Soares Feitosa
          Nordestes
                                    [Porque a lei 9.532/97 revogou as isenções tributárias
                                    dos tijolos de barro amassado, das telhas vãs,
                                    da madeira bruta, dos chapéus de palha,
                                    dos cestos rústicos, dos sapatos do recém-nascido
                                    e do soro de veneno de cobra.]
             
             
Sem casa, porque os tijolos te seriam
o barro amassado com os próprios pés;
não os terás, porque teus pés, Filoctetes, trazem
todas as chagas desde o Dilúvio, ó filho de Caim!

Sequer um pau-a-pique de madeira bruta, 4 telhas
vãs, e uns ripados seriam portas, que nunca o serão,
porque esses produtos, luxo extremado, não são isentos
do Imposto sobre Produtos Industrializados

Nem um cesto rústico para ajuntar 
umas raízes selvagens, ou umas palmas de espinho 
para matar, na baba e palma, 
a sede Seca — nem um cesto de palha 
da carnaubeira terás, do tucum, do coqueiro,
nem da pindoba, Moisés, os juncos nem, porque
os homens gritaram: — agora é dele, tudo!

—  Todas estas árvores, todos estes montes,
      (disseram os recéns)
      e os chãos também pagarão 
      as moedas, trinta e três, — onde o oleiro? — 
      ao Imposto sobre Produtos Industrializados.


E a cabeça de Francisco Severino — não seria José? —
será relento, a cabeça,
porque este chapéu de palha não te é mais isento 
do Imposto sobre Produtos Industrializados.
 
Sagrarás, ó imundo, o chão da Pátria com o canto 
do teu cour’e-osso, 
porque a rede — nem viola — não é, a rede, isenta 
do Imposto sobre Produtos Industrializados.
 
Carcomido por dentro e por fora: 
teus vermes, tuas malárias, aos miracídios, e, por último 
a serpente te alcançará o pé — 
porque do teu flanco, 
só do teu,
o soro!

Dois paus truncados, em madeira embrutecida, 
o tributo bruto, te serão pouso 
e vingança.

E o sapatinho de croché do teu primogênito.

Teu Unigênito.
 

            Ora pro nobis.
                Fortaleza, noite alta, 27 de junho 1998. 
 

Veja estudo de J. Romero Antonialli

— Comentários —
Poeta amigo,

Você se supera a cada novo poema. Excelente, dramático, real e belo o seu Nordestes.  Cada vez admiro mais o seu talento. Como um poema de tema tão árido pode ser transcendente? O seu é. Mais uma vez parabéns, poeta penúltimo
 

          Abraços
          Stela Fonseca

Adelaide Lessa

      Tijolo de barro,
      porta madeira,
      cestinho de junco,
      chapéu de palha,
      rede sem viola,
      soro de veneno de cobra,
      sapatinho de croché do Primeiro Filho,
      cruz à beira da estrada,
      Ora pro Nobis, Castro Alves de joelhos
      sobre o chão da Pátria, hoje, 7 de setembro de 1998.
      E também acima do chão.


REGINA VIEIRA SOUZA

NORDESTES

            Há o que duvidar em termos regionalistas, reflexo de apego à terra natal, ao rincão brasileiro?  Seria talvez exagerado considerar o poema como épico, no entanto, os elementos cristãos e as intromissões da fala  aí estão para lembrar as grandes epopéias. Os versos  que aludem a Francisco Severino, lembram, embora não intertextualizem o velho Drummond:  “E agora José? “

            Dizer mais desta poesia, tão rica em desdobramentos, imagens e inserções vivas de lembranças passadas?  Não, melhor é calar-me e “de mim, para mim, comigo” perguntar: 

            — E, agora, Soares Feitosa, o que mais  nos virá desta sensibilidade arguta e suscetível  de percepções? 




"Ernâni Getirana" <getirana@uol.com.br>
 

    E aqui mais um poema  nessa linguagem-raiz, que quanto mais dita mais... necessária. As várias nuances e indicações bíblicas nos remetem à uma releitura num nível semântico e histórico onde os persomagens-povo desfilam reclamando por justiça. É a famosa introspecção de "Eu" poético num eu impessoal mas, ao mesmo tempo, restabelecido, esse eu impessoal, numa postura de alter-ego do poeta. Falando assim parece complicado mas basta dizer que é como se os personagens tomassem "de pena" ( caneta ) do poeta e dissessem suas verdades e o poeta gritasse: "mas era isso que eu queria dizer, meus irmãos de saga", Sagarana? " serTÃO assim, como essa fome enjaulada que habita em mim?" Digo em um de meus poemas. SF escreve como se fôra um menino astuto que
acabasse de criar um brinquedo e ficasse ali do lado da criatura a pensar, fui eu? Todo bom artista tem essa mesma sensação após "parir" sua obra." Parla", meu caríssimo poeta!


Comentários para Soares Feitosa


 

 

 

 

 

 

 

J. ROMERO ANTONIALLI 


NORDESTES, UMA LEITURA

 

Nordestes. Brasis. Mundos.

“O mundo jaz nas mãos do maligno.”

 

E de seus prepostos.

Desde quando?

Desde tempos imemoriais.

Até quando?

Ora pro nobis.

...

Esta, que vivemos, que existimos, a grande peça infinitas vezes encenada.

Os atores, os mesmos.

A trama, a mesma.

O tema, o mesmo. O de Mammon.

...

Ah! as chaves. As senhas. Algumas. Suficientes.

Tempo unitário.

Responsabilidade.

Alternância cármica.

Moedas.

Tu.

Ele.

Potestas. Poder (político-)econômico.

Potestas. Usurpação. Imposição. Imposto.

Roma.

Unigênito.

...

Parêntesis.

Deu muito trabalho. Mais do que sempre.

Demandou pesquisa. Revisitas. Reflexão.

E, principalmente, incubação.

E hoje, 16/11/01, pus-me a a registrar o que ia recebendo.

Do alto deste momento, 17h01,

ainda não sei claramente aonde esse impulso vai me levar.

Muita coisa acho que já entendi. Algumas peças ainda não se encaixam.

Trata-se, realmente, do mais instigante poema com que já me deparei...

Faz-me pensar em alguns quadros de Dali.

Intersecções, superposições, reinvenções, sincronicidades e propositadas

deformações.

Parêntesis fechando-se.

...

Verbo à obra!

...

Um fato trivial já na prática injusta da política movida a POTESTAS. IPI sobre: tijolos de barro amassado;

         telhas vãs;      

         madeira bruta;

         chapéus de palha;

         cestos rústicos;

         sapatos de recém-nascido;

         soro de veneno de cobra.

 

Sete itens. Sete temas.

Sete arquétipos: barro, teto, madeiro, proteção, cesto, calçado, serpente.

E mais um, que abrange a todos e que podemos nomear como moedas.

E é com o desdobrar poiético (sic) desses arquétipos que o Poeta tece a sua rede temática.  Intrincada. Altamente intrincada.

E que se estende sobre um universo proteicamente multipolar.

Bipolar, para os efeitos didáticos do analisar.

Como o poema obedece a uma estrutura reticular, de ecôos e reflexos múltiplos carreados pelo fluxo da redundância, impraticável seria fazer uma incursão verso a verso nesse texto tensamente intenso!

E começamos a perguntar: por que a presença

de Filoctetes?

de Caim?

de Moisés?

de Jesus?

de Judas Iscariotes?

de Francisco Severino?

de José?

de Francisco Severino?

de Eva?

de Cristo?

Poderíamos começar ingenuamente assim.

Filoctetes, guerreiro mordido pela serpente, precisou do soro. Que não havia.

Caim, o desterrado, precisou do chapéu, da proteção do Senhor, para não ser morto.

Moisés, o tirado das águas, precisou do cesto de juncos para sobreviver.

Jesus, o Filho do homem, precisou ser vendido por trinta moedas.

(Trinta e três, diz o Poeta, num aparente cochilo de informação.)

Judas Iscariotes, o traidor, precisou do oleiro, do barro do Campo do Oleiro, para nele ser sepultado.

José (= Deus proverá) precisa do teto do Céu, para ter providas suas necessidades.

Não do chão dos homens.

Assim como Francisco Severino.

Um tipo emblemático do Nordeste, dos Nordestes. Que são dois. Que são muitos.

O grande necessitado. O grande desamparado. Que tem uma única esperança.

Essa a sua fé. Crer na providência divina, porque dos homens o que pode ele esperar?

Assim como José.

Eva precisou da serpente, para poder fazer o que fez...

Cristo precisou do madeiro para nele ser crucificado.

(“Por que é mister que estas coisas aconteçam.”)

Esse o grande painel da necessidade.

Necessidade = algo que tem de acontecer.

Necessidade = algo de que alguém necessita, algo de que alguém tem carência.

 

Não há o contingente. Só há o necessário. O contingente é uma construção filosófica que não tem guarida na Realidade.

Tudo que acontece, acontece porque  tinha de acontecer.

Atrás de cada acontecimento, ainda o mais trivial, há um complexo de causas, que se estendem até Adão, até Filoctetes...

A responsabilidade é individualmente coletiva. Coletivamente individual.

Todos por um. Um por todos. Um por um.

O que aconteceu com Filoctetes, personagem mítica, é exatamente aquilo que Severino pode evocar para si, para seu universo de manifestação.

Filoctetes.

Um guerreiro bravo, de tal bravura, que recebeu de Hércules (Héracles) o seu mais caro legado: flechas envenenadas. E isso nos faz pensar. Por que Filoctetes recebeu tal mimo?

Porque se fez digno dele. Pelos seus atos, pela sua atuação. Uma atuação relacionada com o veneno, que chegava até ele por ele atraído. E o que acontece com ele? É mordido por uma cobra, e a ferida exala um mau cheiro terrível, tão insuportável que se vê abandonado por seus pares em uma ilha deserta.

A pergunta é: de quem a responsabilidade da mordida, do veneno nele injetado?

Hércules, ao lhe dar o mimo, dava-lhe juntamente uma senha...

“Você merece pelos seus atos venenosos, esse mimo venenoso.” E o que era senha se converteu em realidade...

Caim.

Assim que reconheceu o crime perante o Senhor logo entendeu:

“Agora qualquer um que me encontrar há de me matar.”

Ele entendeu que tinha atraído para o seu universo de uma maneira irrevogável o decreto de ter de ser morto.

Mas o Senhor colocou em sua testa uma marca, uma senha para que ninguém o matasse. Não daquela vez. Não por qualquer um. A justiça pedia, pede, outra coisa.

Que o drama seja o mesmo. Que as personagens sejam as mesmas. Que se alternem os papéis.

E qual foi a necessidade de Abel ser morto? E por Caim?

Essa pergunta vou deixar para quem puder lidar com ela...

Moisés.

Teve de ser salvo, ainda bebê, da morte pelas mãos de uma princesa do Egito.

Achado num cesto de juncos, foi aquele que libertou o seu povo do Egito.

Moisés é salvo por alguém que estava no Egito.

Moisés salva alguém que estava no Egito.

Enantiomorfismo da justiça.

Judas Iscariotes.

Quebrou o vaso do oleiro.

Traiu Jesus e o condenou à morte.

O oleiro quebra o vaso de Judas.

Judas é sepultado no campo do oleiro, e nele se reduz a barro, a pó.

Por que trinta e três moedas?

Por que o Poeta comete essa imprecisão?

Uma questão de intersecção.

Trinta e três anos, diz a tradição.

Trinta e três moedas. Uma imposição do senso de justiça.

Ninguém sabe quantos anos foram. Poderiam ser trinta...

O Poeta optou por fazer uma intersecção que se valia de dois fatos:

A tradição dos trinta e três, e a quantidade de moedas.

Há muito mais senha e poesia na transgressão do Poeta!

...

Enantiomorfismo.

E disse o Senhor à serpente:

“E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”

A serpente feriu a cabeça da mulher. A mulher ferirá a cabeça da serpente.

E podemos deduzir, mesmo sem entender plenamente:

A mulher feriu o calcanhar da serpente. A serpente ferirá o calcanhar da mulher.

...

Aquele que sofre, Severino, para além da natural indignação que isso provoca em todo homem de bons sentimentos, é aquele que provocou o sofrimento.

Severino, Filoctetes.

Severino, Caim.

Severino, serpente.

Severino, ...

Nós, todos, Severinos...

Resumindo em nós mesmos, holograficamente, aquilo que todos são, aquilo que todos foram e manifestando em nossas vidas aquilo que,  em algum momento de nossa existência, ajudamos a se movimentar.

...

Essa questão do enantiomorfismo nos permite entender, sem entender, muita coisa...

E se exerce sobre esta dimensão em que a necessidade, em seus dois sentidos, se faz viva e presente.

Cada uma das personagens acima arroladas, citadas direta ou indiretamente pelo Poeta, pode ser submetidas a esse crivo.

Mas esse é um exercício que vou deixar em aberto, para que todo aquele que ouse possa fazê-lo...

Ficou a amostra acima e o modus operandi do processo de prospecção.

...

Para encerrar, umas palavras sobre o Unigênito, que praticamente encerra o poema.

Unigênito. O único nascido. Sem nenhum outro a mais.

Não há muitos nascidos, num nível essencial, que escapa ao nosso entendimento.

Há um só nascido.

Todos os nascidos, desde Adão, são um só.

Filoctetes é Severino. Severino é Filoctetes.

Caim é Abel. Abel é Caim.

Somos Caim. Somos Abel.

Para além de todas as aparências, de todas as ilusões, somos um só.

Quando mato a alguém, na verdade, na verdade, estou matando a mim mesmo.

Quando recebo sobre mim um escorchante e humilhante IPI, estou recebendo sobre mim o que eu mesmo preparei para mim.

Eu me esqueci disso, mas o fato jamais se esquece de mim.

Se somos um, então por que não nos amamos?

...

Ora pro nobis!

 

Intervalo

 

Prezado  Poeta:

 

Interpretar é construir um  texto para intersecção.

Quando somos felizes, grande é a área comum.

Quando falhamos...

Haverá sempre um novo texto com suas peculiaridades,

com seu sopro vital próprio.

Às vezes, interessante.

Às vezes...

Esse o risco e a fonte de gáudio do interpretador.

...

Poeta, apraz-me navegar em  tuas águas,

Sempre as mesmas,

Nunca as mesmas!

Não por obrigação,

Não por dever,

Mas por desafio,

Por instigância,

Mas por prazer!

Usava viajar Fernando Pessoa.

Hoje isso já não me apraz,

Não tanto quanto antes.

Descobri-lhe a chave.

(Acho que descobri.)

E ele já não pode inventar outras...

Tu, aí estás,

Estuante,

Nato a cada momento,

Eternamente novo a cada instante!

Gosto de quebrar o malho  na bigorna do teu verbo.

Gosto de me surpreender,

De me assombrar,

De quedar-me extático.

Gosto de voar,

Gosto de velejar,

Gosto de navegar.

Peço-te:

Navega,

Infla tuas velas,

Há paramos a descobrir.

Há horizontes a explorar!

Vai e traze-nos

Alforges refertos

Do vasto verbo!

Vai e traze-nos

Pérolas muitas de sombraluz!

Vai:

Esta a tua missão,

A tua santa cruz!

...

Poeta,

Desculpa-me por me opor a tua  resolução.

Se não estiver maçando-te, fica sabendo:

Gosto de velejar no teu verbo.

...

Do admirador de sempre,

Romero.

 

NORDESTES, UMA (2ª) LEITURA

NORDESTES:

Procurando explorar a não-localidade.

 

De volta.

Meio à revelia.

É que ficaram lacunas.

(Sempre ficarão!)

Sítios apenas ligeiramente, de longe, vislumbrados.

E tais sítios, e muitos são eles, parecem obedecer ao princípio básico do fractal: a não-localidade.

Num fractal,  que se desdobra ao infinito, é impossível localizar, em termos de coordenadas precisas, um ponto qualquer, uma área qualquer, já que, matematicamente, se abrem para outros planos, para outros pontos, para outras áreas, e isso ao infinito...

Quem ainda não explorou um fractal, que o faça.

http://www.fractalus.com/ifl/

E sugiro, para explorá-los à farta, um excelente freeware:  Fractint,  que pode ser facilmente encontrado no portal acima. Aí ficará mais fácil entender o que se disse acima a respeito do poema Nordestes, de Soares Feitosa.

Num artigo despretensioso, falando sobre o despertar de uma nova estética, discorri ligeiramente sobre algumas características que provavelmente estariam nela presentes.

E deixei de falar de uma fundamental: a não-localidade, que é, por sinal, um dos parâmetros descritivos das partículas sub-atômicas, e fruto recente do caminhar quântico da Física.

Que tem a ver com o princípio  da incerteza, de Heisenberg,  que se aplica à “observação” das partículas.  Basicamente:  quando se determina um parâmetro (a velocidade, por exemplo), torna-se impossível identificar com precisão um outro (a posição, por exemplo).

Transportando esse princípio para o universo do verbo, havemos de notar singularidades:  a partícula é “observável” apenas durante milionésimos de segundo, e logo foge do campo de observação, deixando identificado claramente apenas um parâmetro.

O verbo tem uma vantagem:  é um tanto plástico e consistente, fugidio e capturável.

É próprio do verbo ter esse bifrontismo básico:  uma capturabilidade fugidia, uma fugacidade capturavel,  que pode se estender fractalmente a múltiplas dimensões que se organizam dentro dele mesmo, do verbo.

E há poetas, poucos e raros, que têm a habilidade (o dom, em verdade) de lidar com arte e engenho com essa característica fascinante do verbo.

O poeta é aquele que captura fugazmente um momento mágico de manifestação do verbo, conseguindo registrar  esse caráter infinitamente plástico-coagulado da palavra, que, reiluminando o assim dito contingente (a dimensão dos IPIs e de outras dementalidades), mergulha-o em uma supra-realidade que o ressignifica em termos mais básicos, mais arquetípicos.

E é dentro desse contexto poiético (de poiein, do grego, fazer), desse fazer-reelaborar, que o poema Nordestes deve ser inserido, para permitir uma assíntota-entendimento um pouco à altura do estro do Poeta.

Assim, precisamos estar atentos a que qualquer interpretação que se venha a fazer do poema é liminarmente relativa.  Algumas poderão chegar mais próximo da mensagem (que nem mesmo o Autor entende por inteiro:  isso seria uma impossibilidade de origem: o verbo tem ressonâncias muitas que escapam em magnitude a todos que dele se abeiram!), e poderão dela se aproximar indefinidamente...  E outras pairarão, apenasmente, sobre a superfície dos abismos...

E nunca saberemos com certeza o grau de aproximação que tenhamos alcançado  em nossas intrépidas (ou não) incursões.  E de pouco adiantaria consultar o Autor:

o texto, com o princípio de  incerteza nele embutido, é maior do que o Autor

(embora o Autor seja maior que ele).

(Há verdades que o paradoxo impõe...)

...

Ao texto.

Examinemos, à guisa de exemplificação, um item, aplicando a ele o que pudermos aplicar, procurando respeitar ao máximo o que foi dito acima.

Seja o item:  “tijolos de barro amassado”.

Temos aí três sintagmas: tijolos, de barro, amassado.

Ou três senhas ou indícios arquetipais: tijolo, barro, massa.

Três campos fractais de exploração.

Vamos ficar com barro.

Ressonâncias de barro, no poema:

Tijolos, barro amassado, telhas vãs, montes, chãos, oleiro, chão (da Pátria).

Persigamos o oleiro. (Porque essa é uma das lacunas fortes que ainda estão a exigir uma exploração um pouquinho mais detalhada.)

Ressonâncias:

Oleiro + moedas + 33  à  contexto bíblico

à Judas Iscariotes

Oleiro + contexto bíblico  à  vaso

Moedas + 33  à  Jesus

Oleiro + Judas  à  Campo do Oleiro

E se fosse o caso:

Campo do Oleiro  à  Acéldama  (=Campo de Sangue)

Campo de Sangue  à  Gólgota

 Gólgota  à  Crucificação

Crucificação  à  Madeira

E a rede de sentidos começa a tomar (extrapolantemente?) forma...

Vaso + Chave Bíblica  à  referências várias, ressonâncias que poderão ou não ser utilizadas. Estamos imersos profundamente, já, num mergulho na fractalidade...

...

Detenhamo-nos, agora, um pouquinho em

“—  onde o oleiro?  —“

Entendamos oleiro como aquele que faz o vaso (humano).

E a Bíblia diz que uns vasos são feitos para honra e outros para desonra.

Poderíamos diante disso ter uma atitude francamente fatalista.

Maktub.

Maktub, sim.

Mas não do jeito reducionista que freqüentemente o entendemos.

Vaso = um objeto que contém ou pode conter um outro objeto.

O vaso é o continente, o imediatamente aparencial.

Caim veio para desonra.

Abel veio para honra.

Ou melhor: o vaso Abel e o vaso Caim.

A honra ou desonra, enfatizemos, aplica-se ao vaso e não necessariamente

ao seu conteúdo.

...

Parêntesis.

A fractalidade soro à veneno  à serpente  à  Eva nos permite, examinando a referência bíblica:

“E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.”

deduzir, em face do mal  (e do bem) o princípio do enantiomorfismo, que preside as relações entre os vasos.

A imagem  que vemos no espelho é enantiomórfica:  representa quase identicamente o objeto original.

Seriam iguais, mas não o são, pois não podem se sobrepor ponto  a ponto. Nossas mãos são enantiomórficas em relação à outra.

Na imagem especular, o que é esquerdo aparece como direito...

Transpondo.

O que parece mal é bem...

O que parece de fora é de dentro...

O que parece ser recepção é transmissão...

Aquilo que o vaso recebe é algo que o vaso transmitiu.

O princípio do enantiomorfismo nos diz, em termos transéticos, que não há ofensor, que não há ofendido;  que o ofensor é o ofendido, que o ofendido é o ofensor.

Parêntesis fechado.

...

E agora poderemos entender porque o Poeta chamou o espoliado de Caim. O esperável na lógica do mundo é que o coitado do nordestino, do brasileiro humilde e humilhado fosse da igualha não do ofensor, mas do ofendido. Mas numa lógica, que poderemos chamar de maior...

...

Agora as coisas começam a ganhar uma consistência inconsistente ou uma inconsistência consistente... E agora dá para entender que isso não é um mero jogo de palavras...

...

Para  quem quiser explorar quem são os recéns, basta pensar que são aliados do espoliador, do maligno e de seus prepostos. Se olharmos atrás da pena, veremos seus instrumentos mais concretos...

E estabelecendo enantiomorficamente  a seguinte equação exploratória:

Recéns  =  Pristinéns, poderá descobrir algo essencial.

Acham-se os eretores de uma nova ordem, em que tudo seja dele.

Mas tudo já é dele!

Dele, de quem?

Dele, da sombra dEle.

Mas se esquecem:  tudo, em verdade, é dEle!

E agora podemos perguntar, sabendo o que estamos perguntando:

“Não seria a hora de começar o despertar?”

“Onde ele?”

Onde Ele?

Que parece não se importar com os desacertos desse mundo tão injusto...

Essa uma das leituras (válidas) possível, dentro do contexto fracto-holográfico

desse estonteante poema...

...

Quem quiser se abeirar com sinceridade da obra do Poeta, que busque antes a chave.

Na falta dela, uma chave empregada com humildade há de servir para os preliminares

Descerramentos...

...

Mais haveria para dizer, que o poema é realmente grandioso!!!

Mas, como gosto de fazer, vou deixar o timão e permitir que a nau fique à deriva,

aé que um timoneiro mais intrépido venha e o assuma.

Com mais mãos mais prestas, com mãos mais fortes.

...

...

Poeta, um abraço amical.

Do admirador de sempre,

Romero

 

PS:  É com relutância, com um sentimento de saudade já, que detenho o fluxo

do texto, mas é mister que a exploração por ora se cale...

 


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