Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Adaucto Gondim

17.01.1915, Pedra Branca, CE; 
12.09.1980, Fortaleza, CE

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Poesia:

 

Alguma notícia do autor:

ADAUCTO Soares GONDIM, sítio Andreza, Pedra Branca, CE, 12.09.1915. Filho de José Soares Gondim (José Fenelon) e de Nazária Soares de Nazareth, raízes nos inhamuns de Independência, CE. Foi inspetor de ensino e jornalista. Escrevia sob o pseudônimo de Laurindo Fonseca. Trovador e sonetista, publicou vários livros de trovas com J. G. de Araújo Jorge e Luiz Otávio (Ed. Vecchi), e também "100 trovas de se tirar o chapéu" organizadas em parceria com o poeta Ciro Colares, esgotados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Elaine Pauvolid

 

Rita Brennand

 

 

 

 

 

 

 

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Um esboço de Leonardo da Vinci, página do editor

 

 

Adaucto Gondim

 

Um pequeno bloco de sonetos

 

SONETO DA PRIMEIRA VIAGEM
A PEDRA BRANCA

Era o negro Ricarte quem guiava
a burra pela estrada a passo lento
a Pedra Branca mais se afigurava
dentro da tela do meu pensamento.

Íamos andando e já se aproximava
a hora exata do deslumbramento:
transposto o alto lá embaixo estava
minha cidade toda em movimento.

Eram casas de cores misturadas,
o açude com roupas espalhadas
do povo e que seu nome recebeu;

e meu olhar curioso de menino,
à procura talvez do seu destino,
por ruas e vielas se perdeu.

 

 

BOA VIAGEM
 

Não é lenta, é verdade, antigamente
um romance de amor aconteceu
no meio do sertão ardente e quente
a cidade nasceu, viveu, cresceu.

O drama inda perdura. Antiga gente
revela que o cavalo esmoreceu
no meio do caminho. De repente
a moça fugitiva recorreu.

A viagem para ter boa viagem.
Deu-se milagre e uma nova imagem
mostrou a estrela larga da esperança.

Afastou-se o perigo inicial
e foi erguida a igreja sem tardança
com marco de amor em pedra e cal.

 

 
 

PEDRA BRANCA 
 

Com aparecia de mulher faceira,
branca de neve, em dias de invernada,
Na Santa Rita, a serra algodoeira –
a minha terra encontra-se encravada.

É pedra Branca, sempre hospitaleira,
cheia de luz, em noite enluarada.
minha cidade, esbelta e feiticeira, 
de silvestre perfume embalsamada.

Longe de mim. Eu fico a recordar
a pedra branca que me faz pensar
na infância triste, na ilusão passada.

Claras manhãs, das aves a alegria,
minha cidade de plena luz do dia
também de sol é “loura desposada”...

 

 

 

NOVA RUSSAS 
 

É sempre nova no progresso,
que se sente existir se aqui se vem 
decantar a cidade em simples versos,
recordar quem se foi para o Além.

Meu pensamento agora deixo imerso
nas sombras do passado. E já ninguém 
pode evitar que  aumente, no meu regresso
a saudade que, às vezes, não faz bem.

Nova Russas da dor, a tua manhã
é sombra para mim, ou só tristeza, 
depois que aqui morreu a minha irmã.

Elevação de prece em campo santo,
gelo da morte, círios sobre a mesa,
gotas de orvalho – pérolas de pranto.

 

 

 

MONSENHOR TABOSA
 
Mulheres – lavadeiras vão passando
direção ao “Governo” -  o poço antigo,
o cavalo do Honório estão selando
e o Teixeira jogando com um amigo.

No balcão do Salu estão comprando
bolacha, rapadura e pão de trigo,
e à noitinha, malandros vão chegando
à zona das “barracas”, que perigo:

Cidade que desejo cor-de-rosa,
sem lutas, sem querelas, com progresso
pois muito quero a Monsenhor Tabosa,

das noites de canções, das serenatas,
de lembrança gravada no meu verso,
de aventuras vividas com mulatas.

 

 

 

REENCONTRO COM INDEPENDÊNCIA

Terra dos meus avós. Tudo é saudade!
as histórias douradas de sereia
da minha meninice à alacridade
das noites de ciranda à lua cheia.

O alvorecer da minha mocidade,
com o despontar do amor, que alma encandeia,
eu vi chegar aqui nesta cidade,
quer hoje revejo e que inda tanto enleia.

Andorinhas na torre da Matriz,
os amigos da infância, que participaram,
Cordolina, (morena) a meretriz.

Reencontro tudo que existia em mim:
sonhos da infância, sonhos que fugiram,
minha esperança que chegou ao fim.
 

 

 

ICÓ

Para contar-te a gloria é necessário
pedir inspiração ao próprio Deus,
rezar, com contrição, no meu rosário,
e sentir  emoção de um grande adeus

Repassar um antigo calendário,
ter crença e abraçar-me com ateus,
fugir, apavorado, de um otário,
burilar, com cuidado, os versos meus.

Salvados. Tradição. Lutas.n o pó
que se ergue do leito dos caminhos
que nos levam feliz ao velho Icó.

Sinhazinhas. Escravos. Tudo, enfim,
que sinto sacudir-me, em remoinhos:
a história do passado é meu jardim.

 

 
 

EM AQUIRAZ

 

Abro a janela do sobrado escuro
porque não quero mais fazer visagem.
Quem foi que viu a moça que procuro?
Tornou-se sombra ou realizou viagem?

Vejo legenda vertical no muro,
só há mistérios nesta antiga imagem,
que venham logo sábios do futuro
dizer que teve por aqui passagem.

Os vestígios do tempo são pilares
a ponte do passado suspendendo
através de saudades seculares.

Quero partir, fugir do que passou,
mas não posso fazer. Estou vivendo
as lembranças que o tempo não gastou.

 

 

ARARIPE

O dia amanheceu, cantou o galo,
na casa do Girão tinha menino
novo chorão, querendo já cavalo
para montar em busca do destino.

Nasceu poeta e por aqui eu fico
só para ouvir o som de um violino:
meu velho professor sou teu vassalo
e ante ti serei sempre pequenino.

Araripe diante, um mar de sonho,
meu pensamento quando em ti reponho
sinto mais forte o coração vibrar.

A tua história deve ter mais brilho:
Girão Barroso teu dileto filho.
Quem foi que disse que te sei cantar?

 

 

 

ARATUBA 

A dália, o cravo, o bugari, a rosa,
a papoula vermelha, que incendeia,
o céu mais perto, a terra mais formosa,
as abelhas, em festa, na colméia.

A sensação da terra dadivosa
para todo campônio que semeia;
em tudo a natureza é carinhosa
para tudo pisa as ruas desta aldeia.

Quero ficar agora, preso ao golfo
do mar da relva, em paisagem antiga,
tendo Aratuba como um mundo novo,

onde viveu tranqüila e sempre amiga
a pessoa boníssima de Adolfo
Lima, que está no coração do povo.