Jornal de Poesia, o nº 1 do www.google.com

Artur Eduardo Benevides


Innamorato


I

O som de tua voz
é um ramo a nascer
da árvore da vida.
Com medo de perder-te,
sempre que chegas sinto
o travo da partida.
E quero ficar à tua margem
— Ó rosa e Mar! —
e ver tua leveza de pássaro
a voar.


II

Estar sem ti
é estar em silêncio de montanha
sem existir montanha.
É ficar em desterro,
ou regressar, calado, de um enterro
e tomar lentamente um copo de vinho,
sozinho.


III

Estar contigo
é sempre amanhecer.
É sentir que o sol de repente
toca em mim com a doçura
do que se põe no azul a florescer.


IV
Ai, tecelã da eterna poesia,
um pouco mais de ti em mim
e eu voaria!
Nem me dês teus frutos.
Basta que sorrias.
Não mereço mais. 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Grief of the Pasha

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Euclydes da Cunha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

Artur Eduardo Benevides


Elegia de Parajuru


Rejuvenesço ao sentir-te em mim
nesta praia quase sem fim
onde a brisa põe-se a erguer
em seus lábios a tarde.
E tudo, em meu desejo, vem a ser
a fogueira final que ainda arde.


Ai, tens poder de luar no outono dos rios!
Ou da nuvem tão leve
a mandar-me, num momento breve,
seu adeus retecido de fios.
Tens
a cor do silêncio e do fruto ao nascer.
Vens
na pureza floral de cada amanhecer.
E que te posso pedir
além do imenso desejo de sentir
a maciez de lã de tua alma veleira
ou esse teu florir de nuvem mensageira?


A um tempo só, és sagrado ritual
e navalha a cortar-me em minuto final.
E teu olhar de loba resplandece
neste poema que em vão se oferece,
trazendo, não de todo em vão,
o sobrevir do amor nos braços da canção.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Fernando Py

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba,

Artur Eduardo Benevides


 

Os amigos, ao entardecer


I

O tempo é breve e as afeições são poucas.
Os cabelos já tomam a cor das despedidas.
Tantas, as viagens! Quantas, as partidas
para as paixões, as festas e navegações?
Fraternas mãos vieram e me cobriram
com cálidos lençóis.
E preparei anzóis
para pescar os salmões do amanhecer.
Um dia, com os amigos, acendi fogueiras.
Deitamo-nos na relva, de alma ainda inteira.
Ou fomos olhar os trens
que vinham dos verões.
Vezes houve em que rimos, quase alucinados.
Nem vimos os exílios, demorados.
E estivemos unidos em nossos corações.


II

Agora peço ao mundo
palavras de leve comunhão.
Talvez como outrora, ao ver as gaivotas
pousarem nos varais de vãs recordações.
E só com os amigos não terei artifícios.
Eles são semelhantes aos galos nas trevas,
acordando os portais e os cais
de que a alma é serva.
E lhes direi, um dia, o meu segredo.
Vou falar-lhes do medo
de morrer longe dos olhos da Mulher Amada.


III

E a brisa da tarde vem
por todos os lados.
Mas a ninguém dissemos que estávamos cansados
ou que, nas lâmpadas que ainda bruxuleiam,
acaba-se o pavio.
Ficamos a olhar a barca pelos rios
e queríamos apenas uma voz de menina
trazendo nos ombros os galos-de-campina
que voaram lavando a nossa infância.


IV

No resto do mundo
um murmúrio geral vai crescendo no escuro.
E a noite parece um ladrão a esgueirar-se
sobre os nossos muros.
Limpamos, então, lentos e calados,
nossos retratos no tempo pendurados.
E pensamos no dia em que chegar
o adeus.
Oh, o adeus, essa palavra sagrada
que guardará no infinito
a inutilidade de nosso pobre grito.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Barros Pinho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

Artur Eduardo Benevides


 

Num sonho


Em minhas mãos tomo teu rosto agora
E não sei se esse gesto vai ferir-me.
Não sei se fico aqui, pensando em ir-me,
Ou se a teus pés sucumba sem demora.


Tenho medo de amar! Vou demitir-me
Desse ofício de sonhos. Vou-me embora.
Mas, o Amor me chama e nele ancora
O meu jeito de ser e de exprimir-me.


Tomo teu rosto, então, por um minuto.
Um grande amor, do eterno claro fruto,
Envolve-me de todo e com loucura.


Entregue fico então ao meu desejo
E ficas em meus braços e te beijo
E morres de prazer e de ventura.
 

 

 

Rita Brennand

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Herodias by Paul Delaroche (French, 1797 - 1856)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque

Artur Eduardo Benevides


 

Soneto autobiográfico


O meu modo solene, o jeito vago,
A metódica forma de enfrentar
Os problemas, as lutas, o desar
E as outras cousas que em silêncio trago,


Nasceram quais nenúfares no mar,
Ou serenas visões de um grande lago.
Mas nunca os procurei, tampouco afago.
A minha face externa, singular.


Habito etérea torre em decadência,
Mas essa é minha marca de existência.
O meu destino. Ou sorte. Ou meu fanal.


No coração, contudo, vos abraço
E sigo pelo sonho passo a passo,
Tentando ser moderno e provençal.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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José Lívio Dantas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

Artur Eduardo Benevides


 

Momento


O vôo dos pássaros prolonga
a beleza das tardes.
E há, em nosso olhar,
um vasto
dealbar.
Tudo, em grandeza, torna-se possível.
O visível nasce do invisível.
As nuvens acenam, de repente.
E aquilo que emergiu
é o emergente.
 

 

 

José Saramago, Nobel

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Edmilson Caminha