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Luís Antonio Cajazeira Ramos

poetacajazeira@uol.com.br

Poussin, Venus Presenting  Arms to Aeneas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


 

Poemas avulsos:


Poemas do livro Fiat breu:


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), L'Innocence

 

Rubens_Peter_Paul_Head_and_right_hand_of_a_woman

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

Luís Antonio Cajazeira Ramos


 

Quo Vadis?


Amigos não resolvem minha solidão.
Amores não penetram em meu coração.
Assuntos não ocupam minha vastidão.
Nada na vida dá vazão a minha vida.

O leite derramado talha em desperdício.
O bicho aprisionado míngua em sacrifico
O passo compassado marcha ao precipício.
Tudo na vida é só senão a minha vida.

Enquanto abato o tronco e moldo a cruz dos ombros,
o mato toma conta do jardim dos sonhos.
Tanto na vida dá razão a minha morte! ...

Por quanto tempo um grito ecoa pelo vácuo?
Pra que defuntos faz sentido o fogo-fátuo?
Quanto na morte vale o vão de minha sorte? ...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), Girl, detail

 

 

 

 

 

Luís Antonio Cajazeira Ramos


 

Pantomima


Os melhores cordeiros da fazenda
seguirão para o abate na cidade.
Os carneiros mais fracos do rebanho
serão sumariamente degolados.
O bode velho vai pro sacrifício,
por mais que seu olhar peça clemência.
Nem mesmo as cabritinhas inocentes
terão misericórdia ou esperança.
As carnes assarão ao sol: fogueira.
As peles secarão ao sol: curtume.
As vísceras suarão ao sol: carniça.
Os ossos sumirão ao sol: poeira.
Somente a ovelha negra fica impune
... enquanto o bom pastor toca sua flauta.
 


* Leia Os Poemas da Besta, de Soares Feitosa

 

 

 

John William Godward (British, 1861-1922),  A Classical Beauty

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Daniel Mazza

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion, detail

 

 

 

 

 

Luís Antonio Cajazeira Ramos


 

Londres


O vampiro chorou de fome e sede
de amor, sozinho em toda a madrugada.
Quando o sol levitou na manhã rasa,
como um fardo o vampiro deu-se à tumba.

Todo dia é-lhe igual: a sangue frio,
cai-lhe a circulação d'estro sinistro.
Mas a noite vampira é qual floresta
em carne viva! e... logo após, deserto.

Do canino ancestral, restou-lhe um uivo
— não por rasgar à lua a artéria seda,
mas a hiena a cavar na noite negra
o vazio que se o esconde nos espelhos.

O vampiro não teme o fim dos tempos:
o veio eterno que o alimenta é o medo.


 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Mignon Pensive

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Nicodemos Sena

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

 

 

 

 

 

Luís Antonio Cajazeira Ramos


 

Ai, Cais!

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
Fernando Pessoa, in Ode Marítima


... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, d'Os Poemas da Besta, in Psi, a Penúltima.



Cais, saudade em pedra.


Zarpam lábios na memória.


Tempo: angústia máxima.



* Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador ao Siarah, de volta-volta...

 

 

 

Henry J. Hudson, Neaera Reading a Letter From Catallus

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Albertus Marques

 

 

 

 

 

 

 

Frederic Leighton (British, 1830-1896), Memories, detail

 

 

 

 

 

Luís Antonio Cajazeira Ramos


 

Na Véspera

... rasga-me o peito a chama murmurada.
Soares Feitosa


Os dragões da verdade e da mentira
(não de uma ou de outra: de ambas), diante o dia
do juízo final, em louca lira,
viram, na luz do fundo da bacia

da dor, em pedra e goma, em sombra e lume,
despido de semblante, indubitável,
vindo do mais recôndito improvável,
um corpo envolto em cúmulo: o ciúme.

Eram dragões de vasta peripécia:
de infeliz, um queimava a Capadócia;
de tristeza, um lavava o chão da Grécia.

No mar febril de lama transbordada,
sob os barris de júbilo da Escócia,
rasga-me o peito a chama murmurada.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

 

 

 

 

 

Luís Antonio Cajazeira Ramos


 

Véspera do dia dos mortos


Eu não amei meu pai como devia.
Houve o dia de amá-lo e não o amei.
Ele morreu, e não nasci ainda.
Amanhã levantei sem seu amor.

Nenhum conselho amigo soa seu.
Uma vida padrasta me acompanha.
Meu caminho não quis olhar pra trás.
Tão longe de meu pai me abandonei.

Nem meu, nem de ninguém, nunca fui seu.
Não me quis dar a quem eu estranhava.
Só teu colo, mamãe, era aconchego.

Do pai, resta-me um calo de silêncios.
Ai, arranco do peito o corpo estranho.
Coração, cava o chão, busca meu pai.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John Martin (British, 1789-1854), The Seventh Plague of Egypt

 

 

 

 

 

Luís Antonio Cajazeira Ramos


 

Musa


Nenhum perfume disse que chegaste.
Não houve sobressaltos, nem sinais.
Chegaste, assim como quem chega, e parte
de tudo parte, para nunca mais

achar o rumo, longe do que fui.
Resta de mim somente algo de novo,
muito antigo e completo, feito fogo
ou verdade, tão novo como luz,

cidade, paz, necessidade, pão,
algo tão novo como tudo em vão.
E segue meu delírio a te seguir.

Nenhum perfume disse que partiste.
"E não partiste", meu delírio insiste.
Talvez perdido em ti dê trégua a mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904) - Phryne before the Areopagus

 

 

 

 

 

Luís Antonio Cajazeira Ramos


 

Esconde-esconde



Sob a sombra dos pais e das casas,
descobriam, com pernas trementes,
como as curvas do corpo eram quentes
e a inocência da vida era ousada.

Bolinavam seus próprios brinquedos,
mutuamente esfregavam seus dons,
todos juntos no jogo, ou só dois:
mais desejo, mais perto, mais beijos.

O segredo dos cúmplices nus
desafiava padrões e tabus
de seus pais, que esqueceram de tudo:

já não sabem brincar de casinha;
não notaram na vida a poesia
e pecaram por serem adultos.


Luís Antonio Cajazeira Ramos
 




O soneto “Esconde-esconde” faz parte do livro Temporal temporal, do poeta baiano Luís Antonio Cajazeira Ramos, que vai se apresentar no Projeto Poesia na Boca da Noite – ao lado da poeta carioca Rita Moutinho – no dia 1º de agosto (terça-feira), às 20 horas, no restaurante Grande Sertão, em Salvador.

Luís Antonio Cajazeira Ramos publicou os livros Fiat Breu (1996), Como se (1999) e Temporal temporal (2002) – vencedor do Prêmio Gregório de Mattos 2000 da Academia de Letras da Bahia.


 

 

 

 

 

20/12/2007