Jornal de Poesia

Soares Feitosa

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

Noite, dois excertos

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Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

 

 

1. 

Bromélias

 

Noite igual por dentro ao silêncio, Noite
      Com as estrelas lentejoulas rápidas
          No teu vestido franjado de Infinito.

[Álvaro de Campos] 

 

 

Um retrato distante,

mostrei-lhe a efígie:

uma moça distinta, muito bonita. 

Parece com você — disse-lhe.

 

Ela disse: Parece não, é muito séria. 
 

Eu disse: "É não! Ela é 

uma poeta dos aurorais,

os sóis do pântano". 

Ela perguntou se tinha bromélias. 

 

Eu disse que bromélias, com muito espinho e muitas 
abelhas e seus ferrões,

todo o tempo, eram-lhe 
[as bromélias, os espinho, as abelhas], 
eram-lhe os olhos. 
 

Não reparei 
se enrubesceu; uma liminar,

essas banalidades do "pncd" — 
o pão nosso de cada dia — o cliente ao telefone; 
e então a noite tomou conta outra vez.

 

2. 

Os desenhos

 

E todos os desenhos eram prévios. 

Até mesmo o gesto: 
pegar uma xícara, coisas banais, 
riscar um risco, o dizer que sim, 
levantar da cadeira; eram prévios 
todos os desenhos. 

E bebíamos e nos ríamos às coisas fúteis, 
e nos dizíamos duma casinha bem branquinha, 
como se à mata, os regatos 
já rumorejassem a nossos pés. 

— Que mais queres, leitor ávido de coisas? 

Uma montanha? Exiges uma montanha, 
que eu te fale da montanha? Pois havia montanha, 
sim; o horizonte encurvava-se ao nosso olhar, 
profundamente 
às coisas de que aos olhos... 
                                                            E eram 
excessivamente prévios todos os desenhos.

 

Agora, 
este triturador de papel.

 

Fortaleza, 13.11.1999, noite alta.

 

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Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

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Da generosidade dos leitores

 

 

 

 

 

Aníbal Beça

Amigo Feitosa, 

A cada dia você se encorpa às coisas da poesia. Faz do cotidiano, sonhos; e dos sonhos: poemas. Tudo com sintaxe e dicção, próprias. O prosaísmo assume ritmo plural, na cadênciaAníbal Beça imposta pelo regente, que é você, nessa dança de palavras. O resultado convida-nos, a todos, a entrar e dançar sem cerimônias. Dessacralizando o solene, flechando com o aparente ordinário do dia a dia, as sobras sem importância. Tudo é matéria de poesia. Concordo. Difícil, em toda obra de arte, é reciclar a matéria poética. Mas em você, essa habilidade tem se assumido constante. Parabéns.

Grande abraço 

Anibal Beça

 

 

 

André Seffrin

Meu caro amigo Feitosa,

 

E cá estou eu, "leitor ávido de coisas", fruindo seus dois novos poemas. Não tenho o que dizer. Que dizer? "As bromélias, o espinho, as abelhas." O resto é silêncio.

Abraços de seu fiel leitor

André Seffrin

 

Flora Ferreira

Soares,

brilhante essa noite alta em Fortaleza. E essas bromélias que fazem e não fazem parte da Flora nesse seu enredo me enredaram até o fim.Valeu poeta, parece que Fortaleza tem um veio lírico muito intenso e vasto. Já conheci dois poetas extraordinários dai. Até me apaixonei por um[pelos poemas]. Isso aí deve ser uma paraíso para tanta inspiração. Sete anos de pastor Jacob servia a Labão pai de Raquel serrana bela... Será para tão longo amor tão curta a vida? Então curta...

Um abraço de bromélias pra você

Flora F.

 

Rosel Soares

Poeta!

A facilidade com que as palavras furam meus/nossos olhos, ouvidos, cérebros e corações deve-se unicamente a escolha acertada que você, lapidador, empreende durante as "altas noites" do Ceará. Eu me impressiono, verdadeiramente eu me impressiono. E é uma sensação gostosa da porra estar lendo versos seus.

Por exemplo: tu sabes que minha situação financeira não está nada boa. Mas enquanto ouvia você falando que "...agora de manhã, mostrei a advogada, ela trabalha aqui comigo", juro que esqueci do "pncd" e vivi (por instantes, é verdade!), como o mais abastado dos homens aqui na terra. Esqueci do que podia esquecer e lembrei do que devia lembrar. Viajei!...

Conclui-se: você é um ilusionista, um enganador, um homem cuja crueldade parece não ter fim. Por que tanto talento para tanta maldade? Mas queremos ser iludidos (precisamos), enganados (é importante) e aniquilados (é morte feliz) por causa de seus versos satânicos. 

Escreva-me mais! Mande-me novos versos! Pois, se o "pncd - pao-nosso-de-cada-dia" está sendo difícil de arrancar do solo canadense (estou sendo dramático demais, aplique o desconto!), que pelo pelo menos a "pntd - poesia-nossa-de-todos-os-dias" não nos seja negada. Pois que já me sinto dono dos teus versos. Vai ver, o processo é esse mesmo. Escreveu, desenhou, computou, publicou..., já era, não te pertence mais. É de quem lê, aprecia, cita, divulga...

Fiquei feliz porque você manteve  o verso "Ela perguntou se tinha bromélias". Perfeito!

Não sei criticar poesia (ainda bem!). Mas sei quando um verso vale a pena!

Abraços sinceros!

Rosel

 

Elizabeth Lorezontti

Soares, 

 

Vejo que o poeta continua esbanjando inspiração por essas noites altas. Muito lindas poesias, melhor ainda lê-las ao chegar num plantão dominical deste vetusto órgão de imprensa do qual sobrevivo. Poesia, salve a Poesia, só ela, sabemos pode nos salvar.

Um grande abraço

Elizabeth 

 

 

Gizelda

 

 

 

From: "gizelda" <gizelda@hiway.com.br>
Sent: Sun, 14 Nov 1999 15:18:00 -0200

 

Que bonito! 

Adorei os poemas, em especial o segundo - Os desenhos. Gosto também da expressão - noite alta - com que você os conclui, pois criam o clima perfeito para que as palavras se soltem e saiam por aí, buscando as almas que estão à espera delas. 

Gostaria de devolver a mensagem com um poema meu, mas já vai longe o tempo em que deixei de criá-los. Ao optar por ser professora de literatura (sou advogada por formação primeira) meu cotidiano encheu-se de tantas belas poesias que passei a sorvê-las ao invés de criar outras. Porém, continuo sentindo enorme felicidade sempre que vejo alguém escrevendo, seja lá o que for, principalmente poesias. Tenho alunos jovens e maravilhosos, sonhadores, temos tardes inteiras de poesia. É muito belo ver a luz brilhando nos olhos deles, quando descobrem algum novo poeta.

Um abraço,

Gizelda.

 

Hilton Deives Valeriano

 

From: hilton.dv
Sent: Friday, October 10, 2008 9:24 PM
Subject: E a vida?

 

Poeta Soares Feitosa, escrevo para saber como andam as coisas. Mesmo sem ter obtido resposta do e-mail anterior. Relendo seus panfletos poéticos lembrei de sua grande atividade de divulgação de poesia.  Em um mundo utilitarista como o nosso seu amor pelas letras torna-se heróico. Estou cursando o mestrado na Unicamp, sempre divulgo seu trabalho e seu nome. É uma pena que a academia na maioria das vezes é míope para a poesia e trabalhos como o seu. Noite, dois excertos: a poesia como desvelamento. As exigências do cotidiano (o maldito funcionalismo!) como ruptura dessa dimensão. Lírica moderna sem abandonar a tradição: eis sua poesia. Lendo sobre a biblioteca Cururu, não pude deixar de pensar no Mindlin. Se você ainda estiver publicando esses panfletos não esqueça de mim, pois tenho muito carinho e sinto grande prazer em lê-los. Eles possuem lugar especial em minha modesta biblioteca. Seu amor pela poesia me causa grande admiração, poeta. Estou cursando uma disciplina sobre Baudelaire. Trata-se de um estudo sobre a leitura de Walter Benjamim a respeito desse grande poeta. Através dessa disciplina conheci os Cantos de Maldoror do poeta Lautréamont. O que você acha desse poeta francês? Também estou também  lendo Garcia Lorca. Grande poeta. Muita coisa se passou desde a última vez que conversamos, entre elas o nascimento de meu filho. Um abraço.

 

 

 

 

 

Leonardo da Vinci,

Cabeça de mulher, estudo