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Revista de Cultura nº7
Fortaleza/ São Paulo, outubro de 2000
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ALBERTO GUALDE: DOIS TRIBUTOS A UM PINTOR ORIENTAL
Adrienne Samus

 

agsamus1.JPG (36419 bytes)"Desde os seis anos senti o impulso de desenhar as formas das coisas. Aos cinquenta, expus uma coleção de desenhos; mas nada do executado antes dos setenta me satisfaz. Somente aos setenta e três anos pude intuir, sequer aproximadamente, a verdadeira forma e natureza das aves, peixes e plantas. Por conseguinte, aos oitenta terei feito grandes progressos; aos noventa terei penetrado a essência de todas as coisas; aos cem, seguramente terei ascendido a um estudo mais alto, indescritível, e, se chego aos cento e dez anos, tudo, cada ponto e cada linha, viverá. Convido àqueles que viverão tanto como eu a verificar se cumpro estas promessas. Escrito na idade de setenta e cinco anos, por mim, antes Hokusai, agora chamado Huakivo-Royi, o velho enlouquecido pelo desenho."

Esta confissão fictícia escrita por um tal Adler-Revon e recolhida na célebre antologia Contos breves e extraordinários, de Borges e Bioy Casares rende tributo não somente ao extraordinário talento e dedicação do artista japonês Katsushika Hokusai (1760-1849). De modo tangencial ressalta virtudes raras na cultura ocidental, como a serena perseverança que, por sua vez, nasce de um autêntico sentimento de humildade e devoção ante a natureza.

O Hokusai apócrifo diz Ter 75 anos quando escreve estas reflexões, precisamente a época em que começou a pintar sua série mais conhecida e que influenciou a tantos paisagistas do Ocidente: Fugaku sanjurokkei (Trinta e seis vistas do monte Fuji). Nestas admiráveis xilogravuras, Hokusai retratou a famosa montanha japonesa de vários ângulos e lugares, e em distintas estações do ano e horas do dia. doze estampas da referida série provocaram em Alberto Gualde a criação do livro Octubre bajo las aguas.

A rígida síntese, a força da imagem e a vontade de "penetrar a essência das coisas" são atributos evidentes em ambas obras. Porém as similitudes terminam aí e as diferenças são tantas, que seria incongruente comparar os poemas de Gualde com as gravuras de Hokusai. Muito mais próxima na intenção e no espírito de Octubre bajo las aguas demonstra ser a série de panoramas marinhos de outro japonês, o fotógrafo contemporâneo Hiroshi Sugimoto, não somente pelo tema mas também pela insondável quietude e a perturbadora sensação de vazio que deixam no espectador (o que também me recorda uma frase muito oriental de Mallarmé.: "Depois de haver encontrado a vacuidade, encontrei a beleza"). Isto serve para confirmar que amiúde a arte se assemelha muito pouco à fonte original de inspiração.

Octubre bajo las aguas concentra seu olhar no mar para transmitir seu mistério incomensurável e o poder de sedução que desde sempre tem exercido nos homens. De igual maneira que a morte, claro, cujo denso alento invade cada um destes poemas. Poemas de extrema concisão, que ocultam muito mais do que dizem e nos quais a metáfora se nos oferece como enigma e revelação.
 
 

OCTUBRE BAJO LAS AGUAS

Alberto Gualde
1
Los vientos
de octubre
borran
las últimas 
huellas
en los rostros
secretos 
del poema.
Bajo la tempestad
cada portador
se aferra 
a una página.
Tiembla el árbol doble
y surca el aire
una formación
de páginas furtivas.

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2
La insistencia 
de octubre.
Sus indómitos 
caballos
de miel y lumbre
atormentan
el polvoriento sopor
de los caminos.
No alcanzará la noche
para tanto feroz peregrinaje.
¿Hacia dónde vamos?
preguntan los pálidos jinetes
antes de cruzar
el puente de arcilla
y ser devorados
por las aguas.
3
En el descenso
del cielo
hacia las aguas
el ávido silencio de las aves
penetra las raíces
más amargas
de la noche.
4
Ahogarse.
Sólo en el corazón
profundo
de la ola
puedes percibir
el silencio
lustral
de las aguas.
5
La tarde
se fractura
en el desolado espacio
dibujado
entre un pájaro 
y su vuelo.
6
El cuerpo del agua
esconde luminosas cicatrices.
Desde aquí
no se ven más embarcaciones.
7
Domesticamos las aguas
para ejercer la
nostalgia elemental
de los naufragios.
8
El lago inmóvil
busca desbordarse 
en la multiplicación
de los silencios.
9
El árbol solitario
se satura
de rapaces
aves invisibles.
Sólo ceniza
en las alas
fugando
hacia octubre.

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10
Los pescadores
buscan augurios
en las arenas renovadas:
redes polvorientas
anzuelos oxidados
escamas luminosas
prolongan la cálida
estación 
de las arenas.
Hasta que el agua 
recupere la memoria.
11
Nadie cruza los puentes.
12
La sed del horizonte
surcada por las últimas aves
que las aguas olvidaron.
Quedan cuatro.

 

OUTUBRO SOB AS ÁGUAS

Alberto Gualde
1
Os ventos
de outubro
apagam
as últimas
marcas
nos rostos
secretos
do poema.
Sob a tempestade
cada portador
se aferra
a uma página.
Treme a árvore dupla
e sulca o ar
uma formação
de páginas furtivas.
2
A insistência
de outubro.
Seus indômitos
cavalos
de mel e lume
atormentam
o empoeirado torpor
dos caminhos.
Não alcançará a noite
para tanta feroz peregrinação.
Para onde vamos?
indagam os pálidos ginetes
antes de cruzar
a ponte de argila
e ser devorados
pelas águas.
3
Na descida
do céu
até as águas
o ávido silêncio das aves
penetra as raízes
mais amargas
da noite.

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4
Afogar-se.
Somente no coração
profundo
da onda
podes perceber
o silêncio
lustral
das águas.
5
A tarde
fratura-se
no desolado espaço
desenhado
entre um pássaro
e seu vôo.
6
O corpo da água
esconde luminosas cicatrizes.
Daqui
não se vê mais embarcações.
7
Domesticamos as águas
para exercer a
nostalgia elementar
dos naufrágios.
8
O lago imóvel
busca transbordar-se
na multiplicação
dos silêncios.
9
A árvore solitária
satura-se
de rapinantes
aves invisíveis.
Apenas cinza
nas asas
fugindo
até outubro.
10
Os pescadores
buscam augúrios
nas areias renovadas:
redes empoeiradas
anzóis enferrujados
escamas luminosas
prolongam a cálida
estação
das areias.
Até que a água
Recupere a memória.
11
Ninguém cruza as pontes.
12
A sede do horizonte
sulcada pelas últimas aves
que as águas esqueceram.
Restam quatro.
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