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Mirna Gleich 

mirnasg@uol.com.br

Michelangelo, 1475-1564, Teto da Capela Sistina, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Contos:


Alguma notícia da autora:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bernini_Bacchanal_A_Faun_Teased_by_Children

 

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

 

 

 

 

 

Mirna Gleich


 

Bio-bibliografia


Nasceu em S.Paulo em 12 de dezembro de 1943. Formou-se em jornalismo pela Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero e defendeu mestrado na cadeira de Teoria Literária da USP. É autora (assinando como Mirna Pinsky) de 30 livros infantis e juvenis com um total de mais de 950 mil volumes editados. Dois de seus livros receberam o Prêmio Jabuti: As muitas mães de Ariel (em 1981) e Carta errante, avó atrapalhada, menina aniversariante (em 1995). Dirigiu uma revista de circulação dirigida, colaborou com diversos jornais e revistas (Movimento, Cadernos de Opinião, Cadernos de Pesquisa, Folha de S. Paulo) e várias editoras. Desde 1996 faz a coordenação editorial da Editora Nobel onde trabalha desde 1994.

Alguns de seus títulos publicados:

  1. Zero zero alpiste - Editora Ática

  2. Nó na garganta - Editora Atual

  3. Ave em conserto – Editora Paulus

  4. Quebra-cabeça – Editora FTD

  5. Tatu bolinha – Editora Miguilim

  6. Sardenta - Editora Saraiva

  7. Quando eu não consigo dormir - Companhia das letrinhas (Antologia: O livro dos medos)
     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

 

 

 

 

 

Mirna Gleich


 

Singeleza


Ia me buscando
nas luzes que emprestei aos outros
sem atinar
por que deixei minha trilha na escuridão

E era tão simples
 

 

 

 

Bernini_Apollo_and_Daphne_detail

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Virgílio Maia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque

 

 

 

 

 

Mirna Gleich


 

Sem pressa


Noite descendo nos varais
O perfil das camisolas e dos lençóis
escurecendo sem pressa
A brisa espalha perfume de sabão novo
O cão geme de tristeza ancestral:
lua nova, saudades...saudades...

Vou destrancar a porta
 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days

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Antônio Massa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

 

Mirna Gleich


 

Pássaros


Um pássaro ferido

não desaprende de voar
                         voa baixo
                         voa a medo
                         voa em surdina
Até que se restaure a fé
nas próprias asas
Até conquistar a certeza
de que não são de pano
as asas do outro.


 

 

 

Soares Feitosa, dez anos

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Napoleão Maia Filho

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Mirna Gleich


 

Gestos


É tépida a noite

e no entanto naufragam os gestos.

Queria tanto te despir dos temores
dos vagalhões conturbados
que não sei
não compreendo
não toco.

Tomar-te como rosa amarela
e ir te despetalando
nas ranhuras
nos silêncios
nos imensos espaços desertos de alegria
até roçar de leve
no segredo mais bem guardado.

Te sei tão pouco
 - ainda tateio tua enorme delicadeza
            ainda me espanta tua suave intuição
E fascina-me a facilidade
com que invades meus castelos
     (quero fugir, já não posso!)

Urge que percebas quão de vidro eu sou:
    transparente e frágil
       - antes quebraria a ter de te magoar.
Te imploro, não temas
É tépida a noite e a lua já anda alta:

Permita que te alcance
meu tímido gesto.


 

 

 

Michelangelo, Pietá

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Cláudio Aguiar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tintoretto, Criação dos animais

 

 

 

 

 

Mirna Gleich


 

A menina e o cão


O cão fita baço

em sofrido silêncio
Nem o sabiá banhando-se
na tigela de água
desafia sua imobilidade.

A menina senta no degrau ao lado
  o sol esparramado no jardim
e estende a mão:
         terna, acaricia a cabeça reclinada.
Sofrem os dois
a inesperada doença dele.

Depois ela se retrai
e apenas fica:
   o rosto apoiado nas mãos
   os olhos nele.
Quem virá acudir
a aflição de ser muito menor
      que as intenções
quase tão frágil
quanto o desamparo dele?

Não lhe basta, é evidente,
confortá-lo em quietude:
então murmura-lhe carinhos
como se a voz pudesse mais
que o calor de sua presença.

Sob a saia rodada
descansam as pernas roliças
ela toda um só consolo:
estar imóvel assim
é sua declaração de amor. 
 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Admiration Maternelle

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Batista de Lima

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Velazquez, A forja de Vulcano

 

 

 

 

 

Mirna Gleich


 

Nuvens


Tinha nuvens nos olhos
Tocou de leve em meus cabelos
Roçou-me as faces e os lábios
Falou de passado e areia

Tinha nuvens nos olhos
Cingiu-me a mão com sua mão macia
No horizonte fez surgir um cavalo alado e branco
E então eu
 - há tanto tempo adormecida
vesti minha nudez
          com as nuvens que toldavam seus olhos
 

E já não havia mais nuvens
nos olhos dele.


 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

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Sébastien Joachim