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Victor Mikhailovich Vasnetsov, The Knight at the Crossroads

A postagem deste texto nas redes sociais é um Convite ao Jornal de Poesia:

Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

 

Sim, não era a morte!


 

 

 

Os homens da gráfica mandaram dizer: “Complete as 400 páginas, não faremos acréscimos”.

Em sendo assim, sem acréscimos, conto-lhes, direto da Biblioteca do presidiário Djalma Ribeiro Cavalcante, no Carandiru (há séculos demolido), de como o poeta Hildeberto Barbosa Filho escapou da fogueira do monge cego, Guilherme de Burgos, depois que este tentara “assar” o suposto heresiarca Saramago, salvo pelo senhor Coronel.

Com a palavra o senhor Bibliotecário:

O monge não se conformava com a derrota, antes certo levaria Saramago à fogueira, com base no “Evangelho segundo Jesus Cristo”. O senhor Coronel ainda zombou que “Evangelho” inteiro, de Saramago, fora escrito tão somente para ofertar, secreto, “a quem sabe ler”, o poema que ele recitara, capítulo anterior, dos passarinhos de Tomé”.

Pelo sim, pelo não, lenha seca à disposição, o monge não deu trégua. Informou que agora seria a vez do poeta que pecara contra a Vida, o dom da Vida, o prêmio da Vida que, segundo ele, não pertenceria a quem está vivo, mas a Deus — “não cai uma folha, nem um cabelo...”.

— Senhor Hildeberto (com as qualificações de praxe), vossa excelência confirma a autoria desta infâmia contra Vida? Aliás, vossa excelência não precisa perder tempo com qualquer defesa, uma vez que, poucos dias após este texto infame, publicou outro garantindo que não cria em nada, monges e ministros da Palavra, inclusos. Sua pena é a fogueira!

Silêncio absoluto. Algum pranto, afinal os amigos do poeta, todos presentes. O medo! Sim, medo total. Quem seria louco para apoiá-lo, ao risco de cumplicidade?!

— Um instante, senhor monge Jorge! — era o Profeta, o Camundo, “pareceiro” do senhor Coronel, que nesta mesma Biblioteca (a minha modesta cela), num lance de grande audácia, defendera o tio do poeta Jorge Tufic, salvando-o do fogo eterno, episódio Ma Fi Allah!, neste livro, página 146.

— ?

— Senhor monge, o Coronel me garantiu que o poeta Hildeberto é inocente, no mesmo grau de santo, tanto quanto o Saramago.

— Senhor Camundo, o acusado não renegou os escritos, nem os da morte, nem os do increu. Onde está o senhor Coronel? Vamos ouvi-lo, para que não me acusem de arbitrariedade.

O senhor Coronel saíra, sem que eu visse; fora ao pátio e já retornava com uma braçada de rolos. Rolos? Isto mesmo, foi desdobrando-os e distribuindo aos presentes. Eram pergaminhos, em couro de bode, que o poeta Virgílio Maia os fizera, justo a tentar salvar o amigo, dele também, Hildeberto. Ganhei o meu evidentemente, todos ganhamos. Não foi dito quantos bodes mataram para tantos panfletos, aliás, “plaquetes”, assim me corrigiram. Evidente, muito bom tivessem trazido algumas “mantas de Tauá, salgadas e temperadas”, a aproveitar o braseiro, na hipótese de ninguém ir ao fogo. Certamente recusaríamos churrasco de bode gordo do Tauá, em meio ao fumacê de algum cristão. Assado, por mais herege que fosse.

O Coronel pegou a plaquete dele, com o autógrafo do outro poeta, Virgílio Maia, fez as reverências de praxe, e recitou, no tom, na clave, no trom, tal qual sabe fazer, disto sabemos que ele o sabe:


Hildeberto Barbosa Filho
(Pensamentos provisórios)

Fazer o que?
Meu cavalo Baudelaire morreu.
Meu avô morreu, minha irmã
morreu,
minha mãe morreu,
[...]


meu pai morreu; morreram
meus primos, meus tios,
meus amigos.
Morreu a hortênsia mais rara
de meu jardim. Morreu meu jardim.
Morreu
[...] [...]


meu muro, meu oitao, minha sombra
debaixo do abacateiro, meu pé de acerola,
minha glória de poeta menor
e de autor provinciano.
Morreu
[...]

o melhor livro que li.
Morreu o mágico silêncio
que se desenvolve no esquecimento
de minha biblioteca. Morreu
a minha biblioteca. Morreu
[...]

meu desejo de viajar, de acumular
qualquer bem que não seja
a gratuidade de existir.
Morreu
o meu velho e pegajoso passado.
E com ele aqueles dias tristes
que ainda me doem, a pluma
de um olhar que se perdeu
na bruma da noite, uma solerte carícia
feita no tempo
dos minutos imaculados.
[...]

Morreu o amor perfeito. Morreu
a tirania do juiz, a alergia do padre,
a farmacopeia dos inocentes,
tudo que parecia viver na minha cidade.
Morreu minha cidade.
E morreu completamente. Morreu
a minha voz,
[...] [...]


a minha fala,
o meu pensamento,
a minha fantasia.
Meu verso também
morreu.
Morreu o meu poema.
Todas as letras de cada palavra
morreram.
O túmulo da linguagem
[...] [...]


morreu.
Morreu a linguagem.
Morreu o homem.
Morreu sua memória,
sua vergonha,
sua melancolia.
[...] [...] [...]




Uma salva de não ter tamanho! Muitos disseram que, poema tão bonito, quem o fez não poderia ir para a fogueira. O senhor monge, pasmem!, concordou quanto à beleza, elogiou também o vigor/voz do senhor Coronel, que nem parecia um ancião bstante “sofrido” nestes dez mil anos do Século Cem, de Ésquilo.

Reclamaram, porém, que o original do Facebook não trazia nenhuma reticência, nem colchetes.

O Profeta comentou que o senhor Coronel o recitara como se um salmo, um psalmo, de morte, é certo, mas um salmo, com as “selás” de marcação, as pausas, Música & Poesia — e suas pausas.

— “Selá”, senhor Profeta, o que é isto? — indaguei.

O Profeta contou, que no tempo do senhor Coronel na Cidade da Bahia, vários poetas reuniam-se no Ondina Apart Hotel, no saguão da piscina para recitar, aos berros, aos peixes, às águas e às aves dos céus, dentre eles, presentes em minha modesta cela deste Carandiru há séculos demolido, os poetas Cajazeiras Ramos, Aleilton Fonseca, Gláucia Lemos e outros que não lembrava agora. Contou que numa daquelas reuniões, o poeta Aleilton Fonseca, que preparava doutorado sobre Mário de Andrade, levara “Meditação sobre o Tietê”, um poema longo, imenso, sem qualquer pausa, laudas e laudas, o senhor Coronel pediu para ver e, imediato abriu o “bocão” para cima do poema, que jamais vira, e o recitou como se fora o “Navio”, de que ele diz saber todos os pontos e as vírgulas.

— Naquele poema do tal Mario de Andrade, foi quando eu ouvi a primeira vez a palavra Selá, Selah, coisa assim, que o se nhor Coronel explicou que só poderia ser aplicada em poemas de qualidade, dos Salmos para cima. Aliás, do mesmo nível dos Salmos, retificou, com medo do monge que já o olhava de viés.

— Assim com três pontinhos, senhor Profeta? — perguntei.

— Não são três pontinhos, senhor Bibliotecário Djalma, mas um caractere único, formado por três pontinhos, porém digitado e impresso de uma só vez.

— De uma só vez? Como assim?

— O Coronel quem ensinou, senhor Bibliotecário! Manter a tecla “Num-Lock” pressionada; clicar “Alt” e, ao mesmo tempo, os algarismos 0133: pronto, a reticência surgirá na tela, assim, ó: ... Nada a ver com dois, três ou vários pontinhos seguidos.

— Senhor Profeta — perguntei — no pergaminho do couro de bode, aliás, na plaquete finamente elaborada pelo poeta Virgílio, nalgumas passagens, constam duas selás?

— Sim, meu caro Bibliotecário, para sinalizar, tal como na Música dos Mestres, uma pausa dupla...

— Colocaram três selás no final, por quê?

— Ora, senhor Bibliotecário, a pausa maior, aquele vergar de espinhaço do senhor maestro, igualzinho, assim nos ensinou, na Cidade da Bahia, o senhor Coronel. Aplausos! Esses poetas e maestros não pensam noutra coisa. Aplausos! Preferem dormir com fome, a perderem um aplauso!

O senhor monge cego mostrou-se bastante interessado na “tecnologia”. Ganhada a explicação, gratuita, inclusive dos selás duplas e triplas, arremeteu:

— Senhor Bibliotecário Djalma Ribeiro Cavalcante, vários acusados para julgar e justiçar, não podemos perder tempo. Mande, por seu favor, dominar o herege, metam-no na camisa de força e, imediato na fogueira. Temos lenha suficiente?

— Um instante, senhor monge Jorge! — Falou o Coronel.

— ?

— Quando o poeta Hildeberto Barbosa Filho escreveu este poema tão belo? — Por favor, nos esclareça, senhor monge Jorge de Burgos, por favor.

— Primeiro, senhor Coronel, isto não é poema; pelo contrário, um insulto contra a Vida que Deus nos concede enquanto Ele servido for. Segundo, o acusado não tem mais nome, perdido que foi com a perda da cidadania perante a Santa Madre Igreja... Ah, a data?, vamos conferir!

— Senhor monge Jorge, no meu tempo de jovem, há muitos e muitos séculos, no meu emprego na Metalúrgica Hispano, ganhei uma régua de cálculo circular; de um lado, os cálculos; do outro, um calendário perpétuo.

— ?

— Pronto, senhor monge, aqui está: 7.4.2023, sexta-feira.

— O que tem a ver, senhor Coronel?! A blasfêmia independe de datas. Aliás, numa data sagrada, ganhará os agravantes! — falou o monge, mas a voz já não parecia tão firme.

O senhor Coronel puxou da algibeira um papelucho, com a data da publicação, no “Face”, naquele longínquo 2023. “O homem prevenido é outra coisa”, disse ele:

Do face de Hilde

A mãe do senhor Coronel (ah, mulher “atrevida” — no bom sentido):

— Senhor monge, era a Sexta-Feira Santa... rezei não sei quantos rosários pela conversão deste meu filho..., sim, a morte do Cristo!

— Minha conversão, senhora minha mãe?, por favor, acabe com is...

Nem deu tempo!

O monge desmaiara, vaaápo no chão. Chamaram o doutor Varela, médico deste presídio para acudir o “defunto”.

Antes porém, o espelhinho que o senhor Capitão ganhara no senhor Coronel, a ver se o “defunto” ainda respirava —, rápido e ligeiro (poema NÃO É AQUI NÃO, neste livro, página 118):

— Respira, sim, o espelho embaciou, ainda “veve”. Chamem o doutor! Urgente!

Doutor coisa nenhuma!

Séculos antes, a senhora mãe do senhor Coronel, antiga parteira lá nas brenhas do sertão, já se acercara do monge, aplicando-lhe nas têmporas os sais de praxe, e, com uma colherinha das menores, alguma gotas do vinho das paridas.

Transformação absoluta, o senhor monge “ressurgiu”, “ressuscitou”...

De joelhos, porém, as mãos postas; abriu-as para dizer:

— Saibam todos! Em nome do Sancto Officio, o senhor Hildeberto é santo. Na Sexta-feira do Cristo, ele cantou a morte, mas era Vida. — E completou:

— Senhor Coronel, faça-nos o favor, por seu distinto favor e obséquio, recite-o novamente, com maior força nas Selás! Deveras, senhor Bibliotecário, quando poeta Hildeberto Barbosa Filho abriu o belíssimo poema “Morte que é Vida” com a expressão “Fazer o que?”, primeiro verso, ele já sabia o que.

Sim, o poeta Hildeberto também recitou. E todos os increus ali presentes encheram a boca de Vida, ainda que todos mortos no Século Cem, de Ésquilo.

 

*****

 

Dos leitores

 

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Escreva para o editor

 

 

 

 

Jornal de Poesia, editor Soares Feitosa

 

 

Cristina Bittencourt


 

Que maravilha! Consegui ver tudo! O maestro, também vi!

 

Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hildeberto Barbosa Filho


 

Li tudo e fiquei maravilhado e orgulhoso. Meus “Pensamentos provisórios” possibilitando poemas definitivos. Salve a genuína poesia.

 


Direto para a página de Hildeberto Barbosa Filho

Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Joca da Costa


 

Compadre de leituras e espantos, irmão de destino nordestinado, é um “malassombrado”, como gosta de dizer o poeta pernambucano Antonio Marinho quando quer superlativar alguém.

O que fez Feitosa, transformar o texto de Hildeberto Barbosa Filho num poema dentro de um conto com tantas referências cruzadas e criptografadas, é mais que um belo exercício de intertextualidade e uma demonstração de criatividade dignos de quaisquer “oficinas literárias”: é uma jogada de mestre.

E as tantas “selás” semânticas? Armadilhas para a consciência superpostas a abismos de significação e seus opostos, por referência a absurdos quase-ionescos? Costuras insuspeitadas de vidas e obras a desafiar o leitor a usar sua leitura personalíssima como pena, ao mesmo tempo agulha, sentimento e castigo, a fazer do texto seu tecido e sua teia, que ler é mais doído que escrever!

Adorei e invejei, compadre! Como não pensei eu nisto?

 

Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Luciano Lanzillotti


 

Nota dez, Feitosa. Estamos juntos.

 

Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Luís Antônio Cajazeira


 

Superlativa é toda a prosa poética dos "Pensamentos provisórios" de Hildeberto Barbosa Filho. Nesse daí, Soares Feitosa enxergou não somente a prosa poética; viu um poema descansando no balanço da rede da prosa e lhe disse: levanta daí, home! E que poema! Obra magistral de Hildeberto, iluminada pelo olhar lírico de Feitosa.

Soares Feitosa, poeta de dicção ímpar, não se contenta em unir tradição e modernidade, indo além. Vai buscar antes do présocrático, antes dos pensadores, vai lá atrás, nos mitos, na montanha dos deuses, e os traz para a pós-contemporaneidade, numa fusão de incêndio e paz. É como o monge sábio que lê todo o passado nas contas de vidro do Hesse do século cem de Ésquilo, ou um Buendía lendo todo o futuro na caverna do 100° ano da solidão do Márquez do ano zero. Feitosa, o alquimista da linguagem. E a transposição do texto de Hildeberto Barbosa Filho para o formato em versos, que maravilha, hein?

 


Direto para a página de Luís Antônio Cajazeiras

Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lulu Chaves


 

Poeta Feitosa, o seu talhe é único e a sua erudição é vasta e sábia. Maravilha!

 

Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rodrigo Rosas Fernandes


 

Poeta, você é um gênio. Simples assim!

 

Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sérgio de Castro Pinto


 

Textos excelentes, o de Feitosa e o seu, Joca. E, claro, também o de Hildeberto. Abraços.

 


Direto para a página de Sérgio de Castro Pinto

Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Valdir Rocha


 

Caro amigo Soares Feitosa, a sua linguagem é absolutamente singular. É sua, ninguém tasca, nós vimos bem.

 


Direto para a página de Valdir Rocha

Jornal de Poesia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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(06.06.2023)