Soares Feitosa

Gatas de Boa Viagem
 
 
 

Ao passeio matinal,   
raios do sol mediterrâneo,   
já me indaguei sobre mistérios   
e à presença súbita de um anjo   
foi-me dito,   
pela boca sagrada do anjo:  

      É mais fácil secar este mar    
      com este pequeno balde...
Desta vez,   
o inconsúltil mar-oceano,   
um pequeno buraco, de areia,   
uma pequena mulher,   
angela da manhã,    
uma pequena vasilha,    
aos raios deste sol do equinócio,   
brilham as águas verdes,   
brilham-me, na memória, teus olhos verdes,   
verdes campos, verdes matos;   
azuis, os céus que também brilham...,   
e .................................................................... de joelhos,   
consulto o horizonte   
à procura   
do teu rastro, amor!   
   

Testemunha-me  a brisa da manhã,   
certificam-me as algas marinhas   
volutas conchinhas me dizem:   

        ela está longe, meu poeta!   
        estamos longe, milhas e milhas,   
        miríades de passos - espaço -   
        muito longe...
Rastejo outra vez o horizonte   
e à minha frente a mesma mulher,   
de todos os dias,   
a mesma vasilha, de todas as manhãs:   
   
      Afinal, minha senhora, bons dias,   
    esse balde de areia...   
    algum aterro?   
    Sou um poeta, meio sonâmbulo,   
    desculpe, bons dias,   
    por favor?!   
       

      Este balde de areia,   
    eu o levo todos os dias,   
    é a minha penitência,   
    a minha saudade;   
    quando eu era menina,   
    li a história de um rei,   
    um travesseiro,    
    também de areia...   
       

      Quem repousava no meu travesseiro  
    [e fez o gesto:  era regaço]  
    em viagem,   
    e aí eu busco esta areia   
    e espero...   
    mesmo sabendo que não..., 
    [e fez o gesto:  era infinito]  
    mesmo assim, todos os dias,   
    um balde bem cheio.

São histórias do mistério,   
mistérios da areia,   
mistério trino, Agostinho;   
são histórias da saudade,   
saudade ímpar, minha senhora:    
Bom dia, até amanhã!   
    Um instantim,   
    senhor poeta,   
    esta areia que colho,   
    esta penitência que recolho   
    é para as minhas gatas...   
     

    Três,   
    lindas...   
    Uma está de gatinhos...   
       
    [...]   

    O senhor quer um?

Sim, eu quero! 
 
 
Recife, Praia da Boa Viagem, manhã, 30.06.1994
 
Notas: 

Rei: Dom Pedro II, Brasil, no exílio em França - dizem - dormia sobre  um travesseiro de terra do Brasil. 

Agostinho: Santo Agostinho, filósofo e escritor confessional.  
Mistério da Santíssima Trindade, episódio da meditação e das  
aflições da dúvida perante a mente racional:  aparição do anjo, na praia.


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