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Carlos Newton Júnior


 

Uma heráldica de rudes brasões

 

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

 

Silvana TarelhoEm 1970, no texto-manifesto que lançou oficialmente o Movimento Armorial, Ariano Suassuna chamava a atenção para a existência, no Brasil, de uma rica heráldica, presente desde os ferros de marcar bois do sertão nordestino aos emblemas dos clubes de futebol das nossas cidades grandes, passando pelas bandeiras das cavalhadas, os estandartes dos maracatus, dos caboclinhos ou das escolas de samba. A ligação com essa heráldica seria um dos pontos de partida para a realização de uma arte nova, erudita e de caráter brasileiro – a arte armorial.

No caso específico dos ferros, Suassuna endossava e levava àReprodução frente idéia anterior de Gustavo Barroso. De fato, anos antes, o grande escritor cearense já havia constatado, na tradição sertaneja de criar ferros novos a partir das diferenças que os filhos acrescentavam aos ferros dos pais, do apego a uma mesa familiar, a existência de uma verdadeira heráldica. Uma heráldica adquirida não por mercês dos poderosos, mas forjada na luta diária do sertanejo com a Fera-sangradora que é o mundo. Dos ferros às insígnias dos diversos tipos de agremiações festivas, a heráldica, em nosso país, apresenta-se como uma Arte essencialmente popular, e não burguesa, como diria mais tarde Suassuna.

Se Ariano não foi o primeiro a escrever sobre os ferros, foi o primeiro a dar importância tal ao assunto que para ele dedicou um livro inteiro: Ferros do Cariri: Uma Heráldica Sertaneja (Recife: Guariba, 1974). Na condição de sertanejo, os ferros o fascinavam desde menino. Primeiro, como elemento de fidelidade familiar. Depois, na fase adulta, como assunto artístico, através da influência dos amigos Fernando José da Rocha Cavalcanti e Aloísio Magalhães, que conhecera na Faculdade de Direito do Recife.

O livro de Suassuna, escrito a primor, revelando a mestria de quem já criara obras como Auto da Compadecida e Romance d’A Pedra do Reino, além de introduzir o leitor no universo dos ferros (levantando considerações, ainda, sobre os sinais de corte nas orelhas do gado, usados atualmente apenas nas miunças – ovelhas, cabras e porcos), registra o quanto as marcas de ferrar podem servir de Fonte-do-Cavalo para diversos trabalhos no campo das Artes Plásticas. Do mesmo modo que ferros novos surgem a partir das diferenças apostas a um ferro anterior, os artistas poderiam se basear no rico acervo de desenhos e sinais enigmáticos dos ferros para criar novas formas, no campo da Gravura, da Pintura e das Artes Gráficas, de uma maneira geral. Estariam assim, provavelmente, vinculando-se a uma herança anterior à chegada dos europeus, já que as origens de alguns desses sinais podem muito bem estar associadas às insígnias que os nossos mais remotos antepassados pintaram e insculpiram, nas itaquatiaras que os sertanejos vão encontrar tempos depois, Sertão adentro.

O livro em si, enquanto objeto ligado às Artes Gráficas, é já uma medida do que se pode obter a partir dos ferros, nesse campo. Não se trata de um livro convencional, e sim de um álbum, veiculado numa caixa forrada com tecido, um verdadeiro livro-de-arte, no qual os ferros encontram-se presentes do início ao fim, da capa ao miolo, das bordas das folhas à subdivisão do texto – para a qual Suassuna utiliza o alfabeto sertanejo, por ele estabelecido a partir dos ferros pesquisados no livro-diário de um seu parente do século XIX, que tinha o costume de desenhar os ferros de cada boi que comprava. A capa é marcada com o ferro dos Suassunas, ferro do bisavô paterno de Ariano, usado depois por seu avô e seu pai, sem nenhuma diferenciação.

Ariano já declarou, em diversas oportunidades, que não se considera um crítico literário nem um pesquisador da Cultura brasileira, mas um escritor apaixonado por diversos assuntos, sobretudo aqueles ligados à nossa Cultura popular. Seja como for, sua intuição de Poeta de gênio faz com que ele, muitas vezes, termine agindo como mestre e precursor também no campo da pesquisa. No caso específico dos ferros, seguindo a sua trilha, dois outros escritores vão escrever livros sobre o assunto, um do Rio Grande do Norte e um do Ceará. Dez anos após o lançamento de Ferros do Cariri, Oswaldo Lamartine de Faria lança Ferro de Ribeiras do Rio Grande do Norte (Mossoró: Coleção Mossoroense, 1984); e, em 1992, Virgílio Maia publica o seu Álbum de Iniciação à Heráldica das Marcas de Ferrar Gado, livro que chega, agora, a uma já mais que merecida segunda edição.

Oswaldo Lamartine é um reconhecido pesquisador das coisas do Sertão, principalmente as do Sertão do Seridó, no Rio Grande do Norte, sobre as quais já escreveu diversos livros e um importante dicionário – o Vocabulário do Criatório Norte-Rio-Grandense, em co-autoria com Guilherme de Azevedo. Nessa condição, Oswaldo amplia o leque de informações sobre a heráldica dos ferros, acrescentando importantes dados históricos sobre a tradição de ferrar, dos antigos egípcios aos dias de hoje – inclusive com considerações sobre a ignominiosa ferra de seres humanos, no decorrer do tempo. Seu trabalho é concluído com o registro dos ferros de quarenta ribeiras do Rio Grande do Norte, usando como marco temporal o ano de 1930, a conselho do grande Luís da Câmara Cascudo.

Virgílio Maia, por sua vez, como autêntico discípulo de Ariano e Oswaldo, desenvolve ainda mais o assunto dos ferros. Partindo dos dois livros anteriores e de vasto referencial bibliográfico, aprofunda ainda mais as informações, fazendo do seu livro o mais extenso ensaio até hoje escrito sobre o tema. Do ponto de vista do livro-objeto, seu trabalho aproxima-se de Ferros do Cariri na intenção do álbum – como aliás o próprio título quer indicar. Do ponto de vista do texto, sua exposição assemelha-se à de Oswaldo em alguns aspectos fundamentais: partindo de considerações históricas sobre a tradição de ferrar, desde o Mundo Antigo, chega a explicações minuciosas sobre a atuação das diferenças na composição de novos ferros, no Brasil de hoje. Virgílio amplia, ainda, as considerações sobre a ferra em seres humanos, a ponto de compor um capítulo inteiro do seu livro.

Como se não bastasse, o autor conseguiu levantar, através de muitas viagens e de muitos amigos, as marcas das freguesias de todos os atuais 184 municípios do Estado do Ceará. Cada uma delas é apresentada no álbum, com a devida explicação sobre seu significado – quando a explicação existe, pois, como qualquer outra Arte, a heráldica dos ferros também tem os seus mistérios.

E o que é melhor: uma pesquisa de tanto fôlego é registrada de maneira extremamente acessível. Um verdadeiro álbum de iniciação. Como Suassuna e Oswaldo, Virgílio escreve ensaio magnífico, sem pedantismo ou qualquer ranço acadêmico. Seu texto mais parece conversa de beira-de-estrada, de alpendre ou de range-rede, na qual uma série de ensinamentos são transmitidos de forma ligeira, leve e agradável. Estreando na Literatura com o livro de sonetos Palimpsesto, em 1992 - o mesmo ano do seu álbum sobre os ferros –, já então o autor mostrava a que veio. Publicou depois Os Quatro Elementos (em co-autoria com Francisco Carvalho, Luciano Maia e Jorge Tufic), Via Sacra Sertaneja (com belas ilustrações de Audifax Rios) e muitos outros escritos. Advogado, poeta e ensaísta, Virgílio divide seu tempo entre leis, cordéis, poemas e letras de música. Até bem pouco tempo, realizou um importantíssimo trabalho à frente do jornal O Pão e do Colégio Nordestino de Heráldica Sertaneja, entidade por ele mesmo fundada e que demonstra bem seu apego por tudo que é Sertão.

Ariano, Oswaldo e Virgílio, sertanejos de nascimento e de coração, são todos conscientes do valor artístico dos ferros de marcar gado. Ariano, que além de escritor é artista plástico, chegou a assinar muitos dos seus trabalhos – tapetes, pinturas e gravuras – não com a caligrafia tradicional, mas com o seu ferro, atitude que foi seguida por vários artistas ligados ao Movimento Armorial. No Ceará, o mesmo vem sendo feito pelo pintor e desenhista Audifax Rios, como, aliás, bem demonstra Virgílio, no seu livro. De modo que, se os livros de Ariano e Virgílio, valendo-se dos desenhos dos ferros, apresentam melhores resultados gráficos, o de Oswaldo, que não quer ser livro-de-arte, não se esquiva de estampar, na capa, alguns desses desenhos, talvez por sugestão do autor ao editor. Além disso, o livro de Oswaldo apresenta, entre as suas ilustrações, a reprodução de um belo tapete de sua autoria, baseado em marcas de ferrar e motivos de inscrições rupestres nordestinas.

Para finalizar, lembro que a riqueza plástica dos ferros já foi reconhecida até mesmo por pessoas a quem, diante das marcas, seria natural a sensação do feio por estranhamento. Em Os Sertões, Euclydes da Cunha se refere aos ferros como ´desenhos caprichosos´. Ninguém tão insuspeito. Isto porque a formação urbana e positivista de Euclydes quase sempre o impedia de enxergar a beleza do tosco e do impolido, à qual Mathias Aires se referia em suas Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens (1752). Maior exemplo disso talvez seja a descrição, ainda em Os Sertões, da Igreja Nova de Canudos:

Delineara-a o próprio Conselheiro. Velho arquiteto de igrejas, requintara no monumento que lhe cerraria a carreira. Levantava, volvida para o levante, aquela fachada estupenda, sem módulos, sem proporções, sem regras; de estilo indecifrável; mascarada de frisos grosseiros e volutas impossíveis cabriolando num delírio de curvas incorretas; rasgada de ogivas horrorosas, esburacada de troneiras; informe e brutal, feito a testada de um hipogeu desenterrado; como se tentasse objetivar, a pedra e cal, a própria desordem do espírito delirante.

Como se vê, é mesmo tirano o império da Beleza. Se nada restou do templo de Antônio Conselheiro, essas palavras de Euclydes bastam para comprovar o quanto sua arquitetura era magnífica e surpreendente. A beleza estranha e solar que Euclydes não entendia pela razão, mas sentia com o sangue, e que o encandeava, deixando-o perturbado, fazia ele se contradizer, inspirando uma descrição tão desconcertante e forte. Euclydes não se dava conta, mas sua conversão já estava a caminho.
 

Virgílio Maia

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