Osvaldo Alcântara


Ressaca

Venham todas as vozes, todos os ruídos e todos os gritos venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos; venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens; venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis; venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detetores apropriados; volte tudo ao ponto de partida, e venham as odes dos poetas, casem-se os poetas com a respiração do mundo; venham todos de braço dado na ronda dos pecadores, que as criaturas se façam criadores venha tudo o que sinto que é verdade além do círculo embaciado da vidraça... Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar... A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos, mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores na linha de todas as batalhas.


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *