Jornal de Poesia

 

Soares   Feitosa

  Psi, a Penúltima  
                                                                       um poema heróico   

Em sendo maiúscula

Y

é candelabro  
fogo, 

luz, glória 

 

Em sendo minúscula 

y

é mandacaru,

sofrimento, 

resistência

 

 

 

Já se sabe:

para uma notícia justa

há léguas de cacofonias,

de confusões verbais e de incoerências

[Jorge Luís Borges, in A Biblioteca da Babel]

 

 

a Gerardo

.

Tirinete de abrir

A CITAÇÃO   
à maneira de mote:  
  

 

 

(...) a tua verde mão   
terra de aurora   
pois te cerca e me cerca    
a aurora com suas coisas:    
e são coisas da aurora   
a estrela morredoura   
a nascedoura rosa   
e sob o azul azul   
do céu o boi mijando   
fervoroso no curral   
o relincho do cavalo erecto    
sobre as ancas da égua   
estas são — parece — coisas da aurora   
e a aurora é coisa minha   
...................................   
...................................   
quem sabe deste infante?   
a coronha do rifle   
o percorrido mapa   
e um promontório de ouro   
— ó musgos de Isabela —   
e esses musgos de fêmea   
são coisa minha   
só tenho as minhas coisas   
e as minhas coisas são   
o cavalo a égua o touro   
o bode o rifle esta dama de copas   
este gibão de couro   
e a rosa que te colho:   
e essas coisas trabalho   
e também a viola e o mapa-múndi.

A OFERENDA

no mesmo tom do mote, 

a Gerardo, Poeta

 

 

Mandei campear

nas minhas sesmarias

 

 

Soares

&

Feitosa

 

 

 

o meu melhor novilho

para soltar nos teus Mourões

que também são coisa minha!

 

 

 

Um guapo garrote,

linhas tão finas,

tão gentis

——————»—»—» e tão guerreiras!

 

 

 

Era a minha melhor rês,

geometria tão pura

do Agrimensor!

[De Gerardo Mello Mourão, 

fragmento do primeiro poema 

de Peripécia de Gerardo]

Soares Feitosa

das terras de Siarah,
  Recife, 12 de dezembro, Seca do 93

 

 

 

 
 

Da notícia

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

III Semana da Raiva no Maciço tenta obter controle da doença

 

O surgimento de 11 casos positivos de raposas com raiva, em municípios do maciço de Baturité fez a Secretaria Estadual de Saúde promover uma reunião de emergência, no Seminário de Guaramiranga. Aberto ontem de manhã, com término previsto para as 18 horas de hoje, a III Semana da Raiva de região pretende capacitar profissionais para implementar o controle da doença. Dez mil cartilhas serão distribuídas pelos agentes de saúde, ensinando a população como agir no caso de mordida dos animais, e como evitá-los. 

Segundo o coordenador das zoonoses no Estado, Nélio Batista de Morais, a raiva silvestre ainda é um grande problema no Ceará e nos países do primeiro mundo, tais como o Estados Unidos, Canadá, França e Bélgica. Não há prevenção da vacina em se tratando de raposa, morcego e sagüi. Assim, destaca, ser o trabalho de educação em saúde o mais eficaz, sensibilizando o cidadão para evitar o contato.

 

RAPOSAS EM BANDO

De acordo com o depoimento de pessoas agredidas, as raposas surgem em bando, geralmente ao final da tarde e perto de localidades com água. São animais magros, já apresentando queda dos pêlos. Nélio acredita que isto aconteça por conta do desequilíbrio ecológico causado pela seca. Os animais, devido o instinto de sobrevivência, estão migrando de seus territórios para outros, gerando inclusive ataques entre eles e transmissão maior do vírus da raiva animal.

Os casos de raiva, este ano, foram diagnosticados em Acarape, General Sampaio, Mulungu, Pacoti e Horizonte. Ano passado foram sete, dos quais 90% concentrando-se em Tianguá. Através do trabalho educativo do 12º Departamento Regional de Saúde foi possível o ano de 1992, com o foco, e sem ocorrer o registro de raiva humana. Em caso de agressão, Nélio recomenda as pessoas a procurarem urgente a unidade de saúde mais próxima, para se submeterem ao tratamento anti-rábico.

A situação no Maciço de Baturité foi exposta ontem por José Delson Portela de Aguiar e José Eduardo Cabral Maia Junho. A política de saúde da região foi explorada (sic) pelo diretor do 1º DERE, Raimundo Gomes de Matos. Hoje a abordarem será sobre o diagnóstico laboratorial, de cuja mesa redonda, Nélio Morais também participa e a programação se desenvolve ainda com a avaliação dos casos de raiva feita por Francisco Fraga Pereira, concluindo com as propostas para implementação do controle da raiva, no Maciço.

 
 

CANTO I
 

DOMINANDO A SERPENTE
 

 

Na página anterior,   
sintetizei os jornais,   
mostro o pau e mostro a cobra   
de chocalho,   
dezesseis enrusgas,   
contei e guardei.    

                                                     Consertava...   

—  É com cê ou é com esse?   
    

                   Tanto faz, 

                   água,   
                   água aqui é sempre música,   
                   o pau-da-cacimba do gado,   
                   com o Mitim da dona Cotinha,   
                   areia seca, rio Macacos...   

                   quando ela chegou,   
                   Crotalus terrificus... naquele tempo!   
    

Matei e enterrei,   
buraco do formigueiro.   
    

                   Os jornais de minha terra   
                   nem souberam, nem disseram...   
    

—  E era para saberem?   
    

                   BBC, Voz da América,   
                   Rádio Tirana, nem um pio...    
   

—  E o meu rádio e o meu jornal?   
    

                   Lá em casa não tinha rádio,   
                   muito menos jornal,   
                   os assuntos eram os de sempre,   
                   de manhã, de tarde e de noite,   
                   comeu, trabalhou, dormiu!   
    

 

Agora peço licença   
para contar o silibolo:   

é outro pau,  é outra cobra,

nem é pau e nem é cobra,

é tudo pau, é tudo cobra!   
   

      Raposa? Nunca matei!

      Pois lá vai tinta: 

 

 
 

CANTO II
 

A BUSCA
 
 

À notícia dos jornais,   
corri ravinas, malocas, locas,   
espinhos, garranchos, carrapichos,    
buracos, pedregulhos, poeiras, caatingas,   
tocas, ocas, precipícios...   
   
   

       Gritei:   

      alwphx (alopex) ?!   
      Vulpes?!   
      — Renard?    
      — Renaaaard?
Não escutei,   
quase desisti.    
Lembrei Assis, Canindé, Francisco:   
    
      — Francisco?!    
          
      —  Francisco!?
— Fale simples,
chame a “Comadre”
(disse o Santo),
é a senha,
batei, abrir-se-vos-á!
 
Do oitão da Basílica, Canindé,   
ao Pico-Alto,    
ao Pico do Caga-Fogo,    
vaga-lumes apagados...   
Baturité, maciço,    
às brenhas,    
todas as brenhas.   
Ananias autorizou.

 

 
 
 

CANTO III

O ENCONTRO
 
 

— Comadre Raposa,    
oi de casa, sou de paz! 
  

— Diga lá, compadre Chico,
   irmão Francisco já avisou...
       escutei o compadre chamar
          Helade, Latium, Gallia
[sem a senha, jamais responderia...],
          muito prazer,
sua criada,
            a Comadre.
   
    Avistei a Comadre,    
    esquálida, cinza, fulva...   
    caídos os pêlos,    
    magra,   
    pelagra...  

                
    Arrepiei!  

    Arrepiei!  
      

    Três cabelos, pretos, duros,    
    do Coisa,   
    ponta do rabo,   
    a Comadre carrega, dizem.   
    sub   
    super   
    fantástico   
    extra-sensorial...!   
        

    Quem já viu a Comadre,    
    vasqueira,    
    chofre!    
    Cacimba de praça,   
    riachote do gado,   
    tardinha barrenta,    
    cinza, poeira,  pó:    
    Pfummm chiiiuufff chiiiuuufff   
     

    Dentes, rapa-pé, garras, hiato, pizzicato!!!   
    Arrepio tremido,    
    espanto!    
    Um susto:    
    fugiu!   
    Cadê?!    
    Cadê!?    
    Fumaça:    
    sumiu!  
     
    Se não assustou,    
    é o próprio Capeta...   
    ou, finório mentindo,    
    cabrão disfarçado.

     

     

— Foi medão, Comadre!   
 
— Não tema, Compadre,
   os três-cabelos,
deixo de lado...

 

 
 

CANTO IV
 
CONFIDÊNCIAS
 


— Antes que eu me esqueça,   
 
tá’qui a borracha-de-sola,     
o Santo mandou;    
agora me diga, Comadre,     
é verdade,    
tanta coisa que dizem?!   

 
— Compadre Chico, longas queixas,
   tiraram séculos de assinatura:
cantadores, poetas, profetas,
     escultores, pintores, prosadores
      dizem-me bruxíssima,
       do Coisa-Ruim.
 
 
— Não sou!
   Direitos divinos eu tenho,
    d’Ele!
     “Até a raposa tem sua toca”,
      Mateus, capítulo oito,
       versículo vinte,
        faço questão,
         vá conferir!
 
 
— É tudo inveja, Compadre,
     da doação...
      d’Ele...!
 
 
— Acabem-se os chiqueiros,
     destruam-se os currais,
      estábulos e pocilgas,
      as cavalariças reais,
        acabar-se-ão todos, Compadre...
         menos a minha toca,
          Ele disse:
           é da Raposa!
 
 
— Daí a inveja.
        É tudo inveja, Compadre!
 
 
— Lenda também os três-cabelos...
    Passe a mão, Compadre:
      veludo, maciíssimo...
       só um pouco resseco,
        da Seca, Compadre.
 

— É verdade, Comadre, finíssima seda!

 

— Espertíssima, fabulam;
    democrata, mineira, dizem
      orçamento, empreiteira, CPI,
       fosse verdade, teria eu ficado,
        com sêde, na sêde,
         doida, faminta, varrida?
          Estaria em França, Suíça, Londres,
          circuito das águas...
            faminta, jamais aqui!
 
 
— Uma injustiça, Compadre,
   Esopo, Fedro, La Fontaine,
    La Bruyère, Exupéry,
     sentenças & aforismos.
 
 
      Espertos, eles!
          Pra cima de moi,
           zombam de mim,
tudo inventado, Compadre.

 

 
 

CANTO V
 
PERSEGUIÇÕES
 

— Agora, o panfleto,
   veja, Compadre,
       a infâmia!:
        Procura-se!
         Bandida!
 
— O que irá dizer compadre Urubu!?
   É quem está gôoorrrdo, Compadre!...
       Irmão Francisco teria esquecido,
        não mandou um queijinho para ele?

— Ah, sim, mandou, claro,     
por favor, tome,    
entregue você mesma.

— Meu daguerre...  Compadre,
   no portão da feira,
        aeroporto, estação do trem!?
 
 
— Estou tão magra, arrepiada,
         um shampoo,
           uma mise-en-plis...,
           o rouge, Compadre,
            você tem um?!
 
 
 — Dez mil panfletos...?
       é demais, Compadre!
               Estão loucos!
            Eles,
não eu!

 

 
 

CANTO VI
 
TALENTOS & CRUELDADES
 
 
— Veja, Compadre, a Injustiça:
      Mico-Leão Dourado,
        Baleia, Panda, Peixe-Boi,
            minhas irmãs, Azuis, do Canadá...
             São os Ricos!
             Pobre Raposa Cinzenta...
              Sede, com sede e sede!
              Cacimba, cacete, armadilha,
                  está doida, dizem!
 
— Fosse com eles, os ricos,
       nestas brenhas:
        pires-de-leite,
            nectarinas,
            uvas, Compadre!
             até uvas
               já teriam ajuntado!

— Comadre, confie,    
um dia chove!   
Canapuns, maxixes, melancias,    
rasteiros!   
São seus!

 

 
 

CANTO VII
 
ENGODOS & ESPERANÇAS
   
 
 
— Compadre, e um rio,
   dizem que vão puxar,
    nome do Santo, irmão Francisco,
       uvas, dizem,
        é só o que tem!
          É verdade, Compadre,
          tem mesmo?
 

— Moscatel, champagne, itália,  
de-mesa, rosée, lindas, um mel!  
Do tamanho de um oiti!   
Tem, Comadre, tem!

— ........................  Maduras, Compadre?

 

— Sim, Comadre,  maduras!

 

— ............................................ Compadre,
   com esse tamanho todo,
      devem encostar no chão................. não?
        Aqui só entre nós:
        ................(baixinhas), Compadre?

 

— Pode confiar, Comadre, bem baixinhas!

 

— Compadre, é assim mesmo...
       tão fácil... incrível!
           Eles não atrepam os galhos...
            por que, Compadre?

 

— Comadre, é que.......................................   
..................................................por...  lá...  
nem gostaria....................................  
...............................................  eles...   
aca... ... ...   
acabaram.............................  
com... .... ....  com as...  
com.....................   
Com com  as rar-ra-rar-ra-  
raposas!   
Acabaram!

 
 

 

 

 

 

 

 

y 
a Penúltima. 

Se minúscula: 
Seca, cardeiro, 
mandacaru, sofrimento & resistência.

 

 

 

Michelangelo, Pietá

 

Michelangelo, Pietá

 

— Compadre, deixe esse rio pra lá...

       Sei que você trouxe a máquina,

        bata logo o tal retrato,

            ande logo, Compadre,

             é do meu destino:

             vou fugir!

— Comadre, fugir não é destino,  
é fugaz alternativa do ficar e lutar...  
Não trouxe máquina nenhuma,  
nem sei fotografar!

 

— Esse embrulho, Compadre, o que é?

 

— É um lençol, Comadre,   
do melhor linho...  
esses potinhos: incensos, aromas...,   
vim preparado, Comadre!

 

— Preparado para o que, Compadre?

   para me embrulhar,

    para me vender?

        Por que não me beija logo?

         Afinal, quem é você?

 

— Comadre, sou Piros...  
Acompanho os Heróis,  
Francisco não lhe disse?

 

— Tão manso de coração, o irmãozinho...

      Eu o notei preocupado...

      Chico Pires, Compadre,

       é assim mesmo a sua graça?

 

— Não deixa de ser também, indiretamente...  
Chico, de Francisco, faz parte da senha...  
Pires, não é nele que colocam o lume?  
O Candelabro,   
a penúltima letra...

 

— Letra?

      que letra, Compadre?!

          vão escrever o que no panfleto?

           Todas as mentiras de sempre?!

            Por que a penúltima, Compadre?

            A última não seria mais rica,

               O w mega (o ômega)?!

 

— A última não existe, Comadre,  
nada é último...  
Só Ele, quando voltar...  
Último acaba...  encerra... aniquila.  
Penúltimo, nunca esgota,  
sempre é possível   
criar...   
criar por sobre...!  
Tudo em aberto, Comadre!

 

— Compadre, o seu mestre-escola

      não perseguia o Dez?

           Contentar com o Nove, Compadre,

        não seria inferior?

             Estaria o Compadre justificando

            esse um faltante,

             ao discípulo,

                  o direito de discordar?

 

— Comadre, nada é Dez, 

nada é Ômega,   
já expliquei...  
O correto é Psi, a penúltima,   
sempre tem vaga...  
Ômega é Ele,   
você interpretou direito,   
nunca esqueça,   
fique com o Candelabro!

 

— Compadre, por que o Candelabro, 

nestes matos secos?

   vão-me tocar fogo?

    Os três cabelos...

     Nunca fui bruxa,

         é tudo inveja, já disse!

 

 

— Não, não, Comadre!   
O candelabro é a maiúscula;  
o mandacaru é a minúscula...  
Mera questão de escolha, Comadre.

Veja, aqui está o brasão:

Yy

—  Mas sou Piros,  
o Fogo, grego, Comadre!

 

— Queima o que, Compadre, esse seu fogo?
   Tão gentil, abrasa corações?
    Um espelho, Compadre,
     você tem um?

— É um fogo muito velho, Comadre.  
“Eis o fogo e a lenha,   
onde está o cordeiro?”   
Eu estava lá...,   
vi tudo, Comadre!

 

— Onde mais. Compadre, você andou?

 

— Em Varsóvia, no Gueto,  
Toledo, Massada, Termópilas,   
Canudos, Caldeirão, Calvário ...  
Petrogrado, também no Paraguay,   
La Moneda, estive com Mandela...   
Corro o mundo todo... a postos...  
Surja um Herói,   
chego junto, erijo o Altar!  
Trabalho muito pouco,  
difícil surgir um...  
Senti o cheiro da Glória,  
por isto estou aqui...

— Heróis, Compadre, nem pensar.
       Já disse, vou fugir,
           é do meu destino,
            sempre fugi,
nunca deixei de fugir!

— Tem sido por isso, Comadre,  
a outorga... d’Ele!   
Ainda assim fugindo...  
Sempre fugindo...   
A vida...?

— Compadre, por favor, não zombe...
       minha fraqueza,
        não basta a Seca, não basta a sede,
             agora também o panfleto,
             o Compadre acha pouco?!
                  Agora me diga, Compadre:
              o lençol,
              as essências,
               afinal,
                    para quê?

— A Comadre queira dar um basta,  
lute, lute, até o último de seu...  
Estarei aqui, neutro   
nunca intervenho,  
não posso intervir!  
Eu sou o Circo, Comadre,  
o grande Circo,  
eu glorifico,   
só isso,   
eu glorifico!!!

 

— A Comadre arriscaria tudo,   
a vida, claro,  
risco total,   
mas poderá ganhar...  
Fugindo,   
escrava, escrava, escrava!   
Sempre escrava...   
sempre!? 

Os fabulistas, Compadre,

foram eles,

pregaram uma peça no Compadre!

Brigar, como poderei?

Eles são fortes!

E se eu morrer?

 

 
 

CANTO VIII

AVENIDA COMADRE
 

Comadre, dez mil panfletos, 
ninguém jamais escapou... 
Se a Comadre batalhar bravamente, 
mesmo que a despedacem... 
as outras raposas virão 
quando o inimigo se retirar... 
Cheirarão um fraco corpinho, 
farão um grande alarido, 
mas dirão: 
estes caquinhos, 
tão magrinhos, 
é a nossa Comadre!

 

Depois, elas sairão, cabisbaixas, 
de luto, 
engrandecidas, porém, 
sempre voltarão! 
Um obelisco, 
um pedr’e-cal, 
letras de bronze: 
A Comadre!

 

Muitas raposinhas do próximo inverno, 
de infinitos invernos, 
se chamarão Comadre! 
Orgulhosamente: 
Comadre!

 

Aquela vereda-maior, 
por onde elas correrão, fogosas, 
folguedos de quando chove, 
onde elas dançarão, viçosas, 
seu alegre fox-trot
será por todo o sempre: 
Avenida Comadre! 

 

Aqui estou e aguardarei 
presente-e-ausente, 
a pira do Herói 
acesa! 
Invisível!

 

Logo após a luta, 
bradarei: 
Esta é a Comadre Raposa, 
aos Quatro Ventos, 
Ad Æternum! 

 

Pegarei, então, 
carinhosamente, 
ternamente, 
todos os seus trapinhos, 
todos os seu pêlinhos... 
Linda, a Comadre! 
Resplandecente! 
Sucessivas dobras, 
deste lençol de linho, 
aromas e essências...!

 

yYy  

 

Uma liturgia sagrada, respeitosamente, 
levarei a oferenda a Canindé! 
O Santo, doce e solenemente, a receberá; 
remeterá, regozijado, a Ártemis, 
mais carinhosamente ainda, 
com um séquito de Ninfas, 
a colocará nos braços de Zeus!

 

Ele a soltará nas vinhas do Olimpo, 
Hosana, nas alturas, 
assim tem sido!

 

 
 

CANTO IX
 
O CIRCO
 
 
— Agora veja, Comadre,  
o lençol é grande,  
sou prevenido!

— O outro poderá lutar,  
heroicamente, é claro...,  
perder ou ganhar, tanto faz...

— O ritual heróico será dele!  
Imparcial, Comadre,  
eis o Circo,  
vença,  
vença o melhor!

— Quero luta heróica, Comadre!

 

— O Compadre está louco!
 Vão fazer um panfleto,
 contra você também, Compadre!

 

— De onde saíram essas idéias,

de lutar até morrer?

Você é doido, Compadre!

 

 

— Comadre, de onde saíram, não sei,  
só perguntando aos Heróis,  
mas, assim tem sido,  
reconhecidos, só eles,  
os Heróis! 

YyY

Barulho, pisadas, pigarro, chinelas de currulepo,
faca peixeira e vara-pau,
o homem, 
a Besta:

 

— Ah, maldita, agora tu me pagas,  
estás toldando a minha água!

 
— Não estou, compadre Homem,
bebi da borracha-de-sola!

 

Alto lá, quero respeito, raposa safada!  
Não sou teu compadre!  
Vou-te matar,  
estás doida!

— Não estou doida, senhor Homem,
       tá’qui o atestado,
       Adolfo Lutz:
       normal!

Se não estás,  
vais ficar!  
Vou-te matar de qualquer maneira,  
quero a borracha-de-sola,  
para jogar  
na Loteria dos Dados!

YYY

Um pulo, 

eriça-riça, eriçados os pêlos, 
todos!!!
Os do rabo também!!!

 

Um vento, elétrica, magnética, caquética,
a Comadre, 
logo quem!?

 

 

Todos os átomos do Universo...
Big-Bang primordial!

 

Uníssonos!
Uníssonos:

 

 

— Vá matar o Cão, desgraçado,
          desta vez te pego primeiro!

 

 

 

Pernas para que te quero, o valentão!
 

Sentiu o arranco da Comadre,
mijou-se todo,
fugiu, o covarde!


Num rastro de  panfletos derramados...

Escureceu e Choveu!

 
A chuva,
hesitante e ventilado borrifo,
ternamente,
um pingo maior;
insistentemente,
um pingo menor;
a chuva...
apagou todos os rastros...!

 

Desmancharam-se nas poças turvas,  
de uma vez e para sempre,  
todos os Panfletos!

Quando parou de chover,

noite escura ainda,

Pico do Caga-Fogo,

urupemba finíssima...  
peneirando pontinhos de luz

verd'azulados;

infinitos pontinhos

apagavam e acendiam

infinitamente

o pico do Caga-Fogo,

I l u m i n a d o !

 

 

Fortaleza, noite alta, 12 de novembro de 1993

 

 

 
 
 
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