Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Ivan Junqueira 

Titian, Venus with Organist and Cupid

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

Foto de Fernando Rabelo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A menina afegã, de Steve McCurry

 

Michelangelo, Pietá

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Plaza de toros

 

 

 

 

 

Ivan Junqueira



Bio-Bibliografia


Ivan Junqueira nasceu no Rio de Janeiro (RJ) em 3 de novembro de 1934. Aqui realizou seus primeiros estudos, ingressando em seguida nas faculdades de Medicina e Filosofia da Universidade do Brasil, cujos cursos, porém, não chegou a concluir. Iniciou-se no jornalismo em 1963, como redator da Tribuna da Imprensa, tendo atuado depois no Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Globo, nos quais foi redator e sub-editor até 1987. Assessor de imprensa e depois diretor do Centro de Informações das Nações Unidas no Rio de Janeiro entre 1970 e 1977, tornou-se mais tarde supervisor editorial da Editora Expressão e Cultura e diretor do Núcleo Editorial da UERJ, além de colaborador da Enciclopédia Barsa, Encyclopaedia Britannica, Enciclopédia Delta Larousse, Enciclopédia do Século XX, Enciclopédia Mirador Internacional e Dicionário histórico-biográfico brasileiro, este último editado pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas. Foi também assessor de Rubem Fonseca na Fundação Rio.

Como crítico literário e ensaísta, tem colaborado em todos os grandes jornais e revistas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, bem como em publicações especializadas nacionais e estrangeiras, entre elas Colóquio Letras, Revista do Brasil, Senhor, Leitura e Iberomania. Em 1984 foi escolhido como a “Personalidade do Ano” pela UBE. Assessor da Fundação Nacional de Artes Cênicas (Fundacen) de 1987 a 1990, no ano seguinte transferiu-se para a Fundação Nacional de Arte (Funarte), onde foi editor da revista Piracema e chefe da Divisão de Texto da Coordenação de Edições, tendo se aposentado do serviço público em 1997. Foi ainda editor adjunto e depois editor executivo da revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional.

Conferencista, realizou palestras no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza, Manaus, São Luís, Brasília, Recife, Porto Alegre, Florianópolis, Petrópolis, Buenos Aires, Santiago do Chile e Lisboa, onde, em 1994, abriu o Projeto Camões, patrocinado pelo Instituto Camões e a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, ocasião em que ministrou, na Biblioteca Nacional da capital portuguesa, o curso “A rainha arcaica: uma interpretação mítico-metafórica”, além de realizar recitais de poesia na Casa de Fernando Pessoa e no Palácio da Fronteira. No ano seguinte voltou a participar do Projeto Camões, tendo proferido conferências em Coimbra, Porto, Vila Real, Lisboa e Ponte de Sor. De 1995 a 1997 tomou parte no Projeto Ponte Poética Rio-São Paulo, de que constavam leituras comentadas de poemas de sua autoria e palestras. Ainda em 1995 recebeu da UFRJ, por unanimidade de votos, o diploma de “notório saber”, tendo ali participado também do ciclo de palestras “Os Poetas”. De 1996 a 1997 participou, como poeta e ensaísta, das “Rodas de Leitura” do CCBB e organizou, naquele último ano, com Moacyr Félix e Leonardo Fróes, as “Quintas de Poesia”, sob o patrocínio da Funarte. Em 1998 foi curador do Programa de Co-Edições da Fundação Biblioteca Nacional, que possibilitou a publicação de 35 títulos de autores das regiões Norte, Nordeste e Sudeste, onde, entre 2000 e 2003, realizou diversas conferências. Foi Tesoureiro (2001), Secretário-Geral (2002-2003) e atualmente (2004) ocupa a presidência da Academia Brasileira de Letras.

É membro do PEN Clube do Brasil. Recebeu vários prêmios literários: Prêmio Nacional de Poesia, do INL (1981); Prêmio Assis Chateaubriand, da ABL (1985); Prêmio Nacional de Ensaísmo Literário, do INL (1985); Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (1991); Prêmio da Biblioteca Nacional (1992); Prêmio José Sarney de poesia inédita, do Memorial José Sarney (1994); Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (1995); Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, do PEN Clube do Brasil (1995); Prêmio Oliveira Lima, da UBE (1999); e Prêmio Jorge de Lima, da UBE (2000). Em 1998 recebeu a Medalha Cruz e Sousa, da municipalidade de Florianópolis, e, em 1999, a Medalha Paul Claudel, da UBE. Em 2002 foi patrono do IV Concurso Nacional de Poesia Viva, patrocinado pelo jornal Poesia Viva.

Sua poesia já foi traduzida para o espanhol, alemão, francês, inglês, italiano, dinamarquês, russo e chinês.

Bibliografia

Poesia

  • Os mortos. Rio de Janeiro: Atelier de Arte,1964. Menção honrosa no Concurso Jorge de Lima, 1965.

  • Três meditações na corda lírica. Rio de Janeiro: Lós, 1977.

  • A rainha arcaica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. Prêmio Nacional de Poesia, do Instituto Nacional do Livro, 1981.

  • Cinco movimentos. Rio de Janeiro: Gastão de Holanda Editor, 1982. Estes poemas foram musicados por Denise Emmer no CD Cinco movimentos & um soneto, 1997. Rio de Janeiro. Leblon Records.

  • O grifo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Menção honrosa do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, 1988. Tradução dinamarquesa, Griffen. Husets Forlag, Copenhague, 1994.

  • A sagração dos ossos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994. Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, 1995. Prêmio Luísa Cláudio de Sousa, do PEN Clube do Brasil, 1995.

  • Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Record, 1999. Prêmio Jorge de Lima, da UBE, 2000.

  • Melhores poemas de Ivan Junqueira. Organização e introdução de Ricardo Thomé. São Paulo: Global, 2003.

Em antologias

  • A novíssima poesia brasileira, II. Org. Walmir Ayala. Rio de Janeiro: Cadernos Brasileiros, 1965.

  • Antologia da poesia brasileira contemporânea. Org. Carlos Nejar. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, Col. Escritores dos Países de Língua Portuguesa, no 6, 1986.

  • Palavra de poeta. Org. Denira Rozário. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.

  • Antologia da poesia brasileira. Org. Antônio Carlos Secchin, trad. Zhao Reming. Pequim: Embaixada do Brasil em Pequim / Fundação Biblioteca Nacional, 1994.

  • Modernismo brasileiro und die Brasilianische Lyric der Gegenwart. Org. e trad. Curt Meyer-Clason. Berlin: Druckhaus Galrev, 1997.

  • Poesia fluminense do século XX. Org. Francisco Assis Brasil. Rio de Janeiro: Imago / Fundação Biblioteca Nacional / Universidade de Mogi das Cruzes, 1998.

  • 41 poetas do Rio. Org. Moacyr Félix. Rio de Janeiro: Funarte, 1998.

  • Antologia de poetas brasileiros. Org. Mariazinha Congílio. Lisboa: Universitária Editora, 2000.

  • Literatura portuguesa e brasileira. Org. João Almino e Arnaldo Saraiva. Porto: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.

  • Antologia da poesia contemporânea brasileira. Org. Álvaro Alves de Faria. Coimbra: Alma Azul, 2000.

  • Santa poesia. Org. Cleide Barcelar. Rio de Janeiro: Casarão Hermê / MM Rio, 2001.

  • Poesia brasileira. Org. Floriano Martins e trad. Eduardo Langagne. Cidade do México: Alforja, XIX, Invierno, 2001.

  • Os cem melhores poemas brasileiros do século. Org. Ítalo Moriconi. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

  • Os cem melhores poetas brasileiros do século.Org. José Nêumane Pinto. São Paulo: Geração Editorial. 2001.

  • Cem anos de poesia. Org. Claufe Rodrigues e Alexandra Maia, 2 vols. Rio de Janeiro: O Verso Edições, 2001.

  • Poesia brasileira do século XX. Dos modernos à actualidade. Org. Jorge Henrique Bastos. Lisboa: Antígona, 2002.

Ensaísmo

  • Testamento de Pasárgada (antologia crítica da poesia de Manuel Bandeira). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. 2ª ed. revista, Rio de Janeiro, Nova Fronteira / ABL, 2003.

  • Dias idos e vividos (antologia crítica da prosa de não-ficção de José Lins do Rego). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

  • À sombra de Orfeu. Rio de Janeiro, Nórdica/INL, 1984. Prêmio Assis Chateaubriand, da Academia Brasileira de Letras, 1985.

  • O encantador de serpentes. Rio de Janeiro: Alhambra, 1987. Prêmio Nacional de Ensaísmo Literário, do Instituto Nacional do Livro, 1985.

  • Prosa dispersa. Rio de Janeiro: Topbooks, 1991.

  • O signo e a sibila. Rio de Janeiro: Topbooks, 1991.

  • O fio de Dédalo. Rio de Janeiro: Record, 1998. Prêmio Oliveira Lima, da UBE, 1999.

  • Baudelaire, Eliot, Dylan: três visões da modernidade. Rio de Janeiro: Record, 2000.

Tradução

  • Quatro quartetos, de T. S. Eliot (com introdução e notas). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

  • T.S.Eliot. Poesia (com introdução e notas). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. 8a ed., 2002.

  • A obra em negro, de Marguerite Yourcenar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981. 6a ed., 1985.

  • Como água que corre, de Marguerite Yourcenar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

  • Prólogos. Com um prólogo dos prólogos, de Jorge Luis Borges. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.

  • As flores do mal, de Charles Baudelaire (com introdução e notas). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. 10a ed., 2002.

  • Albertina desaparecida, de Marcel Proust. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

  • Ensaios, de T.S.Eliot (com introdução e notas). São Paulo: Art Editora, 1989. Menção honrosa do Prêmio Jabuti, 1990.

  • De poesia e poetas, de T.S.Eliot (com introdução e notas). São Paulo: Brasiliense, 1991.

  • Poemas reunidos 1934-1953, de Dylan Thomas (com introdução e notas). Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (1991) e da Biblioteca Nacional (1992). 2a ed., revista, 2003.

  • Doze tipos, de G. K. Chesterton (com introdução e notas). Rio de Janeiro: Topbooks, 1993.

  • T.S.Eliot. Poesia completa. São Paulo: Siciliano (no prelo).

  • Suas traduções dos poemas de Baudelaire e de Leopardi constam das edições das obras reunidas desses dois autores, publicadas, respectivamente, em 1995 e 1996, pela Nova Aguilar.


Fonte: Academia Brasileira de Letras

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Bathsheba

 

 

 

 

 

Ivan Junqueira



Os mortos


Os mortos sentam-se à mesa,
mas sem tocar na comida;
ora fartos, já não comem
senão côdeas de infinito.

Quedam-se esquivos, longínquos,
como a escutar o estribilho
do silêncio que desliza
sobre a medula do frio.

Não devendo, embora lisas,
suas frontes, onde a brisa
tece uma tênue grinalda
de flores que não se explicam.

Nos beirais a lua afia
Seu florete de marfim.
(Sob as plumas de neblina
os mortos estão sorrindo:

um sorriso que, tão tíbio,
não deixa sequer vestígio
de seu traço quebradiço
na concha azul do vazio.)

Quem serão estes assíduos
mortos que não se extinguem?
De onde vêm? Por que retinem
sob o pó de meu olvido?

Que se revelem, definam
os motivos de sua vinda.
Ou então que me decifrem
seu desígnio: pergaminho.

Sei de mortos que partiram
quase vivos, entre lírios;
outros sei que, sibilinos,
furtaram-se às despedidas.

Lembro alguns, talvez meninos,
que se foram por equívoco;
e outros mais, algo esquecidos
que de si mesmos se iam.

Mas estes, a que família
de mortos pertenceriam?
A que clã, se não os sinto
visíveis, tampouco extintos?

Ou quem sabe não seriam
mortos de morte, mas sim
de vida: imagens em ruínas
na memória adormecidas.

Mas eles, em seu ladino
concílio, disfarçam, fingem
não me ouvir. E seu enigma
(névoa) no ar oscila e brinca.

II

Ó mortos que, sem convite,
à minha mesa finita
sentastes só para urdir
tal intriga metafísica!

Quem vos pediu me despísseis
vosso segredo mais íntimo?
E, ao despi-lo, não me abrísseis
seu núcleo de morte e vida...

E por que tanto sigilo
em vosso verbo melífluo,
se a morte em si já é signo
transfigurado de vida,

se apenas um morto em mim
é o que basta de agonia
para que o tempo o redima
e logo inverta sua sina?

Assim, estes mortos (vivos)
não estão aqui nem ali:
pertencem todos à minha
carne, agora feita espírito.

E mesmo que se retirem
(e eis que o fazem, de mansinho)
algo deles, pelas frinchas
da noite cúmplice, fica.

E me invade, vago líquido,
tingindo fibra por fibra
o ser que em meu ser persiste
conta o outro, que o mastiga.

III

Sobre a mesa, sono e cinza,
dissolvem-se as iguarias
- viandas, aspargos, vinhos -
que ofereci às visitas.

Visitam porém omissas,
não cuidaram de comida,
aos da mesa preferindo
requintes talvez mais finos.

À cabeceira, sozinho,
a coisa alguma presido
senão a mim mesmo: abismo
que em si próprio se enraíza.

Quanto aos convivas - repito -,
de algum modo ainda me habitam;
não fosse assim, como ouvi-los,
agora, em meus labirintos?

Sim, ei-los meus inquilinos,
os mortos, tão coisa viva
que a morte já não os cinge:
deixa-os fluir, linfa, comigo.
 

 

 

 

Albrecht Dürer, Mãos

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José Nêumanne Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Judgment of Solomon

 

 

 

 

 

Ivan Junqueira


 

Hoje


A sensação oca de que tudo acabou
o pânico impresso na face dos nervos
o solitário inverno da carne
a lágrima, a doce lágrima impossível...
e a chuva soluçando devagar
sobre o esqueleto tortuoso das árvores

 

 

 

Culpa

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Nauro Machado

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Ivan Junqueira



E se eu disser


E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.
 

 

 

 

Velazquez, A forja de Vulcano

Início desta página

Benedicto Ferri de Barros

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci

 

 

Emerson Maranhão

conversa com o poeta

Ivan Junqueira

O Povo, Fortaleza, Ceará, Brasil



 

Poeta do pensamento

O poeta e ensaísta Ivan Junqueira diz que é no Nordeste que hoje se produz a melhor poesia do Brasil. Em entrevista a O POVO, ele afirma que a maior parte dos poetas brasileiras não tem formação literária e intelectual suficiente para se considerarem verdadeiros poetas

 

[31 Outubro 2003]


''Os poetas brasileiros, a meu ver, eles não têm a formação literária e intelectual que deviam e acham que tudo que escrevem é poesia''. A frase pode até soar como provocação, mas não teria autor mais gabaritado para proferi-la. Ensaísta, crítico literário, poeta e tradutor de alguns dos mais importantes autores, Ivan Junqueira sabe do que fala. Senhor de seu ofício, artífice de versos há mais de 30 anos, o imortal carioca já teve sua poesia traduzida para o espanhol, alemão, francês, inglês, italiano, dinamarquês, russo e chinês, e é dos mais respeitados nos meios literários e acadêmicos mundo afora.

Na semana passada, Ivan Junqueira esteve em Fortaleza para participar de um encontro literário e lançar um livro que reúne alguns de seus melhores poemas. Entre e outro compromisso recebeu O POVO para uma entrevista, onde revelou os bastidores da polêmica entrada de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras, afirmou que o melhor da poesia brasileira contemporânea é feita no Nordeste e disse que considera descartável, com raras exceções, a produção poética da década de 70, incensada por vários críticos.


O POVO - O senhor é considerado ''o Poeta do Pensamento'' devido a relação entre a Filosofia e sua poesia. Como o senhor avalia essa definição?
Ivan Junqueira - Eu acho que a expressão ''poeta do pensamento'' é um pouco excessiva e lisonjeira demais para mim. Eu acho que existem no Brasil poetas do pensamento mais característicos do que eu, como seriam os casos de Carlos Drumond de Andrade e, mais do que ele, do poeta Dante Milano, que foi um poeta muito desconhecido, mas, em boa parte, por culpa dele, mas de quem eu me fiz um grande amigo e com quem eu aprendi muito do ponto de vista desse comportamento poético. Quer dizer, de escrever uma poesia que refletisse um pouco a minha visão do mundo. Nesse sentido, eu posso ser definido como um poeta do pensamento porque eu creio que o grande mal da poesia brasileira, e é um mal que vem desde o romantismo, é um certo transbordamento excessivo da emoção. E eu acho que não é possível você colocar essa emoção toda no papel da maneira como ela lhe vem num primeiro momento. Aquilo tem que ser decantado, tem que passar por todo um trabalho de refino mesmo, como se fosse dentro de uma destilaria onde toda essa emoção fosse se transformando numa emoção pensada. E como se esse pensamento fosse um pensamento emocionado. Evidentemente que tudo isso dá muito trabalho, você não pode estar escrevendo a toda hora, a poesia exige do poeta um poder enorme de concentração de idéias e é preciso que essas idéias se articulem sob a égide de uma música que (T.S.) Elliot chamava de ''música das idéias''. Então, ao mesmo tempo que eu sou um poeta da emoção, porque eu acho que não existe poesia sem emoção, como eu acho que não existe arte nenhuma sem emoção, mas essa emoção tem que ser depurada, tem que ser depurada através do processo da reflexão sobre a realidade. Eu acho que é por isso que Wilson Martins diz que eu sou um poeta metafísico.

OP - Como se dá o seu processo de criação?
IJ - Eu diria que no meu caso, no caso também de alguns poucos poetas, ele se dá sob o comando de uma emoção, que num primeiro momento se apresenta talvez até sob forma de um relâmpago, e a partir daí você começa a tomar notas, a escrever alguns versos, e depois você vai ver se o poema caminha pelas próprias pernas ou não. É muito o que se joga fora. É por isso que o Drumond diz: ''não colhas no chão o poema que se perdeu''. Há poemas que se perdem, que começam muito bem e não vão lá nas pernas. É melhor deixar de lado porque seguramente esse poema não valeria a pena ser escrito. Mas o processo da escrita do poema, no meu caso, é sempre um processo muito lento, porque é um processo de escolha de palavras, é um processo de escolha daquilo que eu vou dizer, é um processo também que se confunde com uma tentativa de me comunicar com o outro. Eu acho que poesia não existe sem a recepção do outro. Não adianta você ficar escrevendo o tempo todo poesia para si mesmo, como se fazia no Romantismo, aquela objetividade, aquela exaltação romântica que você acabava escrevendo uma poesia de pura confidência pessoal. Quer dizer, aquela poesiazinha confessional, que eu acho que já não interessa mais aos tempos de hoje. Então, é sempre um processo árduo, tortuoso e muito difícil. Escrever poesia é sempre muito difícil.

OP - O senhor acha que falta respeito à Poesia na produção literária contemporânea?
IJ - Não é propriamente respeito. É que o poeta jovem, e no Brasil parece que há um talento coletivo para a poesia, o poeta jovem acha que tudo que ele joga no papel é válido. Então já se disse, e não sem alguma razão, que poeta no Brasil é como nuvem de gafanhoto. Agora, quantos gafanhotos vão ficar? O desrespeito ele se engendra a partir do momento em que há um excessivo número de poetas pensando que são poetas e não são. Eu lembraria aqui aquela frase de Goethe que diz que 99% no ato da criação é suor e 1% é inspiração. Os poetas brasileiros, a meu ver, eles não têm a formação literária e intelectual que deviam e acham que tudo que escrevem é poesia. Não é. A poesia leva tempo, para você chegar a escrever uma poesia madura leva tempo. E há casos aqui no Brasil, esses casos são incontáveis, de poetas que publicaram muito cedo e tiveram que rejeitar essa obra da adolescência, como é o caso de Vinícius de Moraes e Cecília Meireles, que rejeitaram ostensivamente os livros que publicaram com 17, 18, 19 anos. Então, o poeta tem que se preparar para o seu próprio público de maneira que afaste qualquer possibilidade de desrespeito por uma obra que está sendo construída com seriedade e, sobretudo, com dignidade humana.

OP - O senhor falou há pouco que não há poesia sem a recepção. Como é fazer poesia em um País de tão poucos leitores como o Brasil?
IJ - Não é só no Brasil que há poucos leitores de poesia. Eu acho que isso é um fenômeno mundial. A poesia em qualquer lugar do mundo, em qualquer língua será sempre uma arte para poucos. Isso já diziam grandes poetas do passado e se nós voltarmos a repetir isso hoje haverá toda a razão em fazê-lo. Aquele grande poeta espanhol Juan Jamon Jimezes em todo o livro que ele publicava ele colocava uma advertência: ''para la minoria, siempre''. Ele sabia que poesia tem poucos leitores. Agora, o caso do Brasil é um caso mais grave por causa em primeiro lugar de um índice de analfabetismo ainda muito grande. Em segundo lugar porque mesmo as pessoas alfabetizadas não têm compreensão daquilo que estão lendo. E isso, do ponto de vista estatístico, já se provou que atingiu um percentual da ordem de 30%. Quer dizer, 30% das pessoas alfabetizadas, que sabem ler e escrever, não entendem direito o que lêem. Então, ser poeta no Brasil talvez seja, e nesse ponto você tem razão, um desafio ainda maior do que ser poeta em outras línguas, línguas de cultura com muito tradição que o Brasil. O Brasil é um país muito jovem, nós temos 500 anos. A Europa tem 25 séculos. É claro que lá o leitorado de poesia é um leitorado muito mais exigente, muito mais freqüente e que busca mais a leitura de poesia do que aqui. E no entanto, veja você, os candidatos a poetas no Brasil se contam, talvez, aos milhões. Em todos os lugares do Brasil se escreve poesia. No Nordeste, por exemplo, isso é uma coisa que eu venho dizendo há alguns anos, e todas as vezes que eu venho ao Nordeste eu digo isso, como digo no Rio de Janeiro, a poesia mais forte que se escreve hoje está sendo escrita no Nordeste. E vocês aqui tem que compreender que isso é verdade. Porque existe aquele eixo Rio-São Paulo que concentra quase toda a produção intelectual do Brasil e nesse eixo se publica muita coisa ruim. Se publica muita poesia ruim. E quando eu venho aqui no Nordeste - Bahia, Pernambuco, Maranhão, Ceará - eu levo um susto. Eu tenho a grata surpresa de perceber que aqui se escreve uma poesia excepcional.

OP - Por exemplo?
IJ - Olha, no caso de Pernambuco, por exemplo, há dois poetas excepcionais que são César Leal e Ober da Cunha Melo. Podem competir com qualquer poeta do eixo Rio-São Paulo. Na Bahia você tem o Dario Tavares, Rui Espinheira Filho, Miriam Fraga, Luiz Antonio Cajazeira Ramos. Aqui você tem um enorme poeta que é o Francisco Carvalho, você tem Luciano Maia, José Alcides Pinto, Floriano Martins, Adriano Spíndola. No Maranhão nós temos o José Chagas, temos o Lauro Machado. Mais acima, no Amazonas, há um poeta notável que é o Luiz Barcelar, e também o Aníbal Bessa. São poetas que não são conhecidos no Sudeste e muito menos no Sul, que é quase um compartimento estanque dentro desse País enorme.

OP - Como o senhor avalia a atual produção literária brasileira?
IJ - Nós estamos vivendo uma época complicada e de muita ambiguidade. Porque a última geração representativa da poesia brasileira foi a geração de 60, que em Recife se chamou a geração de 65, mas que não se caracterizou muito como geração. Nós não nos reuníamos em torno de nenhum ideário estético, de nenhuma plataforma. Infelizmente foi uma geração dispersa. Mas a poesia que essa geração estava escrevendo naquela época perdurou até hoje. E os bons poetas que escrevem hoje no Brasil pertencem a esse geração. Agora, depois nós tivemos a produção daquela poesia alternativa na década de 70, que com raras exceções eu considero uma poesia descartável, e a partir dos anos 80 nós entramos naquilo que hoje estão chamando, a meu ver um pouco equivocadamente, de pós-modernidade. Eu acho que esse termo não quer dizer nada. Na verdade o que nós estamos vivendo é a baixa modernidade. E, evidentemente, qualquer arte que se produza nesse período é difícil de ser avaliada. Primeiro porque você não tem a necessária distância histórica do que está acontecendo. E segundo porque há uma profusão de propostas novas, como há também uma espécie de resgate de tudo o que foi feito no passado. Então nessa chamada pós-modernidade cabe tudo. Quer dizer, é uma espécie de vale tudo e eu acho que é muito cedo ainda para avaliar. Agora, do ponto de vista da produção, os artistas, os escritores continuam o que sempre foram. Eles estão arriscando, eles estão tentando reinventar a linguagem, estão tentando criar alguma coisa nova e que diga mais de perto ao homem complicado dessa época. Esse homem que foi o resquício do século XX e que hoje é esse homem com o qual se inicia esse terceiro milênio.

OP - Recentemente, a entrada de Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras (ABL) foi cercada de polêmica. Nos últimos anos, esse não foi um caso isolado. Por a Academia estar tão descaracterizada, ainda faz sentido sua existência?
IJ - Eu acho que faz todo o sentido. E acho mais. Acho que faz muito mais sentido agora, porque há que distinguir entre a Academia Brasileira de hoje a Academia Brasileira de uns vinte anos atrás. Hoje, a Academia Brasileira de Letras é uma casa de cultura. É uma casa de cultura ativíssima. Nós começamos o ano acadêmico no dia 1º de março de cada ano. Terminamos a 20 de dezembro. Durante esse tempo você tem ciclos de conferência, durante todos os meses, conferências sobre assuntos temáticos frequentadíssimas hoje em dia. Você tem exposições, você tem concertos, você tem toda uma atividade intelectual que não havia no passado. Por isso, a Academia hoje é tão procurada pelos escritores. A cada vaga que se abre você conta no mínimo dez candidatos, alguns deles candidatos excepcionais, que merecem realmente entrar na casa. Mas você tocou, por exemplo, na questão do Paulo Coelho. O Paulo Coelho de início foi um grande problema para a Academia. Porque o Paulo Coelho escreve aquela literatura esotérica, aquela literatura que nós hoje chamamos quase de auto-ajuda. E não é um escritor que se possa, vamos assim dizer, elogiar pelas suas virtudes propriamente literárias ou propriamente estilísticas. Agora, por outro lado a Academia se fazia uma pergunta: Como é que nós vamos fechar as portas ao escritor brasileiro mais traduzido no mundo e que mais vende livros no mundo? Quem é a nossa Academia Brasileira de Letras para negar o ingresso a esse escritor reconhecido no mundo inteiro? E a quem se deve uma coisa muito singular e que as pessoas se esquecem - eu tenho para mim que muitas pessoas que passaram a gostar de boa literatura começaram a criar a hábito da leitura com o Paulo Coelho. Quer dizer, sem saber, ele introduziu na alta literatura muitos de seus leitores. Então, é mais uma benfeitoria que nós temos que reconhecer no caso de Paulo Coelho. Eu pessoalmente, não sou leitor de Paulo Coelho. Eu não consigo ler os livros de Paulo Coelho, agora, eu sou amigo dele. Amigo de longa data.

OP - O senhor já tentou ler algum livro dele?
IJ - Teve um que eu até caminhei até certo ponto e quase cheguei ao fim, que foi O Diário de um Mago, que eu continuo a achar que foi a melhor coisa que ele escreveu. Mas, é a tal história, eu não sou leitor não é por culpa do Paulo Coelho. É porque eu me habituei a ler outro tipo de literatura, eu sou leitor de outros autores.

OP - Como o senhor vê o grande fenômeno literário internacional em que Paulo Coelho se transformou?
IJ - Olha, eu acho que o segredo do Paulo Coelho foi o de num determinado momento da história do homem, particularmente da história do homem do fim do século XX, tocar em certos pontos, não só da emoção, mas também da necessidade que tinha esse homem da agonia do século passado. O Paulo Coelho conseguiu descobrir o que esse homem precisava naquele determinado momento. O século XX foi um século excepcionalmente pesado, um século que teve que carregar a herança de duas guerras mundiais. De modo que se criou a partir da segunda metade do século XX uma espécie de salvacionismo, de redenção. E, estranhamente, o Paulo Coelho estava antenado para essa necessidade. Então, ele começou a falar de temas a respeito dos quais esse homem em agonia que estava tentando se salvar queria ouvir. Nesse sentido ele falou para muita gente. Nesse sentido ele conseguiu se comunicar de uma maneira extraordinariamente satisfatória com os homens de todos os continentes. De uma certa maneira, ele captou essa necessidade criada por uma angústia universal.

OP - A poesia é indispensável?
IJ - A poesia sempre foi indispensável. Mas a mim me parece que, ao contrário do que outros pensam, eu não creio que a poesia tenha uma função social. Isso não quer dizer que a sociedade possa dispensar a poesia. Não é isso. Eu apenas não acredito muito naquela verdade de que a poesia vá mudar a sociedade. Eu acho que o que vai mudar a sociedade são outras coisas. E aí, do ponto de vista de algo que tivesse alguma função social, eu acho que a poesia fica um pouco sem função nenhuma porque um dos principais objetivos de qualquer poesia que se escreva é a beleza. E a beleza, como já disse Oscar Wilde, é uma coisa absolutamente inútil.

 

 

 

Velazquez, A forja de Vulcano

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Benedicto Ferri de Barros

 

 

 

 

 

14.08.2008