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José Hélder de Souza

 

Entrevista a João Carlos Taveira

Um salto no abismo de José Hélder de Souza
 

in Literatura nº 14

 

O escritor José Hélder de Souza (Massapê-CE, 1931), com 38 anos dedicados integralmente ao jornalismo e à formação literária de Brasília, nesta entrevista, demonstra constante participação do movimento histórico, sem nunca perder a visão interpretativa da administração de Brasília e do País. Homem de profunda esperança, até mesmo a globalização, que é um fantasma para muitos, para ele “nunca será infinita, não irá além da capacidade de renovação da sociedade humana, mesmo a mais retrógrada e atrasada”.

Ser escritor em Brasília, em sua análise, “provoca invejas, os de outras cidades acreditando termos intimidades com os poderes centrais e favorecimentos, o que nem sempre é verdade”. Mais adiante, afirma: “Há bons e péssimos escritores; há bons e ruins administradores, como há também corruptos e prevaricadores, todos se amam, como diria Menoti del Picchia em seu Juca Mulato, as estrelas no céu e os insetos na lama...”

Dono de uma vastíssima bibliografia, cabe destacar que José Hélder de Souza participa das antologias A Novíssima Poesia Brasileira (1962), de Walmir Ayala; Poetas do Ceará (1983), de Raimundo Araújo; e de A Poesia Cearense no Século XX (1996), de Assis Brasil

 

JCT – A sua chegada a Brasília se deu na década de 1960. Qual o sonho que motivou sua transferência do Ceará para o Planalto Central?

JHS – Não houve propriamente um sonho. Sinceramente, o infortúnio foi o motivo, não digo o maior, mas um dos determinantes para o salto no abismo. Sou filho de pequenos burgueses com avô latifundiário. Porém isto não vale, não determina a vida prática de ninguém. Por boêmia, desfastio, tédio, ódio que, segundo o poeta Antônio Nobre são Moléstias d’Alma para as quais não há remédio, abandonei os estudos no segundo ano do curso clássico do Liceu do Ceará. Entrei para o jornalismo, meio clandestinamente – já havia, na época, faculdades de jornalismo – e sentei-me, por conta do ódio, numa banca de redator do jornal diário “O Democrata”, órgão do Partido Comunista, sem, no entanto, abandonar o conforto do lar paterno. Foi em 1953, ano da morte de Joseph Stalin e o começo da derrocada do vago, impreciso ódio às instituições burguesas.
Ainda levemente ligado ao PC – nunca o abandonei propriamente, nem jamais deixei de acreditar no socialismo (sem Stalin!) – fui para o Rio de Janeiro. Trabalhei no jornal de frente democrática (mistura de comunistas, socialistas e outros democratas de vários matizes) “Emancipação”, dirigido pelos oficiais da reserva marechal Felicíssimo Cardoso e seu irmão general Leonidas Cardoso (pai de Fernando Henrique Cardoso), deputado federal por São Paulo. Na verdade, quem o editava era Carlos Alberto Costa Pinto, baiano, e o cearense Maurício Pinto, ambos do velho PC. O jornal, de periodicidade incerta, defendia o “petróleo é nosso” e outras causas nacionalistas, vivia de doações de ricos profissionais liberais simpatizantes do PC ou da causa do petróleo, e quase sem nenhum anúncio. Remunerava mal e de modo também incerto. Vivi de favor no apartamento de um jovem médico pernambucano (não guardei seu nome, nem o de sua mulher, ambos filiados ao PC). Fui assim vivendo, até me abrigar, clandestinamente, na Casa do Estudante do Brasil, com amigos do Ceará. Ganhava mais uns trocados numa agência de notícias, passando matérias para São Paulo por telefone, depois das sete horas da noite. Um sufoco, os aparelhos funcionavam mal, tinha de repetir notícias, o que me levava a altas horas da noite. Depois, a farra em botecos da Cinelândia. Dormia mal e comia menos. Veio assim uma recidiva da tuberculose contraída (também por desfastio e boêmia) aos 18 anos. Com 22 anos de idade, desiludido (a cachaça, às vezes, abafava a desilusão), tinha que regressar ao chamado lar paterno. Faltou então o necessário dinheiro para a passagem de volta.

O pessoal do “Emancipação” conseguiu embarcar-me num antigo cargueiro, ocupando o que fora o camarote do telegrafista. O comandante, um velho lobo do mar aposentado e que fazia um “bico” navegando no arruinado navio ao qual chamava de “banheira”, sempre reclamava da insegurança, pela falta do telégrafo, na iminência de um naufrágio. Mas passamos pelo perigoso mar dos Abrolhos, atracamos no Recife e, ao fim de uma derrota de uns quinze dias, desembarquei, são e salvo, embora com os bacilos roendo os peitos, no porto de Mucuripe, na Fortaleza. Voltei ao lar paterno – único filho homem aparado pela compreensão e amor do pai – e ao “Democrata”, depois de meses de repouso num sanatório. Em 1956, o ano do turbilhão chamado Nikita Kruchev a fazer as denúncias dos crimes de Stalin e Béria, no XX Congresso do Partido Comunista, o jornal – também financiado por doações e um pouco de venda avulsa – foi definhando, até ser fechado por ordem do PC. Novo desemprego e desorientação, aos 24 anos.
 

Recolhi-me a penates, por uns meses, nas casas dos avós, na Meruoca, Massapê e Sobral, sertão norte do Ceará. Voltando para Fortaleza, felizmente consegui emprego nas redações de “O Estado” e depois de “O Povo”. Já tinha algum nome, publicava crônicas, contos e poemas nos suplementos dos jornais. Sempre enfastiado e nem sempre bem remunerado, metido à noite nos botecos e prostíbulos das praias, acompanhado de intelectuais amigos da boêmia, veio-me de novo a maldita tísica. Internei-me no sanatório dos comerciários por seis meses. Curado pela estreptomicina, decidi partir e, com os trocados amealhados pela espécie de pensão do IAPC e uns tantos vindos da generosidade do pai, embarquei num avião da NAB – Navegação Aérea Brasileira, meio sem destino, em julho de 1960. Primeiro, uma parada no Rio, ainda na Casa do Estudante, abrigado por meu amigo e eterno estudante de engenharia – formou-se depois de 8 anos matriculado na faculdade –, José Sabóia Ribeiro.
Resumindo a minha epopéia: em agosto, ainda com destino incerto, cheguei a Brasília. No Rio, o deputado federal José Colombo de Souza, meu parente, apontara-me o horizonte do Planalto Central, no qual me ajudaria; abrigou-me, provisoriamente, no seu apartamento da 208 Sul; ele, a mulher e os filhos menores, ainda viviam em Grajaú, aqui estavam só os maiores, José e Maurício. Nestes dias conheci o jornalista Jairo Valadares, colega de Colombo Filho no Correio Braziliense e TV-Brasília. Jairo, por sua influência na NOVACAP, conseguiu-me um quarto no Hotel Dó-Ré-Mi, uma construção de madeira na beira do lago, no qual a NOVACAP abrigava, com todo conforto, roupa e cama e tudo mais, certos forasteiros e algumas personalidades. Ainda por intermédio do Jairo e do Colombinho, aproximei-me do Correio Braziliense, no qual, com a generosidade e compreensão do conterrâneo Ari Cunha (com quem, aliás, trabalhara no Ceará) e de Edilson Cid Varela, empreguei-me como redator, depois secretário. Aí terminaram – sem sonho algum – minhas vicissitudes, minhas agruras e cá estou definitivamente fincado. É claro que aderi à cidade, ao ideal mudancista, pois lera muito, em revistas e jornais, nos meses de sanatório, sobre a Nova Capital. Foi fácil assim, aceitar e adaptar-me à vida de Brasília.



JCT – Cassiano Nunes afirmou numa entrevista que Brasília, do ponto de vista literário, é uma espécie de túmulo para o escritor que decide nela radicar-se. Mesmo após ter-se aposentado, a sua decisão foi de permanecer em Brasília. Qual o segredo? O futuro está aqui?

JHS – Não há segredo, ou se quiserem, o segredo é a família. Saí do Ceará já praticamente noivo com Maria Neide. Qualquer oportunidade que havia, dava lá um pulo para namorá-la. Em 1961, um ano depois de vida em Brasília, fomos morar num apartamento de 2 quartos, os primeiros da Asa Norte, conseguido junto à Prefeitura e ao então Prefeito Paulo de Tarso, com a ajuda do Ari Cunha, assessor especial do gabinete do Prefeito. Nele tivemos os primeiros filhos, Zuleika e Adriana. Não largamos de todo a Fortaleza, geralmente as férias eram lá. A família foi crescendo, na mudança para a 205 Sul nos vieram Tereza e Pedro. Não havia motivo para o retorno ao Ceará, estávamos e estamos satisfeitos com Brasília, temos aqui vida estável. De fato, o futuro está aqui: o neto Vítor e outros que, espero, hão de vir, nos enraizando cada vez mais neste chão do cerrado. Temos, além do mais, hoje, poucos parentes no Ceará, os amigos cada vez mais rareando, a idade, as doenças da velhice, os levando, uma tristeza... Assim mesmo, não deixamos de ir lá.
Quanto ao “túmulo” referido pelo meu amigo Cassiano, é discutível. Há escritores, jovens e velhos, moradores de Brasília, figurando, de quando em vez, em concurso ou publicações de outras terras. O próprio Cassiano Nunes é citado em dois números da “LB - revista da literatura brasileira”, editada em São Paulo por Aloysio Mendonça Sampaio, por seus trabalhos “Cora e Lobato”, no número 7 da LB e, no número 9, “Vinte vezes Cassiano”. Este mesmo número da LB traz uma referência ao “Bestiário Lírico”, de Antônio Carlos Osório, presidente da Academia Brasiliense de Letras, e trabalhos de Ronaldo Cagiano e Emanuel Medeiros Vieira, hoje escritores bem brasilienses. Por sua vez, a revista literária “Blau”, do Rio Grande do Sul, número 18, traz referências aos livros “Os Avessos do Espelho”, de José Santiago Naud (editora Thesaurus), “Caminho de Estrelas”, livro póstumo de Maria Braga Horta, organizado por seu filho, o poeta Anderson Braga Horta e “Pura Lira”, do diplomata Hélio Póvoas, aqui publicado. Já o jornal “O Escritor”, da União Brasileira de Escritores, dirigido por Fábio Lucas e editado em São Paulo (número 82, outubro de 97), traz uma notícia sobre o livro de contos de Nilto Maciel – “Babel”, e outra ainda sobre “Caminho de Estrelas”, de Maria Braga Horta. Entendo Cassiano: é que ser escritor em Brasília provoca invejas, os de outras cidades acreditando termos intimidades com os poderes centrais e favorecimentos, o que nem sempre é verdade.



JCT – Em Brasília há produção literária que justifique maior atividade editorial?

JHS – É difícil a resposta. Destaco, porém, que há anos, não só Brasília como o Distrito Federal e até municípios vizinhos, de Goiás, contam com bom e moderno parque gráfico para qualquer tipo de feitura de revistas ou livros. Existe também já um bom número de editoras: a Thesaurus, a mais antiga delas, e a André-Quicé, do Alan Viggiano e seu filho Mário, estão aí dando seu recado. Por sua vez, o Vítor Alegria, da Thesaurus, diz ter cadastrado cerca de 600 escritores no Distrito Federal, naturalmente publicados por ele e, certamente, na maioria, opúsculos sobre assuntos diversos, poucos de vero caráter literário, alguns de versos frouxos e melosos rememorando a morte da mãe ou pai do presumível escritor. Verdadeiramente, da relação do Vítor, nos restam talvez dez por cento de autênticos escritores, uns cinqüenta ou sessenta. O que talvez haja é pouca produção de obras de real valor literário a ser notada e destacada pela crítica e aceita pelo público. É que nem tudo que reluz é ouro. É uma vasta questão a ser examinada e discutida. Encerrando, porém, este meu juízo, lembro que quase mensalmente (ou quinzenalmente?) há lançamentos de livros aqui escritos e publicados; o restaurante Carpe Diem é o maior centro de tais lançamentos.



JCT – Seu último livro de poesia, Relvas do Planalto, saiu em 1990; Rios dos Ventos, de contos, em 1992. Considerando que já foi editada uma dezena de livros de sua autoria, por que a demora em publicar uma nova obra nestes últimos anos?

JHS – De certo modo, a resposta está na questão anterior: produção rarefeita e distância de editores ou de editoras que acreditem nos meus escritos. Contudo, não estive inteiramente parado. De 90 para cá, publiquei alguns ensaios que prezo, publicados na Revista da Academia Brasiliense de Letras, e que poderiam e gostaria de enfeixar em livro, como: Frases Eternas de Machado de Assis (N.º X), Argila: um soneto de Raul de Leoni (N.º 13), Versos de Petrarca na Cadeia de Mestre Elias (N.º 14) e Notícia que se dá da morte do poeta Antônio Girão (N.º XI), além de poemas e crônicas e várias apreciações (não críticas, que não o sou) sobre alguns livros como o de José Santiago Naud , Os Memoráveis signos de Santiago Naud. Alguns outros em outras publicações, como “A cultura das Cidades”, e que sonho em ampliar e publicar em livro, pois neles procuro discutir a transformação da cultura ocidental por intermédio do som e da imagem, especialmente da televisão. Informo ainda ter nas mãos de José Salles Neto, da Associação dos Bibliófilos do Brasil, o livro Pequenas Histórias Matutas reunindo contos desta última fase de vida e que deverá sair muito breve. Planejo também reunir poesias num livro a ser intitulado Viagem – o faço devagar, pois poesia é coisa muito difícil... e muito mais séria do que se imagina. Estive presente, por outro lado, em antologias, a principal delas A Poesia Cearense do Século XX, organizada pelo crítico Assis Brasil, fazendo-me profundamente desvanecido ao ver-me ao lado de José Albano, Antônio Girão Barroso, Aluízio Medeiros, Artur Eduardo Benevides, Gerardo Melo Mourão e muitos e muitos outros.



JCT – Além de parque editorial, o que está faltando para o escritor de Brasília?

JHS – Não cairei no lugar comum de dizer que falta apoio, incentivo e coisas que tais. Não, pelo menos nos anúncios oficiais eles existem, e os vemos também em entregas de tais benefícios, noticiados pela imprensa. Como já dissemos acima, pode ser falta de empenho e trabalho, talento dos escritores e, ainda mais, divulgação pública das atividades literárias. A arte literária é difícil, penosa, solitária, precisa nascer forte e com alguma perfeição para se impor, não basta a presunção de genialidade e de querer reconhecimento gratuito. Trabalho, talento e conhecimento da arte literária ou de outras artes, a gramatical e lingüística inclusive, são fundamentais, a não ser que se pretenda conseguir tais incentivos e apoios por mera gestão ou ingerência política, o que muitas vezes acontece, por influência de poderosos a amparar seus medíocres protegidos. Não estou generalizando. Há bons e péssimos escritores; há bons e ruins administradores, como os há também corruptos e prevaricadores, todos se amam, como diria Menoti del Picchia em seu “Juca Mulato”, as estrelas no céu e os insetos na lama...



JCT – O panorama da literatura atual não é muito animador. A arte –sobretudo a poética– não tem apresentado nenhum compromisso com o novo. Tudo parece velho, para não dizer repetitivo. A que você atribui esta falta de explosão?

JHS – Ressaltemos, de início, que o marasmo criativo ou renovador é somente na literatura pura, mormente na poesia. O mundo cultural e artístico, generalizando, transformou-se inteiramente nestes últimos cinqüenta anos, com o cinema e a televisão, o mundo e a nova cultura da imagem e do som, coisa que a maioria dos intelectuais e escritores ainda não percebeu integralmente, ou simplesmente, por presunção, recusa-se a aceitar - rádio, cinema e televisão, acham, são coisas vulgares, popularescas, inferiores às suas “divinas” manifestações e concepções literárias. Até a vulgarização eletrônica da cultura, digamos assim, só o alfabetizado, desde os gregos e romanos, alcançava a cultura e o conhecimento generalizado por meio da leitura dos livros. Hoje, o analfabeto – caso não seja debilóide – recebe pela TV informações culturais várias, embora muitas vezes superficiais – o cinegrafista Pedro Olavo, meu filho, costuma dizer que a televisão é um oceano de conhecimentos... com cinco centímetros de profundidade. Sem querer ser profeta, eu diria que a cultura ou literatura escrita, depois do reinado da imagem e do som, está entrando em decadência. Antes, as mulheres românticas e os homens apaixonados, mormente na juventude, liam ou pediam para lhes lerem romances e novelas... Hoje, quedam-se horas esquecidas vendo e ouvindo entrechos dramáticos, patéticos ou trágicos, sentados na sala diante da televisão, em lares pobres e suburbanos ou em sofisticados bairros burgueses, as novelas da Globo. Isto é, queiram ou não muitos intelectuais, poetas e prosadores, uma funda transformação cultural, acentuada ainda mais com os modernos computadores que estão chegando, providos de imagem e som e redes de nível até mundial. O livro, sem desaparecer, pois serve também à cultura para a formação de sua cúpula ou nova elite, está em declínio, e com ele as formas até então existentes de cultura e de feitio literário. O espalhafatoso concretismo dos anos sessenta talvez tenha sido a mais dramática e fracassada tentativa de transmitir emoções com imagens de letras e frases em forma de imagens... sem sentido. Agora, talvez surja - ou já surgiu e os intelectuais não perceberam ainda? – entre cineastas e operadores de televisão, os novos “poetas”, os renovadores das transmissões de emoções e idéias por meio de imagens e sons? Me responda quem souber.



JCT – Dentro do processo histórico das relações entre capital e trabalho, a sua visão crítica sempre esteve voltada para o social. O capitalismo, atualmente, se esconde atrás do neoliberalismo; o socialismo, por sua vez, ainda não se refez das quedas. O que se vê é uma grande massa de desempregados. Já é impossível a revolução? Onde estão os socialistas?

JHS – O socialismo – sem Stalin! –, como Minas, está onde sempre esteve. A crise mundial a se processar atualmente, é intrínseca do capitalismo, o mais selvagem, principalmente na Ásia e nos chamados países emergentes. Vejam os desastres financeiros da Coréia, Tailândia e outros bichos. É um dos ciclos previstos pelo socialista Karl Marx. Onde vai dar, não se sabe ainda. Mas, muito provavelmente, irá para outras transformações políticas, sociais e econômicas. Quais? – os cientistas sociais, políticos e econômicos, que os há muitos, inclusive um na presidência da República Federativa do Brasil – que as diagnostiquem. ... Mas, como as bruxas dos espanhóis, que as há, há... Disputas de mercados, de predomínio econômico social e político, somados a desemprego, fundas inquietações políticas com divergências ideológicas, disputas territoriais e diferenças raciais foram as causas das duas grandes guerras deste século – 1914/18 e 1939/45 – que abalaram o mundo, fenômenos parecidos com os atuais. Tudo parecido com as situações políticas e econômicas de hoje, tomara não degenerem em outra ou outras guerras de conseqüências imprevisíveis, com os mísseis de ogivas atômicas e outros instrumentos mortais, apontados para os peitos da humanidade. Os socialistas – sem Stalin e Béria! – estão em posições de onde se possa debelar a crise e impedir a guerra, num mundo sem desemprego, sem grandes diferenças sociais e econômicas, com melhor distribuição de renda e a capacidade do Estado de prover e amparar todas as necessidades sócio econômicas dos cidadãos, como nas democracias escandinavas – uma utopia, talvez mais uma...



JCT – Em alguns países, por contrariar a ordem dominante, um bom número de pessoas encontra-se no cárcere. Como você vê a cassação dos direitos do indivíduo por divergências políticas?

JHS – Um absurdo, uma tirania, é claro. Mas, sem justificar, sem querer dar razão aos tiranos de hoje e de todos os tempos, parece uma sina da própria humanidade, desde os gregos. O filósofo Sócrates foi condenado a beber cicuta, suicidando-se, por ser considerado, pelos poderosos, contrário aos costumes sociais e políticos da democracia – veja bem, democracia! – da República de Atenas. Giordano Bruno, cientista italiano, no albor da Renascença, por suas concepções científicas sobre o universo e negadoras dos dogmas da Igreja, foi queimado vivo pelo Santo Ofício da Inquisição, órgão judicial e político do Papado; na Revolução Francesa de 1789, o poeta André Chenier aderiu inteiramente às idéias dos revolucionários, mas, depois, quando discordou do curso dos acontecimentos políticos, foi guilhotinado. São inúmeros os casos, no decorrer dos séculos. Neste século em crepúsculo, o caso mais notório e grave foi o do casal de cientistas nucleares Julius e Ethel Rosemberg, americanos descendentes de judeus. O histerismo do próprio Estado americano contra o comunismo e toda uma poderosa ideologia de direita os acusou de colaboração com a União Soviética – fornecimento de conhecimentos científicos sobre manipulação e uso da energia atômica de que os americanos criam ser os únicos conhecedores, com capacidade para fazer bombas atômicas – levou Július e Ethel à cadeira elétrica, em 1953. Um absurdo, uma tirania na chamada maior democracia do mundo. Anos depois, viu-se ter sido uma grande injustiça.

No Brasil, na ditadura militar, houve casos graves, execuções cruéis, mas não públicas como o caso Rosemberg, e que só viríamos a saber anos depois, removidos dos porões da clandestinidade os policiais e militares executores da política de repressão. O fato é que o poder, absoluto ou não, sempre quer perpetuar-se. Por isso, não perdoa seus adversários, matando, encarcerando ou simplesmente alijando da vida política quem o contesta. Daí nasceram, e nascem, os movimentos revolucionários dos insatisfeitos, nem sempre heróicos vencedores, nem sempre totalmente vencidos.



JCT – O governo de Cristovam Buarque atendeu às expectativas da esquerda?

JHC – Diria, sem sofisma, ser difícil qualquer governo, de bases políticas populares e de aspectos ou fundamentos utópicos, atender aos anseios de todos, de todos os utopistas... Cristovam, com suas idéias de “governo popular e democrático”, relaxou, deixou que os demagogos acabassem de esculhambar Brasília e a higidez do plano da cidade e do Distrito Federal. Permitiu a continuidade da política do maior malfeitor do Distrito Federal, Joaquim Roriz, e seus asseclas, de assentamentos populacionais de fundamentos políticos e maléficos e com finalidades de especulação imobiliária. Toda vez que o governo anuncia doação de lotes ou regulamentação de invasões, uma nova onda de pessoas da periferia e até de terras longínquas vem à procura da felicidade de ser proprietário de um pedaço de terra, isto desde os tempos de Juscelino. Cristovam Buarque foi a negação política de quem lhe deu votos na esperança de que ele acabasse com invasões e esculhambações urbanísticas e arquitetônicas do Distrito Federal. Uma decepção, para quem vive e viveu construindo e procurando defender Brasília em sua essência. Vote governo popular e democrático...



JCT – O que resta ao poeta, depois que os ideais revolucionários foram massacrados pela globalização?

JHS – A esperança, toda esperança, no homem e em toda sua capacidade de criar, de modificar a si mesmo e ao mundo circundante. A tão propalada globalização é passageira, pode até durar cem anos – o que duvido – mas terminará com o homem trilhando novos caminhos, até o das estrelas ou do cosmo. Sempre surgirá um homem novo, uma sociedade nova, depois de crises políticas e sociais, a dúvida é se esta será a última. A tal globalização não será nunca infinita, não irá além da capacidade de renovação da sociedade humana, mesmo a mais retrógrada e atrasada. Vejam os resultados de tal situação nos desastres financeiros e econômicos da Coréia e da Tailândia...



JCT – Viremos o disco. A Sexta Sinfonia de Tchaikowsky continua sendo a grande companheira daquele uísque de fim de tarde?

JHS – Sim! A vida, algumas vezes, como queria o poeta Júlio Salusse, não é manso lago azul, por isto, segue-se o conselho de Baudelaire num de seus “Pequenos Poemas em Prosa” – “embriagai-vos, de vinho, de poesia ou de virtudes e de música, eu acrescentaria, que pode ser também de Villa-Lobos..



JCT – E o tambaqui na brasa é um prazer ou desculpa para reunir amigos?

JHS – As duas coisas, num bom espaço campestre, como minha chácara do Bamburral, um bom vinho e o tambaqui ou pacu pescados no Pantanal, digeridos ao som de uma conversa tranqüila e despretensiosa, entremeada de anedotas que podem ser fesceninas...



JCT – Agora, a pergunta de sempre. Qual seu processo de criação? Quando e como nasce o poema?

JHS – De repente. Muitas vezes, ao despertar, nas insônias da madrugada, surge uma idéia, um simples verso, uma lembrança fugidia... A inspiração existe, que o diga a moderna e trepidante Hilda Hilst e os poetas antigos. O que é necessário, muitas vezes, é domá-la, burilá-la, como também se dizia outrora. Aquela pequena fagulha de inspiração, digamos, deve-se procurar transformar num fogaréu, trabalhando com arte, é claro, os nomes e os verbos, como diria Platão, o que nem sempre se consegue. As conquistas são árduas e “toda lua é atroz, todo sol é amargo”, dizia Artur Rimbaud, e concluamos ainda com este poeta francês: “Esta inspiração prova que sonhei”... estávamos sonhando, de madrugada, e corremos para a escrivaninha na tentativa, algumas vezes frustrada, de construir um poema. É assim que se sofre, ou às vezes, rimos e gozamos no consciente fazer literário...
 


Leia João Carlos Taveira


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Pedro Nunes Filho