Flávio Sátiro Fernandes

Toilette

1. Quem garante que ao escovar os dentes eu não esteja escovando a alma? Não sinto o sabor de menta ou de clorofila. Muito menos o hexaclorofeno. Na boca, apenas, o gosto dos sonhos da noite insone. 2. Uma mão lava a outra e as duas (em concha) lavam o desgosto. 3. O pincel, o creme, a espuma a se espalhar na face descoberta. O gesto ritual de retirar da têmporas a espuma. A lâmina afiada a deslizar em meu disfarce oculto. 4. O pente põe bem comportados os fantasmas negros e brancos do pesadelo de ontem. Até que a noite volte a confundi-los.


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