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Soares Feitosa, dez anos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba,

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carvagio, Tentação de São Tomé, detalhe

Soares Feitosa

 

Dos sapos e dos livros, 

três 

pequenos enigmas

 

 

1. Hoje, no meu escritório, dentre muitas outras, falávamos de livros:

 

Um deles disse-nos que, de livros de poetas, a maioria livros magros, nem sei por que os poetas se danaram nessa idéia de livros magros, ali, minhas, aquelas estantes, cheias, repletas, 200, 400 - por onde começar? Ele, então, se embasbacara, a mão paralisada ao terror de puxar o primeiro: qual?, e não puxar o melhor. Por minutos, disse, puxou vários, mas não conseguia abrir nenhum.

Eu lhes disse que, um dia, há muito tempo, dirigira-me à feira geral, uma feira imunda como sói acontecer com todas as feiras gerais: jerimuns, batatas, carnes salgadas, montanhas de melancias, queijos e rapaduras. Procurava por milhos. Uma ruma vasta, verde, já cambiando para um amarelo-desterro, mas logo ali, abaixo das primeiras palhas, os grãos estavam sãos, túrgidos e brilhantes, bons de assar, cozinhar, canjicar.

E junto da montanha de milhos, um ônibus transformado em museu. Um museu de História Natural, como também natural, por certo, aquela feira de coisa e gente. Um ingresso bem cômodo, paguei e entrei ligeiro. Onde antes eram cadeiras eram agora redomas. Os outros bichos não me chamaram a atenção, mas estes, sim: uma cobra e um sapo, juntos sob o mesmo vidro, como se fossem velhos companheiros. Não perguntei a que estaria o sapo ali, junto com a cobra. Se à exposta, se à alimentação do réptil. Ou nessa idéia repulsiva de dois coelhos sob cajadada única, embora nos meus quase 60 nunca tenha visto coelho algum ser abatido com cajadada alguma, quanto mais dois. Vi-os abatidos, sim, na granja de gaiolas, com uma firme porém subtil e piedosa porretada na cabeça... um leve tremido nas pernas, como trememos, presumo, todos nós à última. Em seguida, as atividades de couro, carne e panela — ao coelho, é claro, à caçadora, que com gente é diferente, mas não muito. E vinhos.

Fosse como fosse, me satisfez aquele combinado: serpente e sapo. Ele, um pequeno e distinto cururu, despira-se de qualquer angústia. Não, nenhum parentesco com o sábio peripatético: calmo, talvez sisudo, meramente se aluía, mas só um pouquinho, quando o rabo da cobra passava-lhe por entre as mãos. Mãos? Sim! Muito justo que o sapo tenha mãos! Mas não intentou, pelo menos nas horas e horas em que o respiguei com olhar, nenhum bofete, caratê ou simples afago ao réptil. Ela, não! Sossego nenhum. Magistral, absoluta, suficiente, pra lá e pra cá, como se cumprisse uma missão de dar sucessivas voltas num universo despido de movimento: aquele ônibus, um carro velho que, no máximo iria de uma feira a outra, mas ali se havia estacionado há meses. Prometo-lhes que amanhã retornarei a verificar se ainda está.

Far-se-iam de si que leitura, sapo e cobra; cobra e sapo? O “condutor”, agora museólogo, disse-me que era de hora de fechar. Procurei pelos atilhos às canjicas, que deixara aos pés, milhos, meus. Quem disse?! Levaram-nos à panela outra que não a lá de casa. Quando me dei conta de indagar se o sapo haveria de morrer, uma súbita espinha de um peixe que eu não havia comido engolfou-me a fala. Olhei se o sapo reparava em mim. Ele estava de costas. Aluía-se vagamente sob mais uma volta do rabo-réptil.

Foi a vez de o terceiro presente dizer que ambas as histórias, a do primeiro e a minha, estavam combinadas. Disse-nos que hoje o Ibama não permite cobra e sapo sob a mesma redoma.


2. Falava comigo de coisas de ler, e leio, dois pontos, mais uma história de cobra e sapo:

 

“Agência Estado - 18:25 - 06/10/2003

Tradutor roubava livros raros das universidades de Minas. 

A Polícia Federal apresentou hoje, na sede da Superintendência do órgão, em Belo horizonte, 134 livros pertencentes ao acervo de bibliotecas de universidades mineiras, que haviam sido furtados e foram recuperadas após a prisão, na última sexta-feira, de SBJ, de 54 anos. De acordo com o delegado da PF, RAO, o acusado confessou a autoria dos crimes. No conjunto recuperado haviam obras dos séculos 18 e 19.

Os livros foram encontrados na residência de SBJ e em sebos da capital mineira.”A grande maioria eram obras raras”, disse a diretora do Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), SAS, citando como exemplo dois livros de uma coleção do cientista dinamarquês Peter Lund (1801-1880), escritos em 1888. Os livros fazem parte do acervo da Biblioteca do Museu de História Natural da UFMG. Lund viveu e realizou estudos na região do município de Lagoa Santa, na área metropolitana de Belo Horizonte. Em seu depoimento, SBJ disse, segundo RAO, que trabalhava como tradutor e revisor de livros e cometia os furtos movido por um “impulso incontrolável”. “Ele fala mais de uma língua, é uma pessoa bastante culta”, observou a diretora da UFMG. 

O acusado foi autuado no artigo 155 do Código Penal e a pena prevista é de um a quatro anos de prisão.Segundo o delegado da PF, as investigações tiveram início há cerca de um ano. A base para a busca de obras desaparecidas foi um inventário feito pela UFMG de seu patrimônio bibliográfico, concluído no final do ano passado. De acordo com SAS, estima-se que todo o acervo das 28 bibliotecas da universidade esteja avaliado em R$ 10 milhões. Um novo inventário está sendo realizado este ano.”



 

3. Falava comigo de mais coisa de cobra e sapo, e me chega esta mensagem do poeta Adail Sobral, da lista de Litteratura:

 

 

“The first duty of a commentator on current literature... is to present a fairly full and veracious report of what is going on. He will have his own convictions regarding the permanent value of various parts of the contemporary spectacle...But his first duty is not to exploit his own predilections; it is rather to understand the entire ‘conspiracy’ of forces involved in the taste of his day.” *

[...]. Mande-nos (ao Jornal de Poesia), pois, a foto, sua. Uma simpatia, o Dante Gatto.

Somos todos personagens, todo o tempo, o tempo todo, incluso naquele momento em que comparecemos, livrinho debaixo do braço, a responder algumas perguntas inquietantes. Afinal, para que o livro, se o perguntador já nos sabe as respostas? Essa história de "tomar a lição" parece que é bem mais ampla... 

Alguém escreveu:


"[...]

resposta de fogo, se é que existe,
como ousá-la
se o interlocutor é terrível e impaciente
e parece
zombar e sabe balançar
horizontal a cabeça
- e os olhos fixos - à direita e à esquerda,
a cabeça e o sorriso,
enquanto aos lábios trêmulos
as tuas palavras e as respostas
medram medo
e se afogam no soluço.

O que te garante que e(
E)le te acreditou?

Recusarias:
               o alicate, a unha,
                             o desterro e a tenaz?!"**

Não temos outro destino senão a personagem de nós mesmos. E quem se deixa enganar é o touro que acredita naquele pedaço de pano pra lá e pra cá, personagem a atacar. E ataca. Mas ali há apenas o "hipócrita", o ator, vestindo-se de mera empanada. Vermelha e real. Aos olhos do toiro, só dele, que espiamos mesmo é no toureiro. E no touro. E tome, meu novilho, bem no flanco, as banderillas! Quando, no máximo, uma chifrada na femoral. Bem certeira! [Secretos, cantamos por ti, ó touro real!]

Vai o abraço,

Soares, toureiro. Nalgumas vezes, acho que a maior parte, touro; doutras, de mero pano. Ou punhal.

 

Fortaleza, Ceará, de noite, mas não muito: 11.10.2003

 



* Texto enviado pelo poeta Adail Sobral: 

 

a) Fonte: Sherman, Stuart P., Critical Woodcuts.New York: Charles Scribner's Sons, 1926, in Joan Shelley Rubin's The Making of Middlebrow Culture The University of North Carolina Press, Chapel Hll & London, 1992

 

b) Comentário:

Ando tentando encontrar um meio de fazer o contrário de buscar a isenção objetiva, pois nem o tempo e o espaço estão isentos de valores, como o provou Einstein com a Teoria da Relatividade. Pretendo descobrir um meio de legitimar a presença das próprias convicções pessoais. Porque, como a verdade não existe, temos de assumir, sem distorções além das inerentes à condição humana - marcada por um aqui e um agora singulares, porém com um pé da universalidade -, a verdade de cada um como uma verdade provisória, mas válida, que outras não anulam, mas compõem.

O "fairly" presente ao trecho é bem interessante desse ponto de vista. E quero mais: explicitar as predileções, para aproveitá-las sem explorá-las indevidamente. Estou tentando fazer isso em minha tese, que segue as regras do gênero, fundamentando o que afirma, demonstrando, por assim dizer, mas que traz claramente avaliações pessoais: "impressionantes vendas", 'interessante fenômeno", em vez de só "vendas na casa dos milhares", "fenômeno digno de nota" etc. Até agora tem havido receptividade. Mas sei que todo escrito é marcado pela construção, que varia com o tempo, o lugar, a pessoa etc.: respondemos a interlocutores de cuja existência sequer desconfiamos, desprezamos outros por meio de um simples advérbio, temos de mudar o que dizemos devido a opiniões de outros tantos etc. Tenho evitado cair no participacionismo: trata-se de uma tese, não de confissões.

Acho que não devemos tentar camuflar nossas preferências, nossa "situacionalidade", mas sim assumir a precariedade de toda afirmação. Não coisas impressionistas como "X é péssimo", mas "a meu ver, X é negativo porque não leva em conta o contexto, como se pode perceber, por exemplo, no seguinte comentário..." Mas não proponho que não haja valores compartilhados; proponho que esses valores estão em permanente tensão com valores advindos da posição singular de cada um.

O tema como um todo é fascinante. Costumo dizer "fascinante" depois de fazer uma exposição teórica. Assim como às vezes faço análises teóricas de certas atitudes emocionais. "O mundo O", para parodiar esse tão bakhtiniano autor.

Adail

** É só clicar: toiros, sangues e ressurreições 

Batraquais - com direito a um belo poema de Jaume Ponte
 
 

 

 

 

 

 

 



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Nei Duclós

From: Nei Duclós

Sent: Sunday, October 12, 2003 8:41 AM

Subject: Tesouros


Poeta Francisco:

Teu texto procura numa feira imunda e acha o ouro exposto (portanto oculto, talvez pela mistura, por se confundir com tantas outras coisas, que, conforme o poeta, também transmutam-se). Entre tantas maravilhas, você resgata a glória da mesóclise ("Far-se-iam") eNei Duclós nos brinda com frases como um "muito justo que sapo tenha mãos".

Pois meu caro poeta, este espaço agora inaugurado no teu grande universo do Jornal de Poesia torna-se, pela beleza do teu texto e a riqueza da tua correspondência, totalmente obrigatório. Quero saber (portanto exijo) quando teremos mais.

Teu Nordeste agora me impacta novamente, depois de tantos joão cabrais, por meio do Concerto para Paixão e desatino, do Moacir Japiassu, da Paraíba. Veja o que escrevi no Comunique-se [basta clicar].

 

Um abraço do amigo

Nei


 
 

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Izacyl Guimarães Ferreira

 

Sent: Sunday, October 12, 2003 9:22 AM
Subject: Dos sapos e dos livros

Ô amigão! Que bela maneira de começar um chuvoso domingo paulistano! Obrigadíssimo. Assim, inundado de brasileirice, vou atacar aqui mesmo na tela os jornais dominicais. (Mais as crônicas que as notícias. Que essas são menos notícias que ecos, né mesmo?)

Grande abraço.

Izacyl

 

 
 

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Edson Alves Damasceno

 

Sent: Sunday, October 12, 2003 9:42 AM
Subject: Aurora e Crepúsculo

Poeta, muito bom o texto, ou, os textos, como só mesmo o Coronel sabe escrevê-los, e transmitir emoções. Quando se lê uma poesia do Coronel, faz-se uma viagem, uma viagem divina, maravilhosa, inesquecível e intrigante, como só a poesia d(E)le, consegue imprimir. A cada novo texto uma surpresa, uma nova surpresa, agradável e deliciosa de se ler. 

Os milhos novinhos em folha sob um monte de escombros de
rebotalhos, na feira, só mesmo o Coronel para descobri-los. O verbo canjicar, divino. Esse Coronel é um traquino. E a leitura se faz num galope, num chouto, célere e veloz, lépido e fagueiro. Como o Dr. Nelson, meu querido pai, que Deus o tenha, lépido e fagueiro, ao atravessar a Praça do Ferreira, numa manhã de sábado, nos idos dos anos 50, numa bela manhã de sol. 

Poeta Francisco, e a rua Major Facundo, 1338, onde morei quando criança, que era bem próxima da casa (1389) do Jornalista Adaucto Gondim, que tinha um sobrinho (Francisco), que morava com ele mas que não tive o prazer de conhecê-lo, à época?! E o colega trêmulo ao escolher o livro? qual? qual escolher? E ainda nem o abriu. 

Poeta, e a monja? Estaria  estilizada na obra do grande pintor francês William Bouguerau? Será ela? Será ela a musa inspiradora dele também? Poeta, sem dúvida elas, a Aurora e o Crepúsculo, são ela, é ela, a monja, a das melancias, são lindas. Lindas, Poeta! 

Um abraço do amigo e fã número 1.

Edson

 

 

Nota do editor: A Monja das Melancias referida pelo amigo Edson é personagem de Salomão, um livro em processo. No Salomão, o tal Coronel seria um senhor de negreiros, escravagista e, ao mesmo tempo, libertário.

 

 
 

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Aurora, William Bouguereau (French, 1825-1905)

 

 

 

 

Crepúsculo, William Bouguereau (French, 1825-1905)