Jornal de Poesia 
Soares Feitosa
Panos Passados
  
  
Luciano Maia, um dia, escreveu:
                 remoto motivo: 
um
pingo
d'água
nas-
ceu
nos
céus
e um
fio
alvo
o
chão
en-
cheu
de
vida
(a
água
é
veia).
                       cabeceiras: 
a água
imita
a clara
cantiga
da chuva,
que nasce
da nuvem
(passagem
efêmera)
que jorra
do ventre
do céu
à  terra
que pare
semente
que brota
corrente.
 
 
 
[in  JAGUARIBE, Memória das Águas,  Ed. Giordano, 3ª edição, 1994].
Então, Soares Feitosa tendo lido, escreveu:  

As águas em minha terra são efêmeras. 
Parideiras, fêmeas, efêmeras eram as águas; 
elas desciam às telhas de barro 
de minha casa rude, naquele tempo. 
 
 
À empanada de algodãozinho, 
como se fora um coador ao pote, 
— cantareira —, 
cingia a boca da cisterna,  
amarrada, ao barbante forte, a empanada 
e ao trom do jacaré de zinco 
recebia em cheio o cheio cano de zinco, 
jacaré de luxo, água,  
água, muit’água,  
luxo,  
muito luxo: 
               água! 
 

Ao  jorro surdo, elementar, 
efêmero, dos céus, 
os céus eram também abençoados, 
o vento vinha junto com a torrente d’água 
benção dos céus!  
 

Pois o vento dos céus, elemento novo, 
d’abastança, 
expulsava do ventre do tanque seco 
aquele outro vento, 
vento velho,  
encardido, das vacas 
magras! 
 

      O vento bom,  
      túrgido,  
      que descia dos céus 
      entrava em luta com o vento do abismo,  
      trevas; 
      o mormaço era expulso 
      ao ribombar dos céus,  
      farra dos ventos! 
 

Vela de jangada ao mar 

      — vi depois, só muito depois,   
      as jangadas, de sal e de mar! —   
 

Era um menino,  
uma  janela, 
cisterna: 
respingavam-lhe à face os elementos em fúria 
de céu e criação 
céu,  
Céus!  
 

As graças naturais eram subidas 
de volta aos céus 
e à emoção dos relâmpagos, 
ao quase-medo dos relâmpagos: 
                                              chuva, 
                                                  chovia! 
 

Era de noite que chovia: 
gotas amarelavam 
à luz frouxa da lamparina de querosene 
e as mãos cruzadas do menino,  
frio da serra, quase-escuro da noite: 
naquele instante era 
se fundava 
a cheia da cisterna! 
 
 

—— Dona Anísia, quant’é a lata d’água ? 
 

—— Dez latas por dois mil réis. 
 

E no verão bem próximo, 
uma cédula amarelo-queimado, 
de dois cruzeiros, moeda vil, 
efígie de Tamandaré, 
era chamada, naquele tempo, 
a cada dez latas  
d’água-de-beber! 
  

À beira daquela cisterna, janela, 
não havia o show dos balseiros secos 
novelos secos, rolos secos 
tangidos pela força ainda invisível 
das primeiras gotas, 
chuva primeira: 
folhas,  
folhas secas, caducas, garranchos, 
pó, 
folhas formando levas  
— retirantes — 
tangidos ao estrondar  
relâmpagos e coriscos, 
gentilíssimas gotas primeiras 
um leve fio d‘água, 
e era ali  
solene, mítico  
que se fundavam, refundavam os fundamentos 
renascidos, refundados, pela enésima vez 
do velho rio, 
rios, 
rios secos,  
meus rios, 
do quintal da nossa aldeia: 
  
        rio do Governo, 
        Jaguaribe, 
        Macacos, 
        Curtume, 
        Acaraú. 
 

Secos, os rios,  
renasciam sob o balseiro, 
efêmera glória,  
vida nova, 
até o verão bem próximo! 
 

Os primeiros balseiros lá-de-casa 
eram  jogados fora, 
para limpar as telhas,  
farras dos gatos, 
pegas dos ratos, 
“bênçãos” dos urubus e passarinhos... 
desviava-se o jacaré:   
agora está limpo,  
vamos encher, 
graças a Deus! 
 
 

A empanada regurgitava cheia, 
água e vento por cima, 
mormaço por baixo, 
armava-se o pano em cocuruto 
como se fosse à bicicleta de freio-pedal 
do meu primo Valmir 
quando descia o Rabo-da-Gata, 
numa camisa de listras, 

      — de panos passados —  

um velame de mar,  
enfunado às costas: 
vento e brisa, 
primavera que não temos por aqui. 
 

¿Quem disse que não temos? 
 

Pois, 
as lavandeiras saltitantes em cima do balseiro, 
o vôo do cupido, do xexéu,  do concriz,  
a marcha ligeira da sariema, 
o passo lúgubre,  
aterrador,  
da cascavel, 
chocalhos...  solene... 
a chispada dos tejuaçus, 
os olhinhos assombrados dos preás, 
momento fantástico,  
os bichos desocupam a areia, 
ação de despejo, (o Juiz  Invisível), 
ao cheiro da terra molhada, 
sobem às barrancas, 
e o fantástico cheiro da terra, 
da terra fêmea, terra molhada: 
mais uma vez, as primeiras estrofes,   
como se fosse a vez primeira, do Gênesis: 
 

um tímido fio d’água, 
o rio, 
a aflição das formigas, 
o revôo dos cupins e das tanajuras, 
e ali se diz: 
por uns breves dias, o leito deste rio tem dono: 
                                                                      a Cheia! 
 
 

        Lázaros de sol, 
        Lázaros de sal, 
        meus rios, 
        em Primavera: 
                            a Cheia! 
 

Cheias,  
efêmeras por certo, 
tão valentes  
quanto as de qualquer rio de luxo. 
 

“O Salgado é o rio mais belo do mundo!” 
  
 

Pois o mais belo, fiquem sabendo, não é ibérico, Pessoa; 
nem salgado, Dimas, 
é o Macacos, 
Rio Macacos,  
tanto faz cheio, como seco, naquele logar, 

Volta-do-rio... 

Volta, rio! 
 

[Perdão, cheio é um “pouquinho” mais bonito!] 
 

¿Nunca viram Aracati debaixo d’água? 
 

Claro, claro, 
temos também a nossa Primavera. 
 

Também tive minha bicicleta, 
 naquele tempo! 
  

No meu tempo não tinha calçamento 
nem asfalto; 
no barro de loiça 
molhado, respingado, 
o caminhão do Padrinaço 
a cafuringa do Joãomarque 
o chevolé  do João d’Urbano 
o fozim do Manezim, Carneiriveras 
conhecíamos, os meninos, todos os carros 
pelo ronco,  pelo apito, e deslizavam, 
andavam de banda; e de manhã bem cedo, 
ao final dos respingos, uma pequena grota, 
mero filete, nascedoiro dos Rios, 
água amarelada, barrenta, 
do barro de loiça, 
corria junto à calçada 
lá-de-casa, naquele tempo! 
 

E a água era domada!  
 

Hábeis mãos, 
um bolão de barro, 
um ajunta daqui, 
um alisa dali... 
 

¿——  Estas mesmas mãos, 
de-meio-século, 
teriam sido elas, 
estas aqui,  
as minhas mãos, 
ao barro elementar —— !?  
 
 

Pois mágica da criação, 
àquelas mãos de criança, 
uma rapidíssima parede, 
e Assuã, 
Orós, 
Banabuiú 
seriam míseras poças  
na frente do meu açude, 
que depois,  com pés, 
a gente mesmo arrombava... 
o aguaceiro. 
 
 

É que sempre foi assim mesmo: 
 
 

        água-de-beber, 
        água-de-brincar, 
        água-de-viver! 
 
        E o sal:  

                  O Sal dos teus olhos, amor. 

 
 

Salvador, madrugada, 11.10.1994 

Notas para Panos Passados: 

1. Cantareira:  local dos potes  (cântaros). Quando se enche o pote, é colocado um pano à boca do mesmo, como coador.  

2. Cisterna: Monsenhor Tabosa, Serra das Matas, CE, cidade de minha infância, não tinha “água  boa” - potável - o que  levou minha mãe,  Anísia, a mandar construir uma cisterna pelo  mestre Demétrio. A primeira da região, 1950,  causou grande assombro em todo o trecho. Era um belo  tanque de cimento armado, com uns 20.000 litros, (ainda hoje existente), garantia de excelente água para o consumo e ainda de algum faturamento.  

3. Rio do Governo:  riachote insignificante, passava na Baixa  do seu Honório, o coronel Honório, por trás de nossa casa, em Monsenhor Tabosa. Teve uma única cheia: quando arrombou o açude do Antônio de  Pinho. Deságua no rio Quixeramobim e este no Banabuiú, afluente maior  do Jaguaribe.  Em seu  baixio, grandes gravioleiras, coqueiros, cupidos (assum-preto) e corrupiões, naquele tempo! Jaguaribe, principal rio do Estado do Ceará. Dizem que é o maior rio seco do mundo. Macacos,  afluente do Acaraú, CE, rio da minha juventude, fazenda Catuana, Santa Quitéria, passagem da Volta-do-Rio, poema Evanescências. Curtume:  também um rio “meu”: Nova Russas, 14, 15 anos, naquele tempo! Acaraú: também.  

4. Balseiros: no sentido regional, Nordeste do Brasil, onde os rios correm apenas na estação chuvosa,  balseiros são os restos de  vegetação, folhas secas e restolhos do leito do rio seco, tangidos pela cheia.  No sentido  doméstico, da cisterna lá-de-casa, seriam as sujeiras do  telhado, levadas pelas primeiras  chuvas.  

5. Panos passados: diz-se das abas da camisa passadas por dentro das calças, exigência dos delegados de polícia das cidades pequenas do Ceará, para evitar o disfarce, sob os panos soltos, da parnaíba, a faca de cangaceiro,  de  cabo-de-osso ou chifre perolado. O efeito do vento à bicicleta ou ao cavalo bralhador, sobre os panos passados  era formar uma “bolsa”  inflada às costas, como aquela que também se formava à boca da cisterna.  

6. Primavera: o Ceará está a menos de dez graus latitude sul. Apenas duas estações: verão e  inverno, este último, a estação chuvosa, a benção das águas... quando chove.   

7. Lavandeira: ave de pequeno porte, Fluvicula climazura  papo branco, espinhaço preto, asa escura com espelho branco;  canto sem maior importância, não competindo com o do galo de campina nem com o do sabiá; habita as beiras-de-rio e, dizem, é animal sagrado  pois teria lavado, no  Egito, as roupas de Nossa Senhora e do Menino.  Por isso mesmo não é alvo das baladeiras dos meninos. Cupido:  o mesmo que assum-preto ou chico-preto. Concriz: o mesmo que corrupião, também conhecido como sofrê, belíssimo!  

8. O Salgado é o rio mais belo do mundo: tTema do poeta cearense Dimas Macedo. O Rio Salgado é afluente do Rio Jaguaribe, Ceará, Brasil.  

9.  Aracati: 40.000 habitantes à margem do Rio Jaguaribe. Grandes cheias nos anos de 1924 e 1984, as maiores deste século, com marcas ainda hoje conservadas nas paredes da  igreja matriz e do Cotonifício Leite Barbosa.   

10. Padrinaço:  padre Ignácio Américo Bezerra, in poema Format Cê Dois Pontos.  

11. Fozim do Manezim: era um pequeno caminhão, um Ford F-5, fazia a linha transportando gente e mamona entre Monsenhor Tabosa e Nova Russas para empresa Carneiro & Veras, cujo dirigente em Monsenhor Tabosa era o meu padrim e tio, Ulisses, pai do meu Compadre-Primo. Manezim, o motorista, muito baixinho, muito enjoado e valente, corredor imprudente no  velho  calhambeque, desembesto da descida da Serra das Matas. Uma disputa que até hoje divide gerações: quem era  o melhor: Manezim ou o Valdir-do-João d’Urbano?  

12. Assuã, Orós, Banabuiú: represas de grande porte, a primeira no Egito, as outras duas no Ceará.  

13. Lá de casa: regionalismo, NE,sentido de possessivo, minha casa;  usa-se também, com o mesmo sentido, “lá em casa”. 

Colofão  

Este poema foi composto em Salvador, BA, sob inspiração do poema  JAGUARIBE, madrugada, 11.10.94, dia seguinte ao em que li o dito poema e conheci pessoalmente o seu autor, Luciano Maia.

Escreveram sobre Panos Passados: 
 
Ivan Junqueira: Bastaria um poema como Panos Passados para justificar a publicação dos versos que inervam todo o seu ciclópico estro poético, no bojo do qual afloram a cada passo as vertentes heróica, telúrica e lírica.
Adriana Bernardi  - adribernardi@uol.com.br>

Acabei de ler "Panos Passados"... Que coisa, tem música no fundo... é a métrica acho... será? Mas vem a música de fundo... Lá no fundo... cadencianda com o correr dos olhos sobre as palavras... ela vem ritmada... quase pentatônica... num batuque... batuque ou marcha-rancho???... Num sei... e lá vem ela... um coro que narra-canta... linda de morrer... e os olhos pulando de lá prá cá... e entra o solista  -  Dona Anísia, quant'é a lata d'água? ... resposta... e volta o coro... e muda o ritmo... uma só voz.... modula... e vai... e vai... coro infantil... (água de beber/ água de brincar/ água de viver...) Pausa. Bagueta suspensa...  "E o sal:   O Sal dos teus olhos, amor." 
Aplausos...  Que coisa, viu???   
 

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