Jornal de Poesia, editor Soares Feitosa

 

 

 

 

 

 

Wilson Martins

Contistas


6.12.2003

 

Em termos de literatura, escrever um conto não é contar uma história por escrito — é contá-la com estilo literário, ou seja, com elegância lingüística, verossimilhança, sábia estruturação no desenvolvimento da intriga, desenho convincente no caráter dos personagens e invenção de pormenores, tudo concorrendo para defini-lo como obra de arte literária. Também nessa arte tem validade a lei de economia segundo a qual a moeda má expulsa a boa: desanimado com a enxurrada de pseudocontos publicados por pseudocontistas, Mário de Andrade, em desespero de causa, declarou ser conto tudo o que os autores designam como conto — afirmação sarcástica cuja ironia passou larga e convenientemente despercebida, com este resultado inesperado e não menos irônico: passou a ser conto tudo o que se publicava como conto...

Caio Porfírio Carneiro resolveu o problema de maneira expeditiva: “Minha definição de conto é semelhante a de todos os que o estudam e o definem e dos que, desde antanho, o estudaram e definiram, ou seja: concordo com todos e discordo de todos, porque todas as definições são mais ou menos corretas e mais ou menos erradas. O conto é conto quando conto é. Acabou. Digo tudo e não digo nada. O mais é o mais” (“Maiores e menores”. Santo André, SP: Alpharrabio, 2003).

Ele esclarece que, tentando reduzir alguns dos vinte contos aqui reunidos, procurou “espichar” (palavra sua) outros tantos, tudo em vão: daí o título da coletânea. Na verdade, o seu talento natural ou fôlego narrativo combinam melhor com o miniconto, habitualmente em forma de diálogo: “Olhou em torno numa avaliação muda, suspirou: — Pelo que me lembro, a casa mudou muito. — Mudou. — Estive aqui antes da morte do meu avô. O senhor já estava viúvo. Faz mais de vinte anos. — Vai pra mais. — O tempo passa. — Passa. — O senhor se lembra de mim? Eu era pequeno. — Lembro”.

Claro, há trechos descritivos mais substanciais em contos maiores: “Caminhou, caminhou. Venceu estradas e veredas, o morto escorregadio, a mata fechada que lhe dilacerava a roupa, lanhava-lhe o rosto. Venceria toda a floresta, daria a volta ao mundo, se preciso fosse, pois já dera muitas sem norte por três desesperantes dias. Viu de longe. Lá estava a sua casa, que abandonara depois da afronta sofrida na própria alcova. O retorno fora o ímã mais forte para enfrentá-lo, talvez chegar ao crime, afastá-lo do caminho, e resgatar a meiguice conquistada com tanto amor e paixão”.

A arte literária de Aleilton Fonseca tem altos e baixos — mais baixos do que altos, digamos desde logo — tratando-se de autor que antes conta histórias do que escreve contos propriamente literários. No conjunto de narrativas inexpressivas e até de um capítulo de memórias (!), destaca-se o primeiro deles (“O canto de Alvorada”), interessante evocação do mundo todo particular dos criadores de galos de briga e seus apostadores: “O dia já clareava, com os avisos dos pássaros. A hora certa do canto de Alvorada. Era um belo galo, senhor absoluto da primeira hora da manhã. O nome era um batismo de fé num futuro de glórias. Alvorada, desde frangote, já dominava o terreiro: distribuía bicadas nas canelas dos galinhos que ousassem desafiá-lo. (...) Os gritos se chocavam: Veloz! Veloz! Alvorada! Alvorada! O galo de mestre Ambrósio cambaleou pela primeira vez, junto à borda almofadada da rinha. Mas seguiu lutando, aplicava os golpes de esporão, sem atingir o alvo em cheio. (...) O galo de Ambrósio cambaleou mais de uma vez (...) ...Alvorada soltou um cacarejo como um gemido de aflição, agitou as asas, riscou o chão e partiu instintivamente para cima do inimigo. (...) O golpe prostrou Veloz na rinha e este foi o último gesto de luta de Alvorada, que ambos tombaram lado a lado, com as cristas e os pescoços ensangüentados”.

A novela policial é, na verdade, um conto de grande extensão, sem complexidade narrativa e sem a constelação de personagens complementares, característica do romance. O bom “romance” policial, se o quisermos assim designar, é bom na exata medida em que é mais romance e menos policial; os demais resumem-se na confrontação do investigador com o crime, que, mesmo nos melhores, é uma fórmula estereotipada (para nada dizer das excentricidades de comportamento dos detetives, acrescentadas como condimento pitoresco). O criminoso, na maior parte dos casos, só aparece no desenlace, quando o mistério se esclarece e a história termina.

Desafiando as servidões das duas espécies, Marçal Aquino publica simultaneamente na mesma editora (Cosac & Naify, 2003) um livro de contos (“Famílias terrivelmente felizes”) e um romance de crimes (“Cabeça a prêmio”), este último nada acrescentando nem modificando as peripécias rotineiras dos filmes classe B. Contudo, sua técnica de contista é sensivelmente superior: “Meu tio morreu no hospício numa tarde de segunda. Conversando com seus fantasmas, a única coisa que aprendeu na vida. Nunca tomou uma coca-cola ou cantou no Municipal. Nem viu uma festa junina. Jamais teve patrão, é verdade. Morreu no hospício, gostando do macarrão com frango que serviam aos domingos”.

E, para quem morre de tédio com a ginástica sexual obrigatória nos filmes correntes, é refrescante a leitura de “Onze jantares”: “Ele e ela estavam deitados na cama há um bom tempo. Ambos vestidos e em silêncio. (...) Ela olhava para o teto do quarto. E ele, deitado de lado, olhava a janela. (...) ‘Se você ficar aí parado sem dizer nada, eu vou embora’, ela falou, sem tirar os olhos do teto. (...) Nosso encontro bem podia ter acontecido na sala de espera de um cinema, onde estaria sendo exibido um filme de Jarmusch. (...) Num concerto de jazz, numa academia de ginástica, num desfile de moda e mesmo no enterro de um deputado (...)”.

Nesse e em outros autores o conto anda reduzido a “cenas” pitorescas ou curiosas, sem chegar às “fatias de vida” outrora famosas justamente por serem mais do que isso.

 

 

 

 

 

 

 

13/11/2007