Gerardo Mello Mourão


O Capitão me olhou no fundo da rede

O Capitão me olhou no fundo da rede — contam — foi ao cartório de Manuel Guilhermino e disse: — "Compadre, registre meu neto na folha número um de seu livro, mande comprar um livro novo, vai ser o maior homem das Ipueiras tenho cinco terças de prata e ele vai estudar na Europa". Depois, veio a seca do dezenove e o Capitão, que se salvara no quinze, mandando o gado para o Piauí viu morrerem seus últimos garrotes, secarem suas últimas canas noblesse oblige — a honra dos senhores — trabalho é coisa de escravos a honra dos senhores e o futuro dos netos se guardava testemunha Cynobelino na barriga das novilhas e na garapa da cana caiana e o Capitão, deitado em sua rede de varandas azuis e brancas — rede do Acarati — comeu com dignidade as cinco terças de prata e o neto não foi estudar na Europa e um dia à beira da límpida cacimba à ribanceira de seu rio perfumava o corpo trigueiro com as folhas do mofumbo à sombra das oiticicas e pendiam sobre sua boca primitiva dois seios brancos entre axilas de ouro dois olhos verdes em seus olhos mergulhados e sua voz ariana murmurava: "venho estudar no espanto de teus olhos na pureza de tua fronte na dor de tua face na alegria de teu sexo ingênuo e na Ásia e na África e na América do fervor de teu sangue o sangue que te dei." E eram talismã e tônico e retorno à adolescência e à rosa de teu ventre.


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