Jornal de Poesia, editor Soares Feitosa

 

 
Talvez outro salmo

Soares Feitosa

 

 
Não poderás ver a minha face, porque o homem
     não pode ver-me e continuar vivendo
                (Êxodo, 33, 20)

 

Lado 1 

Bem-aventurados os mansos, 
porque herdarão a terra. 
 

“Mais um pouco e não haverá mais ímpio, 
buscarás seu lugar e não existirá; 
mas os pobres vão possuir a terra 
e deleitar-se com a paz abundante.” 
 

Falou o salmista, em 37, 11, 
falou contra os valentes,  
e agora o Cristo 
glorifica os mansos: 
eis a banda um 
[porque eu sempre tenho razão], 
em repetência: ira.
 
 


 

Lado 2 

Bem-aventurados os pobres de espírito, 
porque deles é o reino dos céus. 
 

Ricos de espírito, os mal-aventurados 

—a quem se destinaria o anátema? 
 

Talvez, dos orgulhos todos, 
o mais grave seja o de “espírito”, 
pois o de "corpo" é 
um mero trejeito, uma roupa mais nova, 
um penteado ligeiro: 
inofensivo. 
 

Enquanto o "outro orgulho", 
cavalgando olhar e queixo, 
é de lá que ele viaja,  
como se fora uma névoa 
sobre o espírito;  
o verbo, 
que somente o verbo é brasa pura 
disparada contra os Teus pequenos, Senhor 
[porque eu sou melhor e mais caridoso]. 
  
Lado dois do eneagrama, com certeza: 
o traço matriz, 
Soberba! 


 

Lado 3 

Bem-aventurados os puros de coração, 
porque verão a Deus. 

Quem se poderá dizer, de mãos inocentes 
e de coração puro, 
que jamais se entregou à falsidade, 
nem fez juramentos de engodo? 
 

Exigências do salmista (24, 3), 
para deixar  
de falsear 

[o sucesso a qualquer custo], 

e fugir, sem contar as pedras, 
do vício da banda três, 
a Mentira. 


 

Lado 4 

Bem-aventurados os que são perseguidos  
por causa de justiça, 
porque deles é o Reino dos Céus. 
 

Por que só acontecem com os meus 
essas perseguições, 
que meu vizinho, livre e lesto, 
contempla despreocupado o horizonte?! 
 

A trave, 
a velha trave de olho e argueiro,  
o olho e o olhar, 
o olhar em torno quando, 
insatisfeito com o geral, 
me fico, 
da banda quatro, 
e me amofino 
[porque eu sou diferente dessa gente] 
esquecido e travejado: 
                                  Inveja. 


 

Lado 5 
  
Bem-aventurados sois,  
quando vos injuriarem 
e vos perseguirem,  
disserem todo o mal contra vós 
por causa de mim. 
 

Se me injuriam e nada digo, 
se me perseguem e não fujo, 
se me prendem e me entrego, 
é quase certo,  
as recusas sejam  
uma redução, 
e por trás daquela fuga, 
daquele esconderijo de silêncio, 
e de muitas renúncias 
[porque eu percebo, recebi pouco] 
não sejam renúncias, 
o pecado seja, 
da banda cinco, bem miúda, 
                                          a Avareza.  


 

Lado 6 

Bem-aventurados os aflitos, 
porque eles serão consolados. 
 

Tenho medo, Senhor, espero 
no Teu ombro o meu consolo; 
que muitos dos meus amares são um puro trêmulo, 
trêmulos... 
e quando deixo de fazer, 
não é que tenha deixado de amar, 
que não amava...  
eram os trêmulos: 
foi pelo pecado, que me consumi, Senhor  
[nunca pude confiar...e se...] 
e de banda seis  
eu cavalguei  
                 o Medo. 


 

Lado 7 
  

Bem-aventurados os misericordiosos, 
porque alcançarão misericórdia. 
  

De que misericórdia fala o evangelista? 

Estaria ele falando daqueles  
que chegam para dar, 
bem diferentes de quando 
cheguei para tomar 
e tomei, 
com toda a ânsia, e tomei, 
comi e comi; bebi e bebi; gritei e gritei: 
pecado raiz 
[não posso sofrer], 
qu’eu sempre quis mais, 
de jamais chegar:  
              a Gula. 


 

Lado 8 

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, 
porque serão saciados. 
 

Como aplacar minhas revoltas? 

— Justiceiro eu sou! 

E a minha fronte 
deJustiça me tem levado 
a tomar pressas, 
pesar na minha balança, 
de uma justiça 
minha, a minha justiça, 
porque minhas mãos são puras, 
e posso passar, que sempre passei 
por cima 
deles, 
de mim 
e dos meus: 
pecado matriz, 
eu mesmo, 
quando invadi 
e não houve argumento: 
[sou forte],

de número 8, 
            a Luxúria. 


 

Lado 9 

Bem-aventurados os que promovem a paz, 
porque serão chamados filhos de Deus. 

A paz conciliada é a essência 
da serenidade, 
que muitas vezes a pecaminosa serenidade, 
do quando “deixei pra lá”, 
do quando “depois eu vejo”, 
que me afundei 
[porque eu estou satisfeito, assim está bom], 
na banda nove: 
                    sem qual pressa: Preguiça.  


 

II - Um Círculo 
 

 De todas as bandas, na volta completa, 
 de um místico 9 
 (a morte, impossível vê-Lo), 
 certamente algum Caminho... 
 de assombrar, esse Mateus, 
 Pier Paolo Pasolini e as parábolas, 
 e ele, Mateus, ainda diz que a porta é estreita..., 
 
 é estreitíssima... deve ser! 


III - Mateus

Dito Mateus, ele mesmo, 
onde Lucas copydescou, 
copiou mal, como também na “dos talentos”, 
embora o mesmo Lucas inexcedível em Lázaro, 
—— manda molhar, pai Abrahão, a ponta do dedo 
e Lázaro 
me refrescará a língua tórrida 
dentro deste caudal 
relâmpago. 


IV - Lucas

Noutro passo, agora é Lucas, 
e os cânticos, Magnificat, anima mea dominum, 
que também Nunc dimitis, agora, soberano Senhor, 
me dê minhas contas, baixe minha carteira, 
quando a mulher, pois havia uma profetisa, chamada Ana, 
de idade avançada, filha de Fanuel, 
e ela, a mulher, falava de um Menino a todos, 
esperado deles. 
 

Esperado... 
 

espe..........................................................rar 
talvez um verbo, nos caminhos de spes, spei 
de esperança...........................ou de uma deusa romana 
irmã do Sono, 
ela muito jovem e coroada de flores, 
risonha...?! 
 

Por certo, risonha! 
 

Spes, spei, 
esperar, 
em todos os modos, 
para todos os tempos...  


V - Final

Assombra que tais sujeitos, 
alguns, pescadores, que nunca citam Platão 
nem Virgílio, 
e pescam 
(mas estão carregados de Platão e de Virgílio) 
e continuam pescando, 
saibam tanto, 
à permanência do fardo de pescar: 
 
 

Como podem saber tanto, 
de nunca escreverem uma única linha em linha reta? 

 

                        Porque é da Tua boca, Senhor, 

            e para os Teus ouvidos 
que a boca deles fala. 

 
 
 
 

Salvador, manhã muito clara, 5.10.96 

 


 

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Francisco Carvalho

Francisco Carvalho

Salmo 151, Femina, Uma Canção Distante, Thiago e Talvez Outro Salmo — verifico que seu tônus poético continua altíssimo.

O belo poema Femina, que já li tantas vezes tem a beleza e o fascínio de um canto salomônico.

O poema Thiago é uma celebração, em grande estilo, do velho bardo amazônico, mas também empreende uma viagem lírica pelas terras do velho e ensolarado Ceará, com Gerardo Mello Mourão de permeio.

O Salmo 151, com fortes ressonâncias bíblicas, me agrada plenamente.

Talvez Outro Salmo mostra, entre tantas coisas, "que somente o verbo é brasa pura, disparada contra os teus pequenos, Senhor"

 

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Herberto Sales

Herberto Sales

 

Soares Feitosa

 

Talvez Outro Salmo é belo em suas origens e engenhoso em sua feitura. Onde está a sua palavra, aí está a Poesia.

 

Herbert Sales

 

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Sinésio Cabral


Meu caro Soares

Tive a satisfação de receber Talvez Outro Salmo. Considero simplesmente encantador e surpreendente este desfecho do saber
eterno: 
                     

                        “Como podem saber tanto 
                        de nunca escreverem uma única linha em linha reta? 

                        Porque é da Tua boca, Senhor, 
                        e para os Teus ouvidos 
                        que a boca deles fala”
 

Tudo tão paradoxalmente simples e original! E passei alguns momento embevecido com a magia estonteante da singularidade dos versos de Uma canção distantee tão dentro da alma da gente!

Sinésio Cabral

 

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 Andreas Achenbach, Dom Quixote e Sancho Pança, 1850