Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Henrique Marques Samyn 

trovares@yahoo.com.br

Titian, Three Ages

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Poesia:

     

De "Poemário do desterro":


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ruth, by Francesco Hayez

 

Albrecht Dürer, Mãos

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Henrique Marques Samyn


 

Nota biográfica:

 

Ensaísta, tradutor e pesquisador acadêmico, nascido no Rio de Janeiro em 1980. Colaborador da revista eletrônica Speculum (http://speculum.art.br), onde assina uma coluna sobre poesia brasileira, cursa atualmente o doutorado em Literatura Comparada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Como poeta, publicou “Poemário do desterro” (2005-6) e “Amadas pelos deuses” (tradução de dois poemas da poetisa galega Helena Villar Janeiro, publicadas na revista eletrônica Máquina do mundo). Tem diversos artigos publicados em jornais e periódicos acadêmicos sobre literatura e artes plásticas. [Nota biográfica em maio de 2006]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

 

Henrique Marques Samyn


 

Fortuna crítica:


André Seffin


Entre tantos nomes importantes e tendências polêmicas, há ainda três estréias promissoras. Henrique Marques Samyn, com "Poemário do Desterro" (Fábrica de Livros), circula em amoroso convívio por ruas, seres e carnavais do Rio de Janeiro. É um poeta da cidade do Rio, como o foi outrora Mário Pederneiras. E não à toa encontra em João do Rio o motivo para um de seus melhores poemas, "Dentro da noite". Às vezes lhe falta espontaneidade (talvez caminhe demasiadamente preso à métrica e à tradição), no entanto, não anda distante do frêmito da vida.

Seffrin, André. "Alguma poesia brasileira". Gazeta Mercantil, março de 2006.

 



Alexei Bueno


Uma poesia perfeitamente madura, pessoal, uma dessas raras estréias em poesia na qual o poeta não segue com completa naturalidade o "estilo de época" as modas, os maneirismos, e isso, diga-se de passagem, na forma e no fundo. (Janeiro de 2006)

 



Stella Leonardos


LENDO “POEMÁRIO DO DESTERRO”

Quão lírico teu poemário,
Henrique Marques Samyn
da humaníssima poesia!

Como entre o triste e o precário
consegues captar, amigo,
o almo da noite e do dia!

Como se alça – ânima de ária –
esse de alma que se inspira
nas tuas canções de amigo.

      Rio de Janeiro, fevereiro de 2006

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

Henrique Marques Samyn


 

Outras meninas


Não sei quem se perdeu por estas ruas
ou quem nestas esquinas fez morada,
mas sinto este acre odor de carne crua
que as ruas cava em frestas esquecidas:

o odor da pele cúpida e queimada
de todas estas lúgubres meninas
que à beira das mais pútridas calçadas
exibem suas coxas magras, nuas.

Não sei de onde vieram. Sei que vivem
assim, a se vender por entre as feiras,
nas praças desoladas, nas estradas.
Se às vezes uma some, não há susto:

logo outra chegará – que é passageira
e breve a vida de quem não é nada.

 

 

 

Culpa

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Majela Colares

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

Henrique Marques Samyn


 

Sonetos de Pierrete a Colombina

(fragmento)


1.

Amada, por amar-te mais que a mim
é que me faço, uma vez mais, menina;
nos braços teus me enlaço, pequenina,
e acolho-me em teu seio – e sinto, assim

que rompes meus refreios, e o meu fim
se perde em teus abismos; bailarina,
vem! – salta no meu corpo, Colombina,
que ele é teu palco – vem! Que seja, enfim,

meu dorso teu repasto – e eu, amazona,
cavalgue nos teus pêlos, toda nua,
teu corpo com meu corpo entrelaçado;

e se abra no meu peito, ingente, à tona,
o amor que medra enquanto continua
o nosso galopar desabalado.

 

 

 

Um esboço de Da Vinci

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Ana Peluso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Henrique Marques Samyn


 

Para uma síntese do futebol


I. O goleiro

Atento como um gato em plena caça,
é seu dever postar-se em frente à meta.
Se acaso pressentir que lhe ameaça
as traves algum chute, sem vacilo,
no salto, deve atar todo o perigo
no vôo nobre e altivo de um esteta.


II. O zagueiro

De todos, deve ser o mais asceta:
seu toque deve ser preciso e seco,
jamais em curva: sempre em linha reta –
porque este é o mais curto dos caminhos
que leva rumo ao campo do inimigo:
mais simples é o zagueiro mais perfeito.


III. O meia

Na mente deve ter inteiro o mapa
do campo, e conhecer todas as vias
e atalhos – porque nascem as batalhas
onde ele lança a bola. Qual maestro,
conduz este concerto, largo ou presto,
traçando com seus pés as melodias.


IV. O atacante

Virtude sua é ser imprevisível,
capaz de abrir caminho entre as brigadas
que o cercam; desconhece o impossível,
pois cabe-lhe tornar a bola em tento
esteja onde estiver: qualquer momento
importa converter numa emboscada.

 

 

 

Mary Wollstonecraft, by John Opie, 1797

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Valdir Rocha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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John William Godward (British, 1861-1922), Belleza Pompeiana, detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

Henrique Marques Samyn

 

Antologia de uma vida

 

A Antologia pessoal de Astrid Cabral (Thesaurus, 2008) abre-se com uma introdução biográfica adequadamente intitulada “Percurso de uma paixão”, texto em que a escritora descreve sua trajetória mesclando fatos e afetos relacionados à literatura. Nascida em Manaus, Astrid viajou com os pais por Salvador, Niterói e Recife quando era ainda muito pequena; aos quatro anos, com a morte de seu pai, retornou à casa dos avós maternos, passando a morar num sobrado em frente ao Palácio Rio Negro. Uma professora portuguesa da vizinhança ensinou Astrid a ler quando ela tinha cinco anos – e, “sem usar a temível palmatória de algumas escolas”, apresentou à futura escritora um “mundo mágico de fábulas e contos de fada”. Dois seis ao oito anos, Astrid frequentou o Colégio das Dotoréias, de onde saiu “em protesto contra o diversificado tratamento dado às alunas, segundo a posição sócio-econômica”; por isso, concluiria o primário no mais democrático Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Aos onze anos, descobriu a literatura; aos dezesseis, publicou seus primeiros artigos e crônicas na imprensa local. Aos dezoito anos, Astrid ingressou na universidade, cursando neolatinas na antiga Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio de Janeiro; pouco depois, já formada, casada com o poeta Afonso Félix de Sousa e mãe de dois filhos, mudou-se para Brasília a fim de integrar a primeira turma de docentes da recém-fundada UnB.

Pode-se estranhar o fato de, até agora, nenhum livro de Astrid ter sido mencionado. De fato, sua face de escritora só viria a revelar-se em 1963, com a publicação do livro de contos Alameda, aliás concluído cinco anos antes; e o seu (mais conhecido) talento poético permaneceria latente ainda por mais dezesseis anos. O motivo dessa demora é explicado pela própria autora: a entrega à vida familiar e os afazeres profissionais não cediam espaço para a literatura, o que evidentemente tinha o seu peso: “Foram anos de silêncio e aridez com o afastamento do núcleo criativo”. Mas Astrid Cabral, a escritora, aguardava pacientemente o momento de despertar, que finalmente chegaria em 1996 – quando, aposentada do serviço público, surgiu uma oportunidade para que ela se dedicasse ao labor literário. Aos livros até então publicados esparsamente – além dos já citados, Ponto de cruz (1979); Torna-viagem (1981); Lição de Alice e Visgo da terra (1986); e Rês desgarrada (1994) – , somaram-se Intramuros (1998), Rasos d’água (2003), Jaula (2006) e Ante-sala (2007), além de diversas coletâneas: livros que trouxeram a lume uma das obras poéticas mais importantes do Brasil de hoje e de todos os tempos.

Basta uma folheada nesta Antologia pessoal para comprová-lo. Ali está a extraodinária “Elegia derramada”, síntese lírica das múltiplas faces de Manaus (“Manaus de matinês que sabem a flertes e chicletes, / Chaplin, bangue-bangues, Gordo e Magro, astros a brilhar / nas telas dos cines Politeama, Guarany, Avenida e Éden. / Noturnas madrugadas de sinos, galos e lerdas estrelas, / altura de lua morosa, sobras de chuva pelas sarjetas.”). Ali está “Voz no exílio”, angustiado desafogo da escritora que, distante de sua terra, sopesa seus contraditórios sentimentos (“Meu país, / o lirismo não me deixe cega, / oh terra que me faz feliz/infeliz / tão farta que estou / de tantos falsos aristocratas / e mendigos tão reais.”). Ali está o “Soneto” dedicado ao filho Giles, falecido num acidente de carro aos vinte e dois anos (“Junto a mim decorreu a tua vida / no curto tempo em que fui tua casa. / Paredes de osso e carne eram guarida / quando no sono o ser desabrochavas.”). Ali está, enfim, a suma da obra de Astrid Cabral – essa autora ímpar no universo literário brasileiro que, mesmo quando era impedida de dedicar-se às letras pelas contingências da vida, ainda assim jamais deixou de viver para a literatura.

 

   

 

28.06.2006