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Gilka Machado

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Morte de César, detalhe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Poesia:


 

Resenha, ensaio & comentário:


 

Gilka Machado (1893 - 1980)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels

 

William Blake (British, 1757-1827), The Ancient of Days

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

Gilka Machado


 

Saudade


De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

 

 

De quem é esta saudade,
de quem?
 

 

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
 

 

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...
 

 

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?

 

(in Velha poesia, 1965)
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Herodias by Paul Delaroche (French, 1797 - 1856)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

Gilka Machado


 

Fecundação


Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.

 

Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura

 

Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.

 

Nada me dizes,
porém entra-me a carne a pesuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.

 

Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.

 

Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.
 

 

(in Sublimação, 1928)
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

Gilka Machado


 

Esboço


Teus lábios inquietos
pelo meu corpo
acendiam astros...
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforecentes carícias...
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca...
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos...
 

(in Sublimação, 1928)
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

Gilka Machado


 

Reflexão


Há certas almas
como as borboletas,
cuja fragilidade de asas
não resiste ao mais leve contato,
que deixam ficar pedaços
pelos dedos que as tocam.

 

Em seu vôo de ideal,
deslumbram olhos,
atraem as vistas:
perseguem-nas,
alcançam-nas,
detem-nas,
mas, quase sempre,
por saciedade
ou piedade,
libertam-nas outra vez.

 

Ela, porém, não voam como dantes,
ficam vazias de si mesmas,
cheias de desalento...

 

Almas e borboletas,
não fosse a tentação das cousas rasas;
- o amor de néctar,
- o néctar do amor,
e pairaríamos nos cimos
seduzindo do alto,
admirando de longe!...
 

(in Sublimação, 1928)
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Gilka Machado


 

O retrato fiel

 

Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!


Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.


Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;


naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.


Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.


Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Gilka Machado


 

Chuva de cinzas
 

 

na estática mudez da Terra triste e viúva;
e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora,
embuça-se na cisma e no torpor se enluva.


Hora crepuscular, hora de névoas, hora
em que de bem ignoto o humano ser enviúva;
e, enquanto em cinza todo o espaço se colora,
o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva.


Hora crepuscular - concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;


hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.
 

(Velha Poesia, Ed.Baptista de Souza, Rio, 18965, pag.15)
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Gilka Machado


 

Aos heróis do futebol brasileiro


Eu vos saúdo
heróis do dia
que vos fizestes compreender
numa linguagem muda,
escrevendo com os pés
magnéticos e alados
uma epopéia internacional!

 

As almas dos brasileiros
distantes
vencem os espaços,
misturam-se com as vossas,
caminham nos vossos passos
para o arremesso da pelota
para o chute decisivo
da glória da Pátria.

 

Que obra de arte ou de ciência,
de sentimento ou de imaginação
teve a penetração
dos gols de Leônidas
que, transpondo balizas
e antipatias,
souberam se insinuar
no coração
do Mundo!

 

Que obra de arte ou de ciência
conteve a idéia e a emotividade
de vossos improvisos
em vôos e saltos,
ó bailarinos espontâneos
ó poetas repentistas
que sorrindo oferecestes vosso sangue
à sede de glória
de um povo
novo?

 

Ha milhões de pensamentos
impulsionando vossos movimentos.

 

Na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza
os Leônidas e os Domingos
fixaram na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil.

 

Eia
atletas franzinos
gigantes débeis
que com astúcia e audácia,
tenacidade e energia
transfigurai-vos,
traçando aos olhos surpresos
da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido país.


Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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Gilka Machado


 

Emotividade da cor

 

A Dolores Marques Caplonch
e a Miguel Caplonch



Sete cores — sete notas erradias,
sete notas da música do olhar,
sete notas de etéreas melodias,
de sons encantadores
que se compõem entre si,
formando outras tantas cores,
do cinzento que cisma ao jade que sorri.

 

Há momentos
em que a cor nos modifica os sentimentos,
ora fazendo bem, ora fazendo mal;
em tons calmos ou violentos,
a cor é sempre comunicativa,
amortece, reaviva,
tal a sua expressão emocional.

 

Lançai olhares investigadores
para a mancha dos poentes:
há cores que são ecos de outras cores,
cores sem vibrações, cores esfalecentes,
melodias que o olhar somente escuta,
na quietude absoluta,
ao Sol se pôr...
Quem há que inda não tenha percebido
o subjetivo ruído
da harmonia da cor?

 

(...)

 

— A Cor é o aroma em corpo e embriaga pelo olhar.
Cor é soluço, cor é gargalhada,
cor é lamento, é suspiro,
e grito de alma desesperada!
Muitas vezes a cor ao som prefiro
porque a minha emoção é igual à sua:
— parada, estatelada
dizendo tudo, sem que diga nada,
no prazer ou na dor.

 

Olhar a cor
é ouvi-la,
numa expressão tranquila,
falar de todas as sensações
caladas, dos corações;
no entanto, a cor tem brados,
mas brados estrangulados,
mágoas contidas,
mudo querer,
ânsia, fervor, emotividade
de desconhecidas
vidas,
que se ficaram na vontade,
que não conseguiram ser...

 

Cores são vagas, sugestivas toadas...

Cores são emoções paralisadas...

 

(...)

 

Publicado no livro Estados de alma (1917).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 141-
 

 

 

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Gilka Machado


 

Encantamento

 

A Francisco Alves
- O perfeito intérprete da canção brasileira


 

Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.

 

Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.

 

Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...

 

Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!

 

Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.

 

(...)


Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 335.
 

 

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

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