Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

João Batista de Oliveira Filho 

ilhamutuns@brturbo.com

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ruth, by Francesco Hayez

 

Bernini_Apollo_and_Daphne_detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rebecca at the Well

 

 

 

 

João Batista de Oliveira Filho


Comentário: “Corrós de açude”, “Estudos e catálogos”, “PSI, a penúltima”...

 

Desde menino, vejo e ouço coisas do tipo: “Cada doido com sua mania”. Me pergunto: - Cada mania num terá o seu próprio doido?... Histórias, cantorias, bonecos de barro, madeira, fibras vegetais... nascem no dia-a-dia nesse mundão de deuses. Uns respeitam esses ditos e criações do povo. Outros, nem tanto. Aqueles acolá vão além: dizem que esse “saber” é simplista, tosco.João Batista de Oliveira Filho E haja discriminação ao que não é erudito ou acadêmico, até ser “descoberto”, por quem? - por um erudito ou acadêmico que através de uma tese, desenvolvida após anos de estudos – é apresentada à sociedade culta numa roupagem, quanto mais complicada melhor! Quando vejo algo assim o que digo? - Tosca simplificação, compadre.

Sabe o que é o caboco sentir umas coisas esquisitas e perceber não se tratar de gripe, dor de barriga, reumatismo coisa e tal? E depois de muito matutar, chegar a duas quase-certezas: primeira - a dor é grande, pesada; segunda – não se trata de algo físico, não dá pra medir ou pesar! Por encabulecimento, ignorância, sei lá - às vezes o caboco cala, às vezes não. Um dia, pensando a respeito, tenta externar, através da palavra, o que o corrói por dentro, percebendo que as palavras conhecidas são insuficientes pra dar, sequer uma noção! Nessa luta entre o sentir e o não exprimir, compara, cria, perde o medo de ser tolo, solta-se ao vento que o leva aos braços da linguagem por construir. A dor que deveras sente, passa a ser do tamanho do mar e tão pesada quanto a serra vizinha. Mas por maior e mais pesada que seja, inda assim cabe no universo de uma lágrima - sem força pra escapulir do canto do olho e deslizar pela face do vivente. Ao utilizar tal linguagem, se sente parte desse processo criativo. Aí é difícil parar. Mesmo as coisas mais insignificantes do trabalho adquirem outras conotações, sequer imaginadas! E o que dizer das alegrias que pareciam tão pequenas, tão pobres: cantigas de roda, adivinhações, a vida... A vida?! Sim, a vida que chega e vai com as marés, com as estações seca e chuvosa. Sua vidinha, quem diria, passa a ser mais que um instante, nessa dimensão mágica: prenhe de encantos, surpresas, possibilidades, promessas...

Por que tudo isso? A questão é: gosto de matutar sobre as coisas. Principalmente benquerenças. E dessas, das preferidas – o versejar. Por falar nisso, dia desses, tomei conhecimento d’uns textos que primeiramente me deixaram encabulado. Alguns deles dispostos em forma de versos. Outros, em forma de prosa, mas prosa com música, ou seja, versos também. Por fim, topei com algo diferente. Me lembrou adivinhação. Quando parecia que eu ia entender, o sentido me escapava. Mas mesmo nesse tipo de texto, dava pra ouvir uma musiquinha zunindo nos ouvidos ao zanzar pelas linhas...

Com relação a “Da caixa postal aos corrós de açude: uma visita ao poeta Ascendino Leite”, não tive nenhum problema com entendimento. Até quando passei de banda da mensagem original do autor, honestamente, não senti falta. Foi uma viagem maravilhosa, com um toque de realismo fantástico (pitada de sal, que nenhum bolo de puba pode prescindir), onde o humor, as frases bem construídas não dispensaram a presença sutil da poesia em festa de casamento - da prosa ágil com a prosa densa -, onde o autor parecia não somente seguir ao encontro de um amigo, o poeta Ascendino, mas sim, fazer também uma viagem ao encontro de si, qual menino em busca de uma botija entupida de alfenins, mariolas, algodão-doce, espiquíngles (nada a ver com picles!).

Já que cê diz para não ter dó do seu lombo, confesso que em nenhum momento consigo sentir “Estudos e catálogos – mãos”, como prefácio de um livro, por melhor que seja, a não ser de autoria do próprio Soares Feitosa! Explico: nesse texto, um viajar mais prolongado, mais perspectivas, abordagens de assuntos múltiplos - percebo convergência para o mundo do prefaciador e não para a obra prefaciada de outro autor.

Até o momento em que escrevo esses comentários, dos textos de SF em prosa poética, é o que mais me encanta, inclusive por possibilitar a abertura de um número maior de portas e janelas, por onde reencontro pessoas, lugares, costumes, ofícios...

... Uma ferra de gado: uma novilha mal amarrada. No exato instante em que o ferro em brasa tocou num lado da novilha, o chiado do couro queimado, o esturro da rês, o grito de homem, o barulho do osso quebrado. Gado e homem marcados. O primeiro a fogo. O segundo a coice. A rês teve a marca esmaecida, com o tempo. A marca indelével em meu Avô, coxo pelo resto da vida (embora isso não o tenha impedido de voltar a montar a cavalo e a ferrar gado)... O barulho da faca sendo amolada, o choro do porco, a pancada na cabeça, o dobrar dos joelhos, o último grito, a facada certeira no coração, a vasilha aparando o sangue... Os bilros: balé das bordadeiras da minha terra... A divisão de ofícios por gêneros, não de importância, mas pela magia das mãos...

Psiu! Falta algo, não? Não, não esqueci de “PSI, a penúltima”. Cheguei, inclusive a mandar alguns versinhos, meio que brincando, dessa personagem ímpar da obra do poeta. O próprio SF, num e-mail, ao ler os versinhos, sugeriu: “... vá devagar com a Comadre!...” Tentando defender a cria, compadre? Tem jeito não: as crias não são nossas realmente. Podem até precisar de nós pra vir ao mundo, depois disso: pés, veredas, encruzilhadas, poeira ao longe.

Já vi coisa doida

Já li coisa batuta

Já vi coruja esperta

Mas nunca soube de história de raposa

Tão biruta

Já vi água vir de cima

Dos lados e até de baixo

Tromba d'água, força bruta

Mas nunca soube de história de raposa

Tão biruta

Cá pra nós, meu amigo

Sem as notas esclarecetórias

Padre, ao invés de vinho, benze cicuta

Mas nunca soube de história de raposa

Tão biruta

            É uma leitura densa. Sem as notas de esclarecimento, eu estaria num mato sem raposa, digo, sem cachorro. É mais que um texto difícil. É pra ser conquistado. (E ao escrever isso, me vem à memória outra raposa, a de Exupéry, quando diz ser necessário ritos, tempo – para que possa ser cativada). Li diversas vezes. Ora em voz baixa, ora em voz alta. Discuti a respeito com minha esposa. Fui estabelecendo laços com a narrativa, referências... Não foi amor à primeira vista. Sentimento que se consolida com o tempo. Amor maduro.

            Vez por outra, frutos dessas grotas, várzeas, caatingas, sertões... despontam uns cabocos, que por arte do destino, capricho da natureza, ou vontades de ferro, inda não bem compreendidas - trazem em si, igualmente marcas de ferro em brasa -, a mágica herança popular, acrescida da sabença dos bancos de escola. Mais difícil ainda pros entendidos classificar o resultado dessa mistura doida! É preciso “carma”, num ter avexame pra melhor apreciar o ofício desses poucos, que começaram a viagem muito lá pra trás, percorrendo antigas veredas conhecidas dos nativos, negros em fuga, quilombolas, tropeiros, menestréis... passando por não poucas chibatadas, que lhes enrijeceram ainda mais os lombos. Gente assim, do porte de João Cabral, Ariano Suassuna... e numa vereda próxima, desponta outro  caboco - é o Soares Feitosa -, acompanhando d’um cururu arteiro, distribuindo versos a mancheias. (batista filho/DF set/2004).

 


Sobre Joelhos & Mel 

Estando eu na Ilha dos Mutuns, delta parnaibano, sucedeu ir passar uns dias num povoado, Cal, que fica numa ilha vizinha, por nome Grande de Santa Isabel. Destino certo: a casa de minha madrinha, cujo pai, João, primo de minha mãe Dadinha, foi me buscar no lombo do Branco (que de branco não tinha nada), cavalo cinzento salpicado de manchinhas cor de carvão, mais bonito, até então, nunca visto. Entre uma ilha e outra, no trecho mais estreito, um igarapé, que bicho-gente transpunha por sobre uma ponte de dois paus e bicho-bicho, no caso, cavalo cinzento salpicado de manchinhas cor de carvão, arreios tirados, atravessou nadando. Arreado o danado outra vez, e num toca que chega, em meio ao areial e cajueiros sem conta, chegamos, por fim, quando a boca da noite engolia os últimos suspiros do sol. Depois do asseio, atendendo ao chamado de minha madrinha, fui jantar. Nesse ponto, tem sempre algum gaiato que pergunta: - E madrinha: tem nome não? – não, não tem. Madrinha é madrinha. Só! Bem, nem tanto: houve uma que atendia por nome, nome de flor, mais que flor, Rosa, sem jardim, sem igreja, só careceu duma fogueira e nós ao seu redor, repetindo três vezes: - “São João disse, São Pedro confirmou, serás minha madrinha (serás meu afilhado), porque São João disse... e São Pedro confirmou”. Vez por outra, quando lembro dos que se foram, inda me pego dizendo – “bença, madin’a Rosa”. Reatando o fio do novelo, digo do jantar (entre pessoas que não conhecia bem, com uma única exceção), em meio a tanta coisa que eu gostava: tapioca, macaxeira, cuscuz (de milho e de arroz), manteiga de nata, café, leite, queijo, requeijão... pra meu pesar, madrinha, logo ela! me perguntou se queria suco de murici... Fosse de manga, caju, bacuri, laranja, limão, cajazinha, ah, como eu teria gostado! Mas de murici, que sempre detestei?! Inda não tinha aprendido a dizer “não”. E me vi naquela enrascada: um copão de alumínio, dos grandes, acima do meio de desgosto, bem à minha frente. Encabulado, via um tantão de coisa boa: tapioca, macaxeira, cuscuz (de milho e de arroz), manteiga de nata, café, leite, queijo, requeijão, farinha de puba... Farinha de puba! Envergonhado, sem saber o que fazer, disse que gostava mesmo era de farinha de puba no suco. Coloquei uma colherada, mais outra, mexi, mexi... E a farinha foi inchando, inchando... À proporção que aquela gororoba inchava, qual maré enchente, que primeiro lambe a parte mais baixa dos barrancos, retrocede um pouquinho, e avança mais e mais, até preencher por completo o leito dos igarapés e rio – as lágrimas dentro de mim se avolumavam. D’um olho, o primeiro pingo no copão de alumínio. Mais outro. Outros mais. Maré cheia. Minha madrinha e a parentada, aflitas, indagavam o porquê de tanto choro. Só consegui falar - “Mamãe, mamãe, quero mamãe!” Minha mãe não tive naquela noite não, porém, João me prometeu e cumpriu: dia seguinte, o sol bocejando, seguimos de volta pro aconchego de mamãe, na Ilha dos Mutuns. Faz tempo: anos!... mais de quarenta.

Soares Feitosa, mel de engenho com farinha, gosto demais! Sempre gostei de mel, melado, no tacho, antes de dar o ponto da rapadura, com um pedaço de cana, previamente raspado, molhar naquela mistura, e quando conseguíamos pegar com nossas mãos de criança, puxa que puxa, puxa-puxa, que delícia!

...

Bem, depois de ler “Joelhos & Mel” uma cacetada de vezes, digo: gostei. Gosto de mel, melado, no tacho... muito embora, depois de muito escarafunchar - puxa-puxei mais dúvidas que certezas!... sabe como é... maré enchente... “Mamãe, cadê você?”

 

 

 

 

Mary Wollstonecraft, by John Opie, 1797

Início desta página

Luciano Maia