Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova. 1864.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), João Batista

 

 

Soares Feitosa

Perdidos &   Achados   

     

Abram-se as janelas,
aqueles canários fugidos da gaiola
podem voltar.
 

Rebaixem a porta, 
aplainem o batente, 
removam-se os obstáculos,
que aquele gato, de nome Banduco, 
preto,
rabo de neve, 
também preta,
patas macias, brancas,  e um ronronar suave
que um dia fugiu,
deve voltar.
 

E se alguém perguntar por mim,
eu não fugi;
se tiver saído, foi só um pouquinho,
jájázinho estou de volta;
mande sentar,
sirva uma água fresca,
a hospitalidade,
receba,
receba bem, mestre Antônio.
 

Sim, mestre Antônio,
ela também!
Se for calor, sirva-lhe um sorvete
de maracujá;
se for frio, um chocolate
quente;
mas especial
atenção
dê aos canários,
ao gato Banduco;
procuro também um pião de soltar
que me fugiu no ar,
ia-me esquecendo.
 

Pergunto-lhe por  uma arraia
que se despregou do barbante,
e se levou 
ao vento.


Indago por um cinturão de celulóide,
corzinha creme,
que servia de brincar 
de enrolar-e-rolar,
nos regos da rede
nos dias 
de febre.


Também indago sobre uma caixa de besouros,
que depois lhe conto;
e sobre uma sovela que eu mesmo fiz, 
de aço,
para furar pau-de-malungu,
gaiolas.


Ando louco, mestre Antônio,
verdade mesmo,
é por um par-de-olhos,
amarelos
e furta-cores — 
furtavam
conforme o tempo —
onde me perdi 
e furtei
e guardei
que onde não sei...
e procuro e procuro
que procuro
desde.

 


Mestre Antônio, por favor,
revire tudo, 
todos estes troços que têm grande valor
só para mim porém,
e que nada valem,
assim me disse um dono de ferro-velho,
que emoções não se compram.

.
Revire-os, 
desencave,
quem sabe debaixo destes livros,
sob grossa poeira
destes trastes todos,
saltem,
mola do tempo,
dois olhos
perdidos,
[...]
achados
e a noite cinza.
 

    Acho qu'estão por aí debaixo,
    mestre Antônio.
    Revire.
     

    Vou dar uma volta,
    e no retorno, 
    me dê notícias do que achou,
    de quem voltou,
    se alguém ligou.
     

                                     Anote.
     

    Salvador, noite leve, 29.07.1997

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Da generosidade dos leitores

 

  

 

 

 

Maria do Carmo Vieira-Montfils

 

           Gostei muito do poema "Perdidos & Achados". Apesar da busca incessante de perdidos ou fugidos, o poema transmitiu-me uma certa sensação de serenidade. A seqüência dos elementos procurados, bons ou maus ("mesmo aquela, a das má-criações"), vai delineando toda uma trajetória de vida, da qual não se foge e não se quer fugir ("eu não fugi") e, mais que isso, é bem recebida, com toda a hospitalidade, construindo a maturidade. 

           Uma outra pessoa, para quem mostrei o poema, também gostou muito e interpretou-o como saudosista, nostálgico, propiciando-lhe um mergulho em tempos encantados.

           Eis aí a magia da poesia, tão presente nos poemas do autor: abrem-se sempre novas janelas, a cada leitura.

 

  

 

 

Iza Calbo
 

Soares

 

É. Há de se dar gatos aos canários e sorvete de maracujá em tempos quentes a quem chega. Há de fazer de tudo, entre ferros e arames farpados, mesmo que o dono do ferro-velho despreze a valiosa carga do sentir. Há que se encontrar, nas páginas deste mestre Antônio ou to tal Soares Feitosa, madeira de lei para construir camas fortes para os fazeres do amor.

Iza

 

 

Wilson Martins

 

Um poeta da terra nordestina

 

Para Soares Feitosa, o mundo existe, não como paisagem,

mas como bloco existencial de matas e rios

 

É Soares Feitosa ("Psi, a penúltima". Salvador: Papel em Branco, 1997), poeta da terra nordestina, não pelo pitoresco exótico, mas como integração pessoal e orgânica, como parte física e palpável do Brasil, como visão ao mesmo tempo épica e lírica do rincão natal. Pertence à família dos nossos poetas da terra, os Joaquim Cardozo, Ascenço Ferreira, Raul Bopp, Juvenal Galeno, Thiago de Mello, mas, é preciso dizê-lo, com amplidão muito maior no que se poderia chamar a incorporação cósmica. 

Segundo a frase célebre, é um homem para quem o mundo exterior existe, não como paisagem ou quadros de uma exposição, mas como bloco existencial de matas e rios, pássaros silvestres e animais domésticos, homens e mulheres em estreita convivência com cavalos e cabras, burrinhos de carga, a família e o meio, cenas da infância, as estações do ano, humanidade e ecúmeno de que faz parte, expressa, aqui e ali, com fervor patriótico. E, dominando tudo, o fator catalítico do tempo que passa e do tempo que dura. 

Para ele, a Pátria são os caminhos que pisa, as armadilhas de caçar passarinhos, as cobras que rastejam, as abelhas que produzem cera e mel, a paisagem esturricada, as montanhas e as árvores que conhece pelo nome, as frutas e os campos, o sofrimento do homem, a tragédia do clima e o milagre da chuva, a resistência resignada com que aquele mundo enfrenta a adversidade, a recompensa das manhãs e a impiedade do sol, o sentimento de abandono em que a região é mantida. Não são temas "literários" e o ufanismo de Soares Feitosa nada tem de simplório: é, antes, com amargura e revolta que encara a realidade: 

"Auriverde pendão de minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança... famintos do meu Brasil precisam sonhar com um pão. Não há país como este, em se plantando, ó Caminha, sim, plantaram, plantaram nas algibeiras onanistas do metal. Em se plantando, seu Caminha, o que dá, não dá, o que deu, não deu, nunca deu... o que deu, o gato comeu, o que deu, o rato roeu". 

Os motes gerais dessa poesia, nas suas próprias palavras, são a infância, o chão, os matos, as pedras, os céus, as águas, o sertão, os bichos grandes e miúdos, oficinas e tralhas, cheiros e sons! mofumbos & alecrins, perfumes — tudo expresso no idioma dos grandes poetas universais, ecos da poesia primeva, Homero e Saint-John Perse, Walt Whitman e Victor Hugo, porque Soares Feitosa não é um "ingênuo" do romanceiro popular, não é o falso sertanejo da cidade nem o verdadeiro sertanejo iletrado, mas o sertanejo autêntico hipostasiado em poeta culto. 

É a "matéria do Nordeste" que forma a substância dos seus cantos épicos e dos seus transportes líricos, como na extraordinária "Antífona", uma das mais belas odes jamais escritas em língua portuguesa. É poema a ser lido por inteiro e em voz alta: "Venho de outras terras, meu capitão, não sou da beira do mar, eu venho desd’onde uma bola de fogo, volúpia de luz, volúpia de cor, cavalgava o horizonte e desabava, queda brusca por detrás da serrania (...)". 

As suas raízes humanas e poéticas, como as de Homero (literalmente evocado), estão nos cantadores das gestas populares: "Acudam-me os cantadores: Ignácio da Catingueira, negro e escravo; Romano da Mãe d’Água; vocês também fundaram o galope, a cantoria; Pinto do Monteiro, Otacílio, dos Batistas, a batistada toda, venham todos (...). 

Leiam o saboroso "Rio Macacos": "Rio?! Quem chamaria aquilo de rio? Era apenas uma grota risível (...)", explicando nas notas didáticas que acompanham todos os poemas: "Rio Macacos, nem sei se ainda existe, mas lhes garanto que água ele não tem!".

Soares Feitosa traduz o folclore em versos literários, escritos num idioma culto, sem concessões tolas ao populismo de carregação, assim escapando dos lugares-comuns previsíveis e estafados: "O sol, ainda ferro de brasa, chiando como um ferro de ferrar boi, soltando chispas, para bater a poeira, as fagulhas do dia, abanar-se um pouquinho da tarde quente, se esfregava nos penachos da palmeira mais alta (...)."

A mais a seca, maldição divina, seguida pelo milagre da água: "As águas em minha terra são efêmeras,/ parideiras, fêmeas, efêmeras eram as águas...". Com a primeira chuva, explodem as sementes mais apressadas: "Noutra chuva,/ outra leva nasceu (...) e mais outra, sempre mais uma leva/ de sementes nasciam e sucumbiam/ um raspar das enxadas (...)". [Panos Passados] e [Dormências]. 

Anexado ao volume, Soares Feitosa oferece ao leitor o contacto físico com o Nordeste e o Brasil antigo, sob a forma de um envelope com sementes de imburana-de-cheiro, por ele mesmo torradas e moídas: é o perfume da terra que perpassa pela obra, não só em sua materialidade física, mas também como representação por assim dizer olfativa da poesia da terra. 

Trata-se, então, de um poeta sertanejo, limitado ao regionalismo típico das letras? Longe disso: é um poeta lírico de harmônicas universais, inclusive as sugestões místicas; é também um saudosista, na medida em que são por natureza saudosistas os temas históricos e as evocações sentimentais, inspiração para belosWilson Martins poemas, como, por exemplo, "Perdidos e achados". 

Não podemos tampouco ignorar-lhe o lado ultra-moderno, criador do "Jornal de Poesia" pela Internet, em 1996, por não haver encontrado nenhum texto de poesia em língua portuguesa pelas ondas etéreas da eletrônica. E agora lá estão eles, os poetas, consagrados e principiantes, o que já é, em si mesmo, uma forma de poesia: a poesia do nosso tempo.

 

[Fac-símile de O Globo (Prosa & Verso), página inteira, com ilustração, 26.4.1997].  

 

 

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Aurora, William Bouguereau (French, 1825-1905)

 

 

 

 

Crepúsculo, William Bouguereau (French, 1825-1905)