Jornal de Poesia

Literatura de Cordel

Classificação de Ariano Suassuna
            Soares Feitosa
           "Vejamos, porém, a segunda classificação proposta por Suassuna. É apresentada no momento em que ele, usando de um estratagema, fala por intermédio de João Melchíades, padrinho da personagem central de seu Romance d'A Pedra do Reino, quando, aliás, formula também uma tipologia de poetas populares: «O velho João Melchíades ensinou-nos, ainda, que, entre os romances versados, havia sete tipos principais: os romances de amor; os de safadeza e putaria; os cangaceiros e cavalarianos; os de exemplo; os de espertezas, estradeirices e quengadas; os jornaleiros; e os da profecia e assombração. (...) Um dos tipos que eu mais apreciava eram os de safadeza, subdivididos em dois grupos, os de putaria e os de quengadas e 
estradeirices.». E quanto à tipologia dos poetas populares, a personagem de 
Suassuna declara: «Existe o Poeta de loas e folhetos, existe o Cantador de 
repente. Existe o Poeta de estro, cavalgação e reinaço, que é o capaz de 
escrever os romances de amor e putaria. Existe o Poeta de sangue, que 
escreve os romances cangaceiros e cavalarianos. Existe o Poeta de ciência, 
que escreve os romances de exemplo. Existe o Poeta de pacto e estrada, que escreve os romances de esperteza e quengadas. Existe o Poeta de memória, que escreve os romances jornaleiros e passadistas. E finalmente, existe o Poeta de planeta, que escreve os romances de visagens, profecias e assombrações.» [ Cf.: O Romance dA Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta - romance armorial-popular brasileiro. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, pp. 58 e 68, e 183-184, para cada uma das tipologias mencionadas.]" 

           O texto acima é autoria do prof. Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes - vide ensaio completo aqui mesmo no JP. 

           A classificação é perfeita, tão perfeita que pode e deve ser estendida à Literatura de Estante, termo que ouvi também de Diatahy, em contraponto à Literatura de Cordel. Acho que a discussão principal é a seguinte: a) Cantadores, os do improviso, os da oralidade; b) escritores, aqueles que escrevem poemas, populares ou eruditos, calhamaços ou folhetos. A patente maior, do meu ponto de vista, é a de Cantador! Dos escritores cordelistas diz-se também "poetas de bancada", porque "na banca" - ainda não se usava o bureaux, o birô, nem o computador - era que o poeta compunha o escrito. O bom desta história é que os "poetas de bancada", regra geral, também são cantadores. Rogaciano Leite [pai], por exemplo, foi poeta de estante, poeta popular e cantador. Patativa do Assaré também briga nas três posições. Ronaldo Cunha Lima dizem que também pinica uma viola e corre no improviso idem, idem no 38. E também José Sarney, com seus marimbondos, informação a confirmar. 

           Em resumo: parece que a literatura seria assim dividida: 
           a) Literatura de Estante, a dos livros; 
           b) Literatura de Cordel, com uma subdivisão em Oralidade, a Cantoria, e em de Bancada. Em ambos os casos, o cordel, mesmo que não haja cordel nenhum, ainda que não se imprima o folheto, seja apenas uma quadra picaresca dessas que a gente sabe por aí à toa, mesmo que jamais impressa, o gênero é cordel. A minha opinião é que a palavra cordel vai para além do simples almanaque popular de poesia pendurado num barbante. Cordel é a poesia popular, impressa ou não. 
 

      Verbete: literatura 
      [Do lat. litteratura.] 

      Literatura de cordel.  
      1. Romanceiro popular nordestino, em grande parte contido em folhetos pobremente impressos e expostos à venda pendurados em cordel, nas feiras e mercados. (Aurélio Eletrônico)

           Entendo, portanto, como perfeitamente legítimo alguém dizer que recitou uns cordéis, sem ter panfleto algum, poemas que jamais foram impressos. Entendo a expressão Literatura de Cordel como sinônimo de Literatura Popular, enquanto que a expressão Literatura é literatura dos livros, Literatura de Estante, como diz Diatahy. 

           E que o poeta pode viajar as três viagens: a Cantoria, o Cordel e o Livro. 
 

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