Jornal de Poesia, o nº 1 do www.google.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jornal de Filosofia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carvagio, Tentação de São Tomé, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Plaza de toros

Artur Eduardo Benevides


 

Itinerário - A poesia de Linhares Filho

 

in Diário do Nordeste,
06.06.1999


 

Conhecendo-o profundamente, posso afirmar, com a maior convicção, que possui um grande caráter, sem qualquer maldade em seu coração. Ele olha as pessoas com bondade, indulgência e generosa compreensão. É um ser humano admirável: sincero, cordial, grato e amante das cousas belas e eternas, mantendo-se humilde, sem orgulhos passageiros e vanglórias, diante dos êxitos alcançados.

Sua mensagem em continente e conteúdo, honra as mais legítimas tradições da Literatura cearense, que produziu, segundo Manuel Bandeira, um dos dez maiores poetas da Língua Portuguesa - José Albano, o imortal autor da “Comédia Angélica” e das “Rimas”, onde se acham sonetos neoclássicos da maior grandeza.

E o poeta Linhares Filho merece o calor de todo o meu louvor. Se intelectualmente é forte, moralmente também o é: jamais participou de corrilhos para denegrir, debicar ou diminuir de qualquer forma o valor de seus companheiros. Quando alguém não merece o seu elogio, mantém respeitoso silêncio, demonstrando fina educação.Agora, nos 200 anos do nascimento de Balzac, o grande autor da “Comédia Humana”, que deu novas perspectivas ao romance no mundo, o poeta reúne, pela Scortecci Editora de São Paulo, todos os seus livros de poemas em um só volume, para comemorar trinta anos de atividades intelectuais. E deu-lhe o sugestivo título de “Itinerário”.

Lembra-me um fato inesquecível: ao completar 50 anos de poesia, ele escreveu sobre mim um poema que me levou às lágrimas, da mesma forma que o fez, em magistral peça oratória, quando a Universidade Federal do Ceará me concedeu o título de professor emérito. São duas magníficas manifestações de sua inteligência que me engrandecem e me penhoram sempre, pois não sou daqueles que só olham a floresta mas esquecem a árvore.

Relendo os seus belos versos, fico a imaginar o motivo pelo qual T.S. Eliot declarou, talvez pour épater, que existam trezentas e sessenta maneiras de se fazer um poema. Ora, para que tão insólita classificação? Um poema é um recado que se manda ao eterno, ou uma inscrição que se faz nos muros da alma, do tempo e da vida. Os sonetos de Camões, por exemplo, e as demais peças da Lírica, são escritos dentro dos mesmos padrões clássicos, nos metros e nas tônicas, o que ocorre também com a Épica. E acho que as diferentes formas utilizadas, dos provençais aos nossos dias, jamais atingiram aquele elevado número mencionado pelo mestre da poesia inglesa, mesmo se considerarmos que essa nobre arte apresenta configuração holística, com linguagem e estilo, temas, técnica de composição, metáforas, metonímias e sinestesias, símbolos e alegorias, tendo como ponto de partida o que se chama de inspiração. mesmo com densidade imagética e lingüística porém, ela é simples e pura como a água da fonte ou as folhas de outono cobrindo as longas tardes como um grande manto de saudade.

Os que escrevem, no entanto, sem talento e sem haver lido os grandes poetas do mundo, para o indispensável conhecimento de sua dicção lírica, ficam a marcar passo, interminavelmente, pois a cultura é essencial em tudo.

Sobre isso, Linhares Filho nos dá uma verdadeira lição em seu livro “Itinerário”, demonstrando com largueza ao lado de sua indiscutível vocação, o amplo conhecimento que possui de arte poética. E a poesia é uma janela aberta nos séculos para a contemplação do tempo, do ser, do mundo, da noite, do mar, do sonho, do amor e dos caminhos interiores que um dia perdemos. Mas, se encostarmos o ouvido no chão da História, escutaremos também o pranto daqueles que amaram em vão, ou penduraram sua esperança na árvore do efêmero, ou não encontraram a estrada para a Fonte. Poesia é adoração, é a baudelariana volta à infância, ou a rosa morrendo em nossa mão porque não a enviamos a quem mais amamos.

Ela é o baile a que não fomos e a que tanto desejamos ir em nossa infância. É a grande viagem que não fizemos. A lágrima que não soubemos chorar. Ou a vela que não acendemos ao ouvir os monges a louvar nos mosteiros a misericórdia do Cordeiro de Deus.

Ai, poesia é a nossa tristeza por não podermos salvar Ofélia do fundo das águas, onde está escondido o olhar de Narciso! Ou de não sabermos baixar a ponte - levadiça de nosso castelo interior, como pregava Santa Tereza d'Ávila, para encontrar as moradas inefáveis.

Poesia é sobretudo o êxtase de amar. É a mão de nossa mãe afagando a nossa testa, na solidão dos dias encantados ou perdidos. É a voz do mar a nos chamar para os périplos infinitos, enquanto ficamos presos às contingências terrenas, vendo tudo se transformar num vasto e doloroso adeus.Ela é a minha saudade de Pacatuba. É a saudade de Linhares Filho das serenatas de Lavras da Mangabeira e das águas barrentas do Rio Salgado, nos dias de cheia. E por isso é bela e triste. E desperta palavras e memórias para que sonhemos acordados, como lembrava Bachelard. E não fiquemos nus diante do espelho de nossa consciência, praticando o amor em sua forma perente ou imorredoura. Aquele amor a que se referiu São Paulo na Epístola aos Corintios e Dante afirmou ''che muove il Sole e l'altra stelle''.

Poesia, enfim, é utopia, força encantatória, o surreal iluminante, ou a metáfora que nos envolve como a carícia do vento nos algodoais e fica, num entressonho, qual dádiva inesquecível, no cântaro frágil das recordações. Por isso, talvez o abade Henry Brémmond nos ensinou que ela é, também, uma espécie de oração.

E por ser um grande poeta, Linhares recebe de todos nós homenagem justíssima por sua fidelidade ao sonho e pela exemplar qualidade de sua produção intelectual em que se inclui também o ensaio literário.

A propósito, minha sobrinha Regina Fiúza, que foi sua aluna e obteve, em seguida no Rio, o Mestrado em Literatura, contou-me que ela e outras colegas estavam a estudar, com o maior empenho, para uma prova que ele daria no dia seguinte. Após horas de exaustiva leitura e interpretação de textos, uma das alunas, com risível zanga, declarou enfática: “Esse professor Linhares quer por fina força que a gente aprenda”.

Na realidade, ele foi sempre assim: extremamente zeloso em seus deveres e consciente de sua missão histórica. Sua obra literária, escrita ao lado de Mariazinha, a grande musa de sua vida e luz de seu coração, só louvores merece. E a Literatura cearense lhe agradece todo o seu trabalho criador e sua dedicação aos ideais humanísticos, numa época terrível como a nossa, de tanta turbulência e inquietação generalizada.

Que os céus o iluminem cada vez mais, meu poeta e querido amigo, para que você continue a ser uma poderosa voz na poesia brasileira, como autêntico operário da beleza e peregrino incansável das cousas perenes, engrandecendo o ser e a vida, enquanto o espírito imortal de Dom Quixote continua a separar a realidade que escurece do sonho que transfigura, e grandes aves brancas com o Pássaro Azul, de Maeterlinck, prosseguem em seu vôo sobre as estradas da fonte, cuja linfa preciosa lavará as feridas do nosso coração com a poesia resplandecendo em todas as almas.

Quero lembrar, neste momento, as palavras que Fernando Pessoa colocou no pórtico de sua belíssima “Mensagem”: - Benedictus Dominus Deus noster qui dediti nobis signum.

Esse signo, ou sinal, ou símbolo, ou aviso, no nosso caso, é o nosso destino de poetas e de descobridores de cousas invisíveis aos olhos daqueles que perderam a inocência de ver e de sentir e não enxergaam, nos refolhos da alma, as sereias a nadar no mar azul do sonho, as cousas e os seres encantados, o olhar das musas, - oh, o olhar das musas! - os lírios dos campos, as gaivotas pousando nos muros das saudades, o espírito de Deus andando sobre as águas, o Filho Pródigo, a voltar ao coração paterno e a descida de Orfeu aos Infernos para implorar, com os sons maravilhosos de sua lira, que lhe devolvessem a bela Eurídice, o grande amor de sua vida. E na esperança do amor, entre o Oráculo de Delfos, a visão de Prometeu e os pastores de Corinto, vivemos todos nós, os poetas, um itinerário sem fim, glorificando o espírito e a vida, antes que a ganância dos homens transforme tudo em escombros.

Mas, o que é amor, a dar tanto sentido à nossa vida? Recuemos 500 anos para ouvir Camões, a quem nunca faltou “saber, engenho e arte”. O amor, para ele, é um


Não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei por quê.


E em outro soneto famoso nos diria:


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

 

Sobre esse tema, o tema supremo da Literatura mundial, escreveu James Baldwin: “Não é comum morrer de amor, mas neste momento, em todas as partes do mundo, milhões morrem por falta dele”.

Evitemos, pois, até nos faltarem as forças e quebrarem o nosso bandolim medieval, que as mulheres amadas sejam devoradas pelos relâmpagos que saem da boca e dos olhos de Leviatã. E continuemos a louvá-las, a escrever epitáfios para o mundo e suaves cantos para o entardecer das rosas e o adormecer das meninas cegas que ouvem espantadas, às vezes, os galos abrindo as pálpebras das manhãs. E louvado seja o nosso Deus e Senhor que nos concedeu, caríssimo Linhares Filho, o destino a um tempo só triste e belo de cantar. E vejo - ah, quanto vejo! - pássaros descendo dos céus e pousando em sua alma, que os guarda nos versos de seus livros. E veramente digo: você sempre me deu a impressão de conhecer os caminhos do eterno e os helespontos além dos quais se esconde o paraíso perdido. Por isso, o anjo da poesia jamais o abandonará, dando-lhe permanentemente a inspiração necessária à sua grande obra poética, em benefício da Literatura cearense.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Batista de Lima