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Artur Eduardo Benevides


 


Dois contistas cearenses



 

 

Entre os cearenses que triunfaram lá fora, em decorrência do seu merecimento literário, dois, por coincidência residindo em Brasília, mereceram sempre minha maior atenção e acompanhei, por isso mesmo, com grande interesse o seu êxito, na Poesia e no Conto. Refiro-me a José Hélder de Sousa, cujos poemas estão atingindo um alto clima de despojamento formal, em favor da essencialidade, e a Nilto Maciel, que lançou, não faz muito, nova coleção de contos – As Insolentes Patas do Cão – deixando-me a impressão de que se acha no melhor momento de uma criação, no gênero.

José Hélder, que hoje integra a Academia Brasiliense de Letras, tendo como patrono o admirável Raul de Leoni, uma de minhas devoções literárias mais intensas, é autor de belos poemas interpretativos do ser e do mundo, com alguns versos isolados da maior grandeza, dignos de um Jorge de Lima, de um Augusto Frederico Schmidt, de um Vinícius de Moraes. Isso, a contar de sua estréia, com A Musa e o Homem, aos poemas que se acham em As relvas do Planalto, com uma visão madura das cousas reais e irreais.

Agora, surpreende-me com a beleza desse Rio dos Ventos, volume de contos e novelas, numa demonstração de que nasceu vocacionado também para a ficção. E o livro é excelente, deixando no leitor a impressão de haver sido escrito por quem tem o segredo do fazer literário e se aprimora cada vez mais em seu ofício, graças ao talento que trouxe do berço, como uma predestinação.

Destaco a sugestiva peça inaugural que dá título ao livro. Um título, diga-se de passagem, muito poético. E a narrativa surge, maiúscula, pungente, sofrida e humana. O autor conta uma saga do Brasil antigo, nas ribeiras do Acaraú, em que aparecem Profiqua Mendes Carneiro, do casamento à morte; Chico Pachola, o senhor de terras e seu marido; o vigário apaixonado; as “noivas do rei”; a casa cheia de roseiras, jasmins e manacás; as tricas e futricas de campanário; a vila humilde e nascente. Uma história densa, romântica em alguns lances e trágica no desfecho. Realíssima e de certa forma lírica. Ou pastoral.

Considerei muito bom o casamento da ficção e da História. José Hélder, que usa também o recurso em “Senhorão”, tem ótimo desempenho como narrador, cousa que aprendeu, sem dúvida, nos longes da infância, em Massapê e Sobral, ouvindo os Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, do português Gonçalo Fernandes Trancoso.

Rio dos Ventos, no meu entender e julgar, merece leitura e releitura. O autor atinge, nesse livro, um dos momentos mais significativos de sua arte, com a mesma força que já nos acostumáramos a ver no poeta que ele é.

O outro escritor a que me referi de início é Nilto Maciel, que se iniciou na década de 70 com os promissores contos de Itinerário, publicando depois, no mesmo gênero, Tempos de Mula Preta, A Guerra da Donzela e Punhalzinho Cravado de Ódio, este considerado por Sânzio de Azevedo um excelente livro.

Dele, leio agora, com certo encanto pelo poder das imagens e de síntese, As Insolentes Patas do Cão, em que trabalha com elementos oníricos e mágicos, poéticos e míticos, combinando universalismo e regionalismo, lembranças, vivências fundas, lendas e realidade. E se sai muito bem dessa tarefa, com alguns contos admiráveis, em conteúdo e estrutura, ou fundo e forma.

A partir de “Ícaro”, com que abre o livro, trabalha os seus contos de forma moderna, evitando o descritivismo exagerado da era Maupassant, e se atendo ao essencial, em breves (mas profundas, às vezes) registros de um momento, que caracterizam a short-story. Mesmo o erotismo, como em “Incubação”, é comedido. E há traços machadianos na “Teoria do Amor Socrático”, em “Os Belos Olhos de Sônia” e “O Inseto”. Já o inesperado surge em “A Voz Indecorosa”, em “Mon Amour” e “O Confessor Lascivo”. E o fantástico lá está, muito bem lançado, em “O Vencedor” e “A Última Festa de um Homem Só”.

Nilto Maciel, com muito talento, combina, para meu agrado, como seu leitor, o real e o fantástico, cousa rara na Literatura Cearense, se bem que tenhamos exemplos em Emília Freitas, no século passado, em Moacir Lopes (“O Passageiro da Nau Catarineta”) e José Alcides Pinto. Ele não teme trabalhar com elementos assim, desafiadores, chegando a resultados excelentes.

Outro aspecto a destacar, na ficção de Nilto Maciel: a fascinante presença da fábula, como em “A Fala dos Cães” e outros momentos do livro. Esse é um legítimo conto medieval. Ou uma quase parábola, em que, desmentindo um pouco o Professor Massaud Moisés, de vasto saber, para quem “animais não podem ser personagens” (in Dicionário de Termos Literários) ele prova o contrário. E traz, como figurantes de outras histórias, serpentes, gatos e ratos, da mesma forma que o velho Calderón de la Barca transformara a fé, a esperança, a água e o fogo em personagens. Mas, esse é outro problema, muito interessante, por sinal.

Em resumo: As Insolentes Patas do Cão (que título expressivo!) são contos que se acham na categoria de muito bons e de excelentes. Contos com a marca registrada de Nilto Maciel, expressa através do binômio – talento e autenticidade. E já é muito, hoje em dia, com tantos naufrágios por aí, nesse importante gênero.
 

 


 


 

 

 


 

25/07/2005