Quita


Tircéia
Idílio

Já lá sinto rugir das aveleiras As buliçosas folhas; já escuto Um rumor leve de sutis pisadas; Entre as confusas ramas já diviso Mover-se um vulto; se virá Tircéia! Por mais que afirmo a vista não distingo. Ora lá se encobria agora a Lua. Mas, oh quanto desejo vão me engana? Uma ovelha é perdida da manada; Lá vai balando pelo vale abaixo. Mas eu deliro, ou sonho? Que pondero? Oh! quanto da saudade o golpe fero Nos sentidos me oprime, e me confunde! Eu não julgava agora, que este vale Era aquele feliz e deleitoso, Onde a minha pastora sempre espero? Que esta sonora fonte, que murmura Entre cheirosas flores e verdura, Coberta de sombrios arvoredos, Era aquele lugar, aonde a calma Costumamos passar da ardente sesta? Quem viu já fantasia mais confusa? Oh poderoso amor, quanto me enleias! Oh quem pisara agora os venturosos Campos, que os resplendores luminosos Dos olhos de Tircéia estão gozando! Quem vira agora o seu formoso rosto! Oh quem sequer ao menos escutara Os conhecidos ladros, os balidos De suas ovelhinhas e rafeiro! Oh duras penhas, oh sombrios vales, Que meus saudosos ais estais ouvindo! Se agora aqueles belos olhos vísseis, Por quem meu coração tanto suspira! Veríeis de repente a roxa aurora Verter o fresco orvalho sobre as flores; Raiar o louro sol nos horizontes; E enriquecer de luz os altos montes. Parece-me, Tircéia, que te vejo Deixar na fonte o cântaro vazio, E na mais alta penha dessa praia Subida estar os olhos estendendo, Cheios de pranto para as altas serras, Onde tão larga ausência estou chorando. Que saudosa dali estás chamando: "Alcino, Alcino, quem de mim te aparta?" Parece-me que te ouço a voz magoada Já de ingrato acusar-me, de esquecido; Que vais depois ao vale suspirando, E que ali muitas vezes estás lendo Os amorosos versos, que nos troncos Eu escrevi na amarga despedida. Oh pastora mais firme do que os montes! Mais amante, mais terna do que as rolas! Mais perfeita, mais cândida e formosa, Que a pura neve, que a vermelha rosa! Só por ti, eu o juro a estas penhas, Só por ti há de amor dentro em meu peito Cravar as setas, acender as chamas. Só por ti meus suspiros serão dados; Só por ti chorarão de amor meus olhos: Meus olhos, que por esses tão formosos Agora estão chorando tão saudosos.


* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *