esqueço.
Se te, esquecesse, já estaria morto.


Muito tempo custou-me a travessia
Até te achar, nas ilhas da Poesia,
Iluminando as noites do meu porto.
 

 

 

A menina afegã, de Steve McCurry

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Ricardo Alfaya

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

Artur Eduardo Benevides


 

Elegia cearense


1.
 

Longo é o estio.
Longos os caminhos para os pés dos homens.
Longo o silêncio sobre os campos. Longo
o olhar que ama o que perdeu.
Já não vêm as auroras no bico das aves
nem se ouve a canção de amor
dos tangerinos.
A morte nos abóia. Exaustos, resistimos.
Se se acaso caímos os nossos dedos
começam a replantar a rosa da esperança.
Ai Ceará
teu nome está em nós como um sinal
de sangue, sonho e sol.
Chão de lírios e espadas flamejantes,
território que Deus arranca dos demônios,
mulher dos andarilhos, dálida da canícula,
em nós tu mil rorejas. Pousas. És canção.

 

2.
 

Para cantar-te me banho em tua mem';oria
e ouço a voz enternecida
diante de esfinges soluçando.
Oh! ver-te apunhalada — e o sol
roubando tua frágil adolescência
e ponto em tua face o esgar
de quem se sente, súbito, perdido.
Teus pobres rios secam
os galhos perdem os frutos
as aves bicam o céu
fogem as nuvens.
Então ficamos escravizados
à tua sede austera, ao teu desejo
de um dia seres bela igual às noivas
que se casam no fim dos teus invernos.


3.
 

Triste é ver as crianças finando-se nos braços
de mães alucinadas que vendo-as à morte
inda cantam de amor canções do tempo antigo.
E ficas desesperada vendo os filhos
ao longo das estradas onde há pouco
trabalhadores cantavam an entardecer.
Mudas a voz, então: és cantochão
és réquiem crescendo à sombra dos degredos
és rouca como presos que murmuram
palavras dos dias em que foram
jovens e felizes.
Para cantar-te, Bem-Amada telúrica,
seria feliz se vez de vãs palavras
tivesse em minha boca chuvas e sementes.
Ai, viúva do inverno, flor violentada,
teu sol não brilha: queima. Mas um luar
renasce sempre no olhar
dos homens.
Ó grande olhar de pedra, sede e solstício:
te dessem um novo reino e nunca aceitarias!

 

4.
 

Belos são os teus frutos porque difíceis.
Em cada sepultura nasce uma rosa.
Em cada filho teu o amor é como o inverno.
Jamais tu morrerás. Não seríamos fortes
se por ti não estivéssemos em vigílias cruéis, ó mãe!
Mas se as chuvas te querem
como louco partimos
para o amanho da terra.
Os campos então ficam maduros
qual ventre de mulher,
e as bocas
— tranqüilas e felizes —
gritam
palavras de amor
que erguem
primaveras.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Rodrigo Marques, ago/2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque

Artur Eduardo Benevides


 

A sombra das palavras


As palavras nos recriam.
Às vezes, belas, nos reconciliam
com o vôo das cousas em mistério
ou o magistério
da solidão das nuvens do Sião.


Elas guardam a prenhez
de lobas solitárias. A lividez
das cousas fontanárias.
E as albas e os montes
cobrindo o descolor de velhos horizontes.
Ou de nossas feridas e súbitas partidas
para o nunca mais.
E tudo nelas é um velho cais
onde tentamos amar. E ancorar.


Podemos ir a Tebas, dançar em Babilônia,
ou ter uma alma dórica ou jônia.
E partir para o desconhecido.
Ou sermos apenas um gemido
por não havermos beijado os seios da Donzela
em sua cidadela.


As palavras são fendas
de onde vemos palomas descerem sobre lendas
e canções emoldurarem as moças nas varandas,
ou as plumas da tarde, as cousas mais brandas
e as pedras sagradas
em que se escondem as cartas das Amadas.


Em ritmo e verdade celebram a desventura
de nosso desviver e a incessante loucura
do entardecer fatal da Poesia.
Às vezes, têm o cristal puríssimo do dia,
mas chegam com leveza de pés de bailarinas
ou de róseas algas vespertinas
dormindo sobre espumas. E são brumas
abrindo-se no verso como rosas,
frágeis e formosas,
quais luzes de estrelas num rondó.
E mesmo poucas e loucas
estão nos sete anos de Jacó.


Os poetas são seus turiferários,
que êxtases ofertam, nos itinerários,
com um canto a prolongar
por terras de Aragão, ou às margens do Jordão,
fazendo do sonho uma estrela polar.
Em seu ir e vir
pelos campos desertos ou as tardes de Ofir,
tentam limpar a pátina e o bolor
do tempo interior.
Ou fazem renascer o perfume e o lume
da espera e da vida.
E essa é sua glória. Sua lida.
Seu barco, a descer, lento
pelos rios de nosso pensamento,
enquanto em sedução e solidão
transformam-se em abismo ou alumbramento.
 

 

 

Herodias by Paul Delaroche (French, 1797 - 1856)

 

 

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Lilian Mail