Jornal de Poesia

Soares Feitosa

Da Vinci, La Scapigliata

A lágrima súbita

Da Vinci, La Scapigliata

 
Porque o medo não é outra coisa 
senão o desamparo da reflexão.
(Livro da Sabedoria, 17,12)

           

Nenhuma grande chuva  
jamais encheu  
o mar; 
nenhuma seca do Ceará conseguiu baixar  
o nível das águas 
deste mar-oceano; 
logo, 
esta lágrima súbita, 
neste  mar salgado, é inútil  
como volume. 
 

— De que medos tenho coisa? 
 

Transito eu - ela disse - entre o abismo  
e a lembrança;  
que agora, 
neste borrifo de espuma e brisa, 
os escorridos da minha face me confundem: 
 

               — serão de mim,  
               serão do mar? —  
 

— De que medos tenho eu? 
 

Por que agora uma lágrima, 
nascida num canto de minha face, 
quando lágrimas  
só as conheço de alegre? 
 

Seria este azul de mar  
profundo, fundo, 
cheio, soturno, 
a fonte obscura do meu terror? 

                Se eu chamar a reflexão, 
                aplacadas serão minhas aflições? 
 

Ou, mais prudente clamar pelo sonho, 
que prefiro imaginar, agora: 

                (optei pelo sonho,  
                claro que é sonho) 

esta vontade de fugir 
e cavalgar horizonte e brisa, 
tanger os ventos no corcel dos meus cabelos, 
navegar os azuis e céus na esquina de minha face 
e quando gritar por lágrima, 
venha, senhora lágrima, 
eu quero 
eu preciso chorar, 

        :::::::::::::::::::::::::: 

:::::::::::::::::::::::::: 

e de surpresa, 
quando olhar de lado, 
é sonho, claro que é, 
reencontrar, 
no vento ligeiro, 
a fuga dos teus olhos!?

 

Salvador, mormaço da tarde, 25.11.95

Da Vinci, La Scapigliata

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Maria Azenha


Que as lágrimas levantem vôo

agora mesmo
és 
um cisne.

os teus lagos são jardins do Nada

há pássaros infinitos à revelia e
cultivas laranjas em varandas
de fogo                                    

secretos vasos

desço então pelas tuas asas
de lágrimas:
de
neve
e
ouro

depois nada mais faço

que as lágrimas levantem vôo
da tua

infinita    

face

 

Maria Azenha

Lauro Marques

 

 

 

 

 

 

 

Débora Novaes de Castro


From: "Débora Novaes de Castro" <debora_nc@uol.com.br>
Sent: Thursday, November 25, 2004 9:21 PM
Subject: A LÁGRIMA SÚBITA dnc

A LÁGRIMA SÚBITA
"...
esta vontade de fugir
e cavalgar horizonte e brisa,
tanger os ventos no corcel dos meus cabelos,
navegar os azuis e céus na esquina de minha face
e quando gritar por lágrima,
venha, senhora lágrima,
eu quero
eu preciso chorar,
..."


Com que finuras o poeta tece a teia mágica da sua poesia... ele é o narrador ébrio  de sonhos, o cavaleiro da "lágrima súbita", que retempera a alma e a faz sonhar de novo; o cavaleiro  do tempo, guiado pelo mapa da própria face, que grita, que implora  pelos favores  da  "senhora lágrima", o anjo líqüido translúcido, que o batizará de novo
É mais um belo poema, de Soares Feitosa.
 
Débora Novaes de Castro

Fábio Rocha

Domi Chirongo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 
 
 
 

Da Vinci, La Scapigliata

Da Vinci, La Scapigliata