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O que o tempo há de querer?

 

 

Soares Feitosa

 

 

Ana, que também é Anna, me disse: "Ela me olhou pela vez primeira quando eu aindaA menina afegã, de Steve McCurry dava aulas. Há quase dez anos. Encontrei seu rosto na capa do livro de Ciências que eu usava na escola. [...]. Hoje de tarde subi a ladeirinha e até chegar em casa, pronunciando a mesma palavra espantada. Nossa!! Nossa!! E o êmbolo crescendo tanto quanto a ladeira, que nunca me pareceu tão imensa. O caminho habitual não me traria nenhuma banca de revista, muito menos um pôster. O que o tempo quer de nós?" 

Que, também Ana, a madrinha, um dia de tarde, aprontou a tábua em cima da pia da cozinha e disse que estava a fazer alfenins. Antes que nos cheguem os alfenins, chega-nos o puxa, e todo mundo sabe disto. Água, a tábua molhada. E, sobre a leve lâmina d'água, o mel fez-se véu e torrente. Quase quente. Acalmou-se, tomando forma de coisa que espalha e preenche. Antes, no fogo, borbulhara, quente. Espesso. Vulcano.

Noutro dia, também de tarde, desta vez a mãe, quando retirava o ar da seringa, no alto da agulha aquela gota se explodiu depois de encher completamente todo o espaço de uma gota. 

O bucho do compadre, negro, branco como uma mão-de-cal, a madrinha já lhe lambuzara o álcool. No pé, também duas gotas. Eram vermelhas. Explodidas de sol e brilho, mas eram morte. Repara bem embaixo, no canto inferior direito, o canto da boca, o delineio do lábio de cima. A mãe disse que eu fosse fechar a porta e ficasse botando sentido lá longe, que ninguém chegasse nem falasse alto que o compadre... 

Sabe-se que uma voz de agoiro pode matar. Eram de cobra, os dois buracos no pé. Seria de justo nepotismo colocar os olhos da mãe aqui. Brilhavam, sim. Cheios, plenos, explodidos. Da cobra? Os dela? E por que não?! Ninguém disse nada. Na barriga do negro, compadre Totonho, a primeira dose do polivalente do Butantã. Atalhei os chegantes. Disse-lhes que havia um "mordido". Isto basta, sabemos que sim, por lá. Um leve desmaio nos olhos brancos. Mais outra dose, com muita calma. Repara agora na penumbra da face, nessa viagem magistral entre rosto e costas... 

Lá, bem no canto do olho — despreza a pupila se puderes —, mas vê, para trás, viajando em mão de seguir, há luz de sombras. Minha mãe falava num choque. Destes de quando vemos...? Vemos o quê, meu Deus?! Não! Ela falava do momento de dosar os soros... Anafilá... 

E eram os olhos do finado. Rodantes. O brilho linear do aparelho dizia que era zero o cérebro, mas os olhos clamavam. E o cheio do lábio, em cantos vivos — desce, leitor, agora, do olho à boca. Vê, bem dentro, entre lábio e lábio. Falariam? A placidez daquela tábua de mel faz contorno, agora, no pousio da boca. Só quem sabe como é, é quem perdeu. O amigo. Juracy. O negro escapou. 

Contava para quem quisesse ouvir que quando puxara a enxada com o rolo de mato, ela, de quase dois metros veio junto. Saltara-lhe os olhos de bote e boca. Abaixo de Deus, a comadre!, ele dizia e se benzia. Então, os alfenins a caminho, mas carreguei antes as mãos de puxa. 

O suficiente para não queimar. Entre um puxão e outro, por entre os dedos, por entre as mãos, da porta da cozinha, era uma casa alta, o paredão da serra. Ali, nem ver de menos, o sol desabava para o outro lado. Meia banda de sol. O suficiente para faiscar os brilhos dos olhos dEla, muito jovem. Este eu, uns poucos meses mais, à beira do rio. Um rio seco. 

Igual a Soledade, de José Américo de Almeida, aportara por lá, filha de Fausto. Esquece os olhos. Que seja cega, pois. Vê o volume em noites sobre a testa. Repara como se trançam, eles. Os de junto da testa ali ganham reflexo! Um dia  falaremos disto. Pobreza de pobre, absoluta, era Valéria, filha de Fausto. 

Os panos eram nus. Não que estivesse nua. Não. Doutra vez foi o braço de Jorge. Acho que duma espingarda, como no pé, do Menino — Uma tragédia no mar, Navio. Saberia eu, sozinho, controlar tanto sangue? Havia um serrote. Álcool e uma lâmina de fogo. 

Desiste dos olhos, por favor. Vê este contorno agora. Repara como tangencia ao alto a linha da direita, face, sobre um contorno em negro que também ascende. Nos escuros do pano. E nada mais que aplacasse a dor. Rét-rét-rét e todo o osso. Explodia-se a dor nos olhos de Jorge em desprezo do braço de puro espanto, podre. 

E toda a dor do mundo, presumo. Cortado. E, mais uma vez eram os olhos da mãe. Então Jorge cotoqueava aquele toco e dizia que, abaixo de Deus, a comadre. E se benzia. Desiste dela em carne-e-osso e olhos! Porque já eram os jacintos boiantes no rio cheio quando se encheu de ausências. 

Ajunta-te aos panos. Às dobras, às cores, aos leves e aos ensaios de esconder. O justo olhar por sob. Hóspedes da oiticica do rio. Não, não!, não sei. Depois daqueles olhos, era a retirante do rio seco, Valéria, filha de Fausto, "aceito", sem entender, todas as violências da reprodução. O que o tempo quer de mim?! Uma vida?

 

Fortaleza, noite alta, 30.04.2002

* A Menina Afegã, foto de Steve McCurry

 in National Geographic

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[Montagem da página e recortes da foto,  

in FrontPage, by Soares Feitosa]

 

 

 

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Dênio Magno Cunha

 

From: dmagno
Sent: Wednesday, May 15, 2002 9:39 PM
A menina afegã, de Steve McCurrySubject: Re: Um ensaio sobre a menina afegã (4).htm
 
Soares, obrigado pela atenção.
Sobre o ensaio, não resisti e comprei a revista. Lembro-me quando vi pela primeira vez esta foto e a impressão que ela me causou. A ponte histórica foi fantástica.
 
Atenciosamente,

Dênio Mágno da Cunha

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