Jornal de Poesia

Soares Feitosa

Abismo em três dias

 

No primeiro dia:

 

a insônia

Não me culpe,
nunca tive culpa da brisa.

Sim,
para alcançar o vale,
há que saltar sobre o abismo.

Era uma noite leve,
o convite ao chope,
quando os olhos,
inesperados
se agarram
sob a fagulha,
que verd’azuis
eram os olhos:

— Seu nome?

Sim, 
sou, 
sou eu que já te procurava.

A mim, a ti.

Uma despedida rapidíssima,
e o telefone,
sob um número,
para uma noite impossível
assentar
quaisquer idéias
que voam latejadas.

Por enquanto,
absoluta incerteza do presente:

amanheça.

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

 

No segundo dia:

 

o re-encontro

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

Encontram-se agora,
aqui,
em nós dois
alma, voz, gesto,
como se
de muitos fossem os tempos
para além da fronteira de todo o Tempo.

 

Desde,
ali
encontram-se,
encontraram-se,
pois a certeza que nos cerca:
somos.

 

Impossível dormir,
nesta segunda noite,
dança-me à mente o bailado dos fantasmas.
Por que não antes?

 

Das incertezas,
porém,
que permanecem:

 

Ela,
que também as sorveu:
dia seguinte,
nos soubemos cada qual, de si,
as incertezas.

Sim,
sou.
Pelos tempos,
o tempo todo.

 

Mas, agora - boa noite -
a pracinha, as luzes, o calçadão,
é tudo incerto.

 

Haverá um amanhã?

 

Irrefutáveis porém
a insônia, 
a fagulha, o incêndio.

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

 

No terceiro dia:

 

até

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

Mudem-se os trajetos,
rasguem-se os folhetos,
devolvam-se os itinerários da viagem
que não deve ser feita
hoje de noite.

 

Nenhuma viagem, que não a do coração,
deve ser feita, 
jamais
à noite.

 

Vá,
deixe para ir amanhã de manhã, porém.

 

Pertença-nos,
com  as certezas e a penugem,
a noite
quando os gatos,
à beira dos incêndios,
nunca são pardos.

 

É assim mesmo?

De onde nos saem enlevos tantos ?

Manhã, que outra vez insone:

Vá,
aliás, fique, 
fique o tempo;
eu também vou
e fico.

 

Um rastro nos céus,
rapidíssimo:

 

1. silêncio de uma infinita paz interior;

 

2. estrépito de uma brutal inquietude interior:
rasga-me o peito a chama murmurada.

 

 

As cinzas,
onde as cinzas
para me aspergirem  a fronte?

 

Onde as garras

a me rasgarem as vestes?

 

 

Até.
                     Até.
                                         Até.

 

 

 

Salvador, BA, noite alta, 06.07.1995

 

jornaldepoesia@hotmail.com

 

jornaldepoesia@gmail.com

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

Clique para ampliar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion