Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Sinésio Cabral

 

Várzea Alegre, CE, 22.5.1915 - Fortaleza, CE — Fortaleza, 10.5.2012

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ticiano, Salomé

 

Michelangelo, 1475-1564, David, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sinésio Cabral



Nota do Editor:


Tenho quase certeza de que foi pelas mãos do César Coelho, meu velho e pranteado companheiro de jornal, que cheguei ao poeta Sinésio Cabral. Não, eu não era do ramo de literaturas. Conhecia o César, de muitos anos, éramos bem jovens, eu sequer completara os 18 e já trabalhávamos na extinta Gazeta de Notícias — Dorian Sampaio, Tarcísio Holanda e outras figuras muito gratas. César, ele sim, sempre fora do trecho: poeta, trovador, letrista e cronista de mão cheia.

Deixei bem cedo a atividade do jornal em busca de outros empregos (Banco do Brasil e Fiscal do Consumo), em vista do que perdi contacto com o César. Passados quase 30 anos, inesperadamente acometido do mal da poesia, surgiu-me a necessidade do diálogo: a quem mostrar? Procurei então aquele velho amigo que sempre morou nas letras. O fato é que mal terminava de chegar aqui (Fortaleza, vindo da cidade da Bahia, onde cumpria um resto de tempo para aposentadoria de 35 anos batidos de serviço), uma das primeiras coisas era mandar buscar o César Coelho para passar o dia aqui em casa. Um peixe no caldo grande, ele era doido por peixes... muito refresco, queijo de coalho, mel de engenho, rapaduras e alfenins; farinha de pipoca, carne assada, sorvetes, doces, bolos e tapiocas. E, bons glutões, eu e ele, comíamos esgalamidos (e gargalhávamos da nossa poesia) como meninos instalados em plena seca.

Por suas mãos, cheguei ao Alcides Pinto e ao Sinésio. No caso de Sinésio, vim a conhecê-lo lá na Bahia mesmo. Sinésio tem uma filha por lá. Encontrei-o, 1995, coisa assim, de pura festa. Entreguei-lhe uns rascunhos daquele tempo. Sinésio, generoso, fez lá mesmo este primeiro escrito:

-------------------------------------------

(Sinésio faleceu, em plena atividade intelectual, subitamente, em 12.5.2012. O Mensageiro de Poesia completou em suas mãos 302 exemplares. A edição nº 303 foi concluída pelo filho Genésio Cabral, distribuída ainda em maio. Sinésio? A vida que vale a pena ser vivida! Que Deus o tenha.)




A POESIA DE SOARES FEITOSA



Francisco José SOARES FEITOSA vem do Ceará, precisamente da região dos Inhamuns, para revolucionar, com poemas calcados na informática, na eletrônica, e feitos de criatividade, o mundo estético-literário de nossos dias.

Sem descer ao poema, protesto que se perdeu na luta inglória do presente contra o passado, da primeira geração do Modernismo, Soares Feitosa, poeta de grande formação humanística e de inegável dimensão de universo - consegue traduzir, com suporte no ritmo psicológico, o sofrimento dos irmãos nordestinos pelo flagelo das grandes estiagens, embora sempre altivos, “resistindo e morrendo, morrendo e resistindo”, na feliz expressão do imortal Demócrito Rocha, no poema o “Rio Jaguaribe”.

Além disso, sabe retratar, com fidelidade, a resistência heróica da sua gente, na mencionada região dos Inhamuns, em lutas sangrentas entre famílias tradicionais.

Evidencia coisas e fatos ocorridos, por exemplo, em sesmarias, sem enveredar-se pelo gênero narrativo ficção, mas dentro da epopéia mesclada do sopro lírico.

Mergulha na antiguidade clássica, com a divisão em Cantos, à Camões, verdadeiro escafandrista, para revitalizá-la nos seus poemas, alguns sob a forma dialogada, à guisa de écloga (ou égloga), dentro do bucolismo, de sabor arcádico.

Sentimos ao longo da obra, resquícios de estéticas tradicionais, características formais e ideológicas de diferentes estilos de época, em versos livres feitos de modernidade.

Soares Feitosa, nascido em 1944, tem muito chão que percorrer, para continuar a retirar, com idealismo e sutileza, das notícias do jornal, do prosaico, das coisas efêmeras, o fazer poético - os valores eternos.

 



Dias depois mandei-lhe uns "panfletos" de computador que eu mesmo fazia e "encadernava". Sinésio respondeu:

Tive a satisfação de receber Talvez outro salmo. Considero simplesmente encantador e surpreendente esse desfecho do saber eterno:

“— Como podem saber tanto
de nunca escreverem uma única linha em linha reta?

— Porque é da Tua boca, Senhor,
e para os Teus ouvidos que a boca deles fala”

Tudo tão paradoxalmente simples e original! E passei alguns momento embevecido com a magia estonteante da singularidade dos versos de Uma Canção Distante e tão dentro da alma da gente!"

E, um belo dia fui surpreendido mais uma vez com a generosidade de Sinésio Cabral: este artigo publicado no Diário do Nordeste:

 



PARA ENTENDER SOARES FEITOSA



Para ler e entender Soares Feitosa, com a idade cronológica de 82 anos, talvez necessite da acuidade mental de um jovem de 28. Haverá coincidência na inversão dos algarismos?

Cearense dos Inhamuns, homem de meia idade, atordoado com os cálculos dosimétricos impostos pela sua função de Fiscal da Receita Federal em Salvador, BA, entre outros afazeres no Recife, PE, partiu loucamente, para o mundo das letras, na ânsia ardente e incontida de passar para o papel, sem tergiversar, o que lhe vai no imo dalma. E, agora, em gozo de licença-prêmio, no recesso do lar, nesta Loira Desposada do Sol, de Paula Ney, está mesmo muito à vontade, do jeito que bem quer, com dedicação exclusiva à poesia.

Soares Feitosa, através de sua veia estético literária, recua no espaço e no tempo. Verdadeiro escafandristaa, mergulha em outras eras, na origem das coisas, no Livro dos livros — a Bíblia — notadamente nos Salmos, para fisgar os segredos do Cosmos em Psi, a penúltima.

Soares Feitosa deixa refletir em cada poema a renovação da vida, do homem, e da arte, a simplicidade de usos e costumes antigos revitalizados na modernidade, ao sabor do Pastoralismo, sem artifícios prosaicos. Quanto à forma, trata-se em geral de poemas longos. O leitor, por vezes, até se perde, se não tomar cuidado, no emaranhado de versos (brancos ou soltos), em estrofes heterométricas, feitas de ritmo psicológico. Via percorrendo, não raro, a seqüência dos versos e tem a impressão de que o poema se desfaz em prosa. Até parece haver descambado para o gênero ensaístico, sob a forma de crônica leve, fronteiriça, não da loucura, mas do gênero lírico. O poeta sabe penetrar, por exemplo, bem dentro, com sutileza, em Thiago:

"num silêncio de limo,
num silêncio de folhas,
que também de telhas...
as telhas de um céu
insuportavelmente
estrelado
"A chegada de Soares Feitosa, disse Artur Eduardo Benevides, o Príncipe dos Poetas Cearenses — é um episódio de significação marcante. E quem o ignorar não sabe o que é poesia"

E ele chegou para fazer a revolução estética no mundo das letras, para fazer transbordar o seu lirismo (entre louco e sublime), às vésperas do terceiro milênio, ó grande enamorado das musas, na beleza do seu estro fora do comum, longe dos cálculos dosimétricos de sabor prosaico. Seja bem-vindo, Soares Feitosa. Deus o proteja. (Diário do Nordeste, Fortaleza, CE, 20.08.1997)."

 




E, se um dia tiver que dar o balanço da súbita guinada de uma vidinha não muito calma de açougueiro e tributarista, hei de dizer que, na poesia tenho sido muito bem pago: bastar-me-ia, para cobrir meu quinhão, a amizade desse mecenas, sonetista juramentado, poeta verdadeiro e amigo, Sinésio Cabral. A rigor, o Jornal de Poesia é apenas uma imitação, no campo virtual, do que Sinésio vem fazendo há muitos anos com o seu Mensageiro da Poesia: a divulgação, gratuita e desinteressada, da Arte comprometida tão-só com a Arte. O reconhecimento? Dos amigos! E olhe lá.

Claro que há outros nomes. Gratíssimos nomes. A não ser a eventual desfeita de uma pequena bordoada daqui ou dali, o balanço poético tem sido gratificante: César Leal, Francisco Brennand, Sébastien Joachim, Juarez Leitão, Artur Eduardo Benevides, Gerardo Mello Mourão, Francisco Carvalho, Pedro Nunes Filho, Weydson Barros Leal, Dimas Macedo... - são os nomes do começo, os primeiros que acreditaram, para ficar apenas no começo.

Ah, em tempo: Você quer uma assinatura do Mensageiro da Poesia? Fale com o poeta: 085-242.0690, Fax 085-242.47.87.

E ainda na Bahia, coincidência de um peixe, era um bacalhau, bem na hora, o telefonema do poeta Artur Eduardo Benevides: César Coelho, um chamado súbito — cum Christo. Porque dos muitos prêmios da poesia — nunca participei de concurso algum —, também este: o reencontro com o amigo da juventude, César.


Soares Feitosa
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sinésio Cabral



Relembranças



Domingo. Noite calma. Um piston em surdina
me traz evocações. Na varanda ensombrada,
eu mergulho no tempo, e o quadro me fascina:
perdidos na distância, uns longes de alvorada.

Em tomo à mesa, ali, conversas de rotina,
logo após o jantar. Bate-papo e mais nada.
E eu retorno à varanda, o olhar na chuva fina
e o pensamento longe, alma enfim deslumbrada.

Daqui deste edifício, entre instantâneos vários,
suponho ver no mar, e com os mesmos ardis,
nos veleiros de outrora, os antigos corsários.

Recordo, neste ensejo, ilhado em São Luís,
meus Pais, irmãos, Madrinha, a Escola, meus canários...
Taperoá, de antanho, em cenas infantis.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sinésio Cabral



Outono


Quando a velhice chega, a vida perde a graça.
Vêm o tédio, o silêncio, o queixume, o abandono.
Sempre há de ser assim. Pelo tempo o homem passa,
na luta pela vida, a mergulhar no outono.

E (se não fosse Deus!) que dizer da carcaça
(sem alma) dos mortais, possíveis cães sem dono?
Materialista e ateu, o ancião se desengraça
de todos e de tudo, e, inda mais, perde o sono.

Como é bom ser cristão! A gente continua
a viver sempre bem, otimista, feliz,
sem queixumes, ao sol, sem pedradas na lua.

Sem Eva para Adão, que seria do mundo?
Da argila para a vida (a História no-lo diz),
houve o sopro divino, infinito, fecundo.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904) - Phryne before the Areopagus

 

 

 

 

 

Sinésio Cabral



Mamãe



É quase noite, Não encontro abrigo.
O mundo ri de meu penar sincero.
O sofrimento sempre traz consigo
travo, amargor, mas não me desespero.

Olhar sereno, meu caminho sigo,
a conduzir, nem sempre como quero
este viver de sonhos, que bendigo,
num mundo feito de sabor austero.

O mundo é falho. A humanidade, ingrata.
Tem a mulher caprichos bem diversos.
Até num riso, às vezes, nos maltrata.

Entre nós dois, Mamãe, o amor não finda.
Teu coração não cabe nestes versos.
Minha saudade é bem maior ainda...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

 

Sinésio Cabral



Destinos iguais


Eu leio em teu semblante desenhada
na sua plenitude a própria vida
de quem se sente em vida desolada,
sem sol e sem calor, desiludida.

Decerto, contrafeita, amargurada,
por vezes, entre amigas, esquecida,
tu ficas em silêncio, ó bem-amada,
e eu fico a contemplar-te, assim, querida.

E Deus nos fala pela voz dos sinos.
Ao lusco-fusco, sinto em tua prece
fervor e contrição. A noite desce.

Perdidos no tumulto dos destinos
traçados para todos os mortais,
parece que nós dois somos iguais.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

Sinésio Cabral



Introspecção II


A vida, neste mundo, é mesmo passageira.
Certeza ninguém tem de estar vivo, amanhã.
O ímpio endeusa a matéria, ao encher a algibeira.
Longe o Povo de Deus de qualquer coisa vã.

A alma — sopro divino. O corpo, esfeito em poeira,
sob outra forma, um dia... A doutrina cristã,
dentro da BOA NOVA — a fonte verdadeira —
diz sobre o Bem e o Mal — no maior talismã.

Nesta minha rotina, há pesados encargos.
E, se não fosse Deus, como suportaria
ver-te a sofrer, também, momentos tão amargos!

Mas me ajudas, meu bem, na luta, noite e dia,
a carregar a cruz, em gestos sempre largos
e a trazer nosso lar em constante harmonia.


 

 

 

 

 

05/05/2005