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Alphonsus de Guimaraens Filho

Mariana, MG, 3.6.1918 — RJ, RJ, 28.8.2008

Poussin, Venus Presenting  Arms to Aeneas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


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Bernini_The_Rape_of_Proserpina_detail

 

Bernini, Apollo and Dafne, detail

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Alphonsus de Guimaraens Filho


 

Bio-Bibliografia

 


Formou-se bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, em Belo Horizonte, em 1940. No mesmo ano foi publicado seu primeiro livro de poesia, Lume de Estrelas, pelo qual recebeu o Prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha e Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. Na época, trabalhava na Rádio Inconfidência, serviço de Rádio-Difusão do Estado. Em 1946 publicou Poesias; seguiram-se A Cidade do Sul (1948), Poemas Reunidos, 1935/1960 (1960), Antologia Poética (1963). Em 1962 foi eleito membro da Academia Marianense de Letras. Em 1974, conquistou o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, pelo livro Absurda Fábula (1973). Em 1985, ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Nó (1984). A obra de Alphonsus de Guimaraens Filho é situada pela crítica como integrante da terceira geração do Modernismo.


NASCIMENTO

1918 - Mariana MG - 3 de junho

LOCAIS DE VIDA/VIAGENS

1918/1923 - Mariana MG
1923/1955 - Belo Horizonte MG
1955/1961 - Rio de Janeiro RJ
1961/1972 - Brasília DF
1972 - Rio de Janeiro RJ


VIDA FAMILIAR

Filiação: Alphonsus de Guimaraens, poeta, e Zenaide Silvina de Guimaraens
1921 - Mariana MG - 15 de julho morte do pai
1943 - Rio de Janeiro RJ - Casamento com Hymirene de Souza Papi
1944 - Belo Horizonte MG - Morte do irmão João Alphonsus, escritor
1944 - Belo Horizonte MG - Nascimento do filho João Henriques
1948 - Belo Horizonte MG - Nascimento do filho Luiz Alphonsus, pintor
1953 - Belo Horizonte MG - Nascimento da filha Dinah Tereza


FORMAÇÃO

1926/1929 - Belo Horizonte MG - Curso primário no Grupo Escolar Barão do Rio Branco
1930/1934 - Belo Horizonte MG - Curso ginasial no Ginásio Mineiro
1936/1940 - Belo Horizonte MG - Curso de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais


ATIVIDADES LITERÁRIAS/CULTURAIS

1937/1946 - Belo Horizonte MG - Trabalho na Rádio Inconfidência (Serviço de Rádio-Difusão do Estado)
1940 - Belo Horizonte MG - Publicação de Lume de Estrelas, primeiro livro de poesia
1941 - Belo Horizonte MG - Reingressa no jornalismo no jornal católico O Diário
1955/1974 - Organizador de antologias de poetas como Antero de Quental, Alphonsus de Guimaraens, Augusto Frederico Schmidt e Gonçalves Dias


HOMENAGENS/TÍTULOS/PRÊMIOS

1941 - Rio de Janeiro RJ - Prêmio de Literatura da Fundação Graça Aranha e Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras, pelo livro Lume de Estrelas
1951 - Prêmio Manuel Bandeira, pelo livro O Irmão, concedido pelo Jornal de Letras
1953 - Belo Horizonte MG - Prêmio de Poesia Cidade de Belo Horizonte, pelo livro O Mito e o Criador, concedido pela Prefeitura
1962 - Mariana MG - Eleito membro da Academia Marianense de Letras
1974 - Rio de Janeiro RJ - Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, pelo livro Absurda Fábula, concedido pelo Pen Clube do Brasil
1976 - Rio de Janeiro RJ - Decreto denominando Lume de Estrelas uma rua no bairro do Méier
1985 - São Paulo SP - Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro Nó, concedido pela Câmara Brasileira do Livro


MOVIMENTOS LITERÁRIOS

1945/1962 - Modernismo (Terceira Geração)


FONTES DE PESQUISA

ANDRADE, Mário de. A volta do condor. In: ______. Aspectos da literatura brasileira. 5. ed. São Paulo: Martins, 1974. p. 141-184.
______; BANDEIRA, Manuel. Itinerários: cartas a Alphonsus de Guimaraens Filho. São Paulo: Duas Cidades, 1974.
BANDEIRA, Manuel. "A Alphonsus de Guimaraens Filho". In: ______. Lira dos cinquent´anos. In: ______. Poesia completa e prosa. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1990. p. 266-267.
______; AYALA, Walmir. Antologia dos poetas brasileiros: fase moderna: depois do modernismo. Rio de Janeiro: Ed. de Ouro, 1967. p. 45-49.
GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Água do tempo: poemas escolhidos e versos inéditos. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. (Manancial, 61).
LOANDA, Fernando Ferreira. Alphonsus de Guimaraens Filho. In: ______. Panorama da nova poesia brasileira. Rio de Janeiro: Orfeu, 1951. p. 67-75.
PIMENTEL, Cyro. Alphonsus de Guimaraens Filho. In: CAMPOS, Milton de Godoy. Antologia poética da Geração de 45: 1a. série. São Paulo: Clube de Poesia, 1966. p. 62-64.
 

[Fonte: Itaú Cultural]
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Judgment of Solomon

 

 

 

 

 

Alphonsus de Guimaraens Filho



Ária ao violão


Que sonâmbula campânula
embala o íncola na ínsula
campanulando?

Cantagalo cantagálico
no áulico tez gaulesa
cantagalando.

Só, na sombra solitária
estrelinha latejante
é chama, é flor, e madruga
num rio que ri ou geme,
campanulando.

Sobre a memória madura
a cálida, a alva aurora
desce doce se incorpando,
campanulando.


in Antologia Poética de Alphonsus Guimarães Filho, Ed. do Autor, 2ª ed., Brasília, 1963

 

 

 

Crepúsculo, William Bouguereau (French, 1825-1905)

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Manoel de Barros

 

 

 

 

 

 

 

 

Tintoretto, Criação dos animais

 

 

 

 

 

Alphonsus de Guimaraens Filho



Boca temporã


A boca temporã, nessa risada
matinal, descuidosa, a linda boca
fresca de céu, perdidamente louca
pelo desejo apenas esmagada...

Nela respira ingênua madrugada,
a carne azul dos campos mal dormidos,
rios, aguadas, vila despertada
pelos ventos do alto, comovidos...

Nessa boca que aos poucos madurando
se oferece na árvore travessa,
vejo dormir as frutas assustadas,

as frutas sumarentas despontando.
Agasalhar no colo essa cabeça,
depois sair sonhando nas estradas.


in Antologia Poética de Alphonsus Guimarães Filho, Ed. do Autor, 2ª ed., Brasília, 1963

 

 

 

Inocência, foto de Marcus Prado

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Nelly Novaes Coelho

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

Alphonsus de Guimaraens Filho



O Poeta e o Poema


Nenhum poema se faz de matéria abstrata.
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.

Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e seqüelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio... Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.

(...)

Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.


Do livro

 

 

 

Psi, a penúltima

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Elizabeth Marinheiro

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

 

 

 

 

 

Alphonsus de Guimaraens Filho



Quando eu disser adeus...


Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao menos na fadiga

da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um "até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.

Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer

de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.

 

 

 

 

Ticiano, Magdalena

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albano Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Picador

 

 

 

 

 

Alphonsus de Guimaraens Filho



Seqüência


Os bois mugem para a grande
solidão que os agasalha.
(Os homens acham na paz
do campo a paz que apunhala.)

Os cães uivam para a lua
um uivo fino e ofegante.
(Os homens padecem a lua
e a dor em canto se expande.)

Os gatos choram na noite
como em fundo sofrimento.
(os homens padecem a noite
uma outra noite antevendo.)

As traças devoram a vida,
papirófagos sem pressa.
(os homens se dão aos livros
e a vida, como lhes pesa!)

Os ratos pelos armários
deixam apenas fragmentos.
(Os homens se dilaceram,
as próprias cinzas temendo.)

E a vida só se asserena,
se atenua, se aquieta,
quando num rosto cansado
sombra, apenas, se dispersa.


in O Tecelão do Assombro, Ed. 7 Letras

 

 

 

Rubens_Peter_Paul_Head_and_right_hand_of_a_woman

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Artur Eduardo Benevides

 

 

 

 

 

 

 

 

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

 

 

 

 

 

Alphonsus de Guimaraens Filho



Canto de Natal


A Criança que dorme
é tua e também minha.
Junto dela a grande noite
se apaga, e se avizinha

a madrugada santa,
com seus rumores castos...
E a Criança repousa,
e a Criança se esquece,

enquanto que no espaço
e no tempo se tece
a coroa de espinhos,
como um luar de sangue
sobre os altos caminhos.


In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. Poema integrante da série O Unigênito, 1946/1947.
 

 

 

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

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Thiago de Mello

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

 

 

 

 

 

Alphonsus de Guimaraens Filho



Rota do Desconhecido


Quando eu seguir na rota do desconhecido
a minha voz ficará cantando na tua memória
e tua alma sentirá a presença
do meu sonho em teu sonho,
do meu riso de perdão à miséria do mundo.
Então, Amada, canta!
A noite se embalará com as canções marinhas
subindo, diretas, do teu coração.
Tua alma será, então uma praia branca,
onde cantarão os pescadores tristes:
os teus sonhos de amor abraçados ao desânimo...
Eu irei longe... Minha memória errará nas estrelas
e minha alma será o vento que acarinha plantas,
que acarinha flores sonolentas.

Eu irei longe, eu irei tão longe,
que meu coração vencerá distâncias
para ouvir tuas canções praieiras,
amada, grande Amada,
e minha alma será o céu pontilhado de estrelas
que há de fazer adormecer tua saudade!


Publicado no livro Lume de estrelas: poemas (1940).

In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 27-28
 

 

 

 

Ticiano, O amor sagrafo e o profano, detalhe

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Nei Duclós

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

 

 

 

 

 

Alphonsus de Guimaraens Filho



A Todos os Poetas


A todos vós que um dia pressentistes
os passos alumbrados da poesia
na vossa alma soar — saudoso dia
que mais humanos, graves, e mais tristes

para sempre vos fez... A todos vós
que, amando, o amor sentistes impossível,
que, vendo o mundo, amastes o invisível,
e, ouvindo o canto, ouvistes nele a voz

de um reino imerso em névoa como clara
ilha na solidão... E deslumbrados
as palavras no vácuo erguestes para

reanimá-las e reacendê-las,
a todos vós o céu acolhe, consolados
pela luz da mais casta entre as estrelas.


Publicado no livro Sonetos com dedicatória (1956).

In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 270-271.
 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), The Pipelighter

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Francisco Brennand

 

 

 

 

 

 

 

 

Jacques-Louis David (França, 1748-1825), A morte de Sócrates

 

 

 

 

 

Alphonsus de Guimaraens Filho



Deitas teu corpo em flor



DEITAS TEU CORPO em flor no campo claro
e toda ao sol te entregas, matinal.
Um perfume de luz se espalha qual
puro delírio, canto esquivo e raro.

Sorver o aroma, recolher o puro
estremecer de flor, ó pólen, ó mel
que irrompendo de tudo vibra em céu
de água a cair das coisas num futuro

instante de fantástica beleza
e de beijo e de afago e de um supremo
arfar de chama em límpida penugem.

Deitas teu corpo em flor, e a natureza
Funde-se em ti no alto silêncio extremo
de volúpia desfeita em brisa e nuvem.



Livro: Todos os Sonetos, Alphonsus de Guimarães Filho, Rio de Janeiro, Edições Galo Branco, 1996.
 

Remetido por Maria de Fatima Moraes

 

 

 

William Blake, Death on a Pale Horse

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Alphonsus de Guimaraens Filho




Olhas o amanhecer


Olhas o amanhecer,
vives o amanhecer como o único instante
em que o céu é entreaberto segredo de um deus mudo.

Espera: algo vai se revelar e deves estar pronto
para mergulhar teu sonho num poço de luz casta.

O intocado te espera. E amanhece. E te iluminas
como se trincasses com os dentes a polpa do absoluto.


Livro: Luz de Agora, Editora Cátedra, Rio de janeiro, 1991.
 

Remetido por Maria de Fatima Moraes


 

 

 

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Cecília Quadros

 

 

   11/04/2006