Linhares Filho
 
O Engenheiro e o Poeta
 

in Jornal O Povo, 07/03/97

 

Álvaro de Campos é considerado o mais moderno dos heterônimos de Fernando Pessoa. Engenheiro naval, possuidor de três fases: a do Opiário; a mecanicista, whitmaniana; a do sono e do cansaço, a partir de A Casa Branca, Nau Preta, poema escrito em 11 de outubro de 1916.  

Apresenta o heterônimo as características que passamos a indicar. Na primeira fase, composta do poema Opiário e de dois sonetos, Quando olho para mim e não me percebo e A Praça da Figueira de manhã, encontra-se morbidez, decadentismo, torpor (``É antes do ópio que a minha alma é doente'').  

A segunda fase compõe-se dos seguintes poemas: Ode Triunfal, Dois Excertos de Odes, Ode Marítima, Saudação a Walt Whitman e Passagem das Horas. Com exceção do segundo poema, predomina nesta fase o espírito nietzschiano, a inspiração de Walt Whitman e do Futurismo italiano de Marinetti, que se aclimata ao caso português através do Sensacionismo, concebido em resumo como intelectualização da sensação: ``Sentir tudo de todas as maneiras''. 

Outras características marcantes da segunda fase: desordem de sensações (``Multipliquei-me para me sentir,/ Para me sentir, precisei sentir tudo''); inquietude do após-guerra, dinamismo, integração na civilização da máquina (``Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!''); sadomasoquismo (``Ser o pirata-resumo de toda a pirataria no seu auge/ E a vítima-síntese, mas de carne e osso de todos os piratas do mundo!''). 

Homem da cidade, Álvaro de Campos desumaniza-se, ao tentar explicar a lição sensacionista de Alberto Caeiro ao mundo da máquina. Não consegue acompanhar como um super-homem a pressa mecanicista, e deprime-se shopenhaurianamente, chegando a escrever o poema ``Mestre, meu mestre querido!'', dedicado a Caeiro, poema em que, apesar do respeito do mestre, lhe apresenta queixas: ``Por que é que me chamaste para o alto dos montes/ Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?  
... 
Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,/ Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?'' 

Surge a terceira fase de Campos sobretudo devido à falta de adaptação às teorias de Caeiro e à desilusão própria do após-guerra. Vejamos as características desta fase: antidogmatismo (``Não me venham com conclusões!''); revolta, inconformismo (``Vão para o diabo sem mim,/ Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!''); enternecimento memorialista, que também ocorre na segunda fase (``Ó céu azul! - o mesmo da minha infância, - / Eterna verdade vazia e perfeita!''); senso de fragilidade humana e senso do real (``E eu tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil''); desprezo ao mito do heroísmo (``Ah a frescura na face de não cumprir um dever!''); dispersão (``Outra vez te revejo,/ Mas, ai, a mim não me revejo!'' - refere-se o autor a Lisboa no importante poema Lisbon Revisited); expressão de semidemência (``Se ao menos endoidecesse deveras!/ Mas não: pressão é este estar entre,/ Este quase,/ Este poder ser que...,/ Isto''); torpor expresso em sono e cansaço (``O sono universal que desce individualment sobre mim/ É o sono da síntese de todas as desesperanças''); preocupação com o existencial, o ontológico (``Sou quem falhei ser./ Somos todos quem nos supusemos,/ A nossa realidade é o que não conseguimos nunca''); adoção de intensos e funcionais desvios gramaticais e o livremetrismo (``Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim''; ``Ou somos, todos os Eu que estive aqui ou estiveram,/Uma série de contas-entes ligadas por um fio - memória,/ Uma série de mim de alguém fora de mim?''; ``Um supremíssimo cansaço,/ Íssimo, íssimo, íssimo,/ Cansaço...''). 

Essa a imagem, em resumo, de uma das mais expressivas personalidades de Fernando Pessoa.

 
 
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