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Maria Azenha 

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Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Alguma notícia da autora:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), Reflexion

 

John William Godward (British, 1861-1922),  A Classical Beauty

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Venus with Organist and Cupid

 

 

 

 

 

Maria Azenha


 

Bio-Bibliografia


Maria da Conceição da Silva Rodrigues Azenha nasceu em Coimbra em 29 de Dezembro de 1945. Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra. Exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa e em escolas secundárias. É actualmente professora de Matemática na Escola de Ensino Artístico António Arroio.

Obras:

  • Folha Móvel (Edições Átrio, 1987);

  • Pátria d'Água (Edições Átrio 1991);

  • A Lição do Vento (Edições Átrio, 1992);

  • O Último Rei de Portugal (Fundação Lusíada, 1992);

  • Concerto Para o Fim do Futuro (Ed.Hugin,1999);

  • O Coração dos Relógios (Edições Pergaminho, 1999);

  • P.I.M. (Poemas de Intervenção e Manicómio) (Universitária Editora, 2000).
     

Está representada nas seguintes antologias:

  • Madrugada 2 (Edição do Movimento de Escritores Novos 1982);

  • Madrugada 3 (Edição do Movimento de Escritores Novos 1983);

  • Anuário de Poesia 1 (Assírio & Alvim, 1984);

  • Anuário de Poesia 2 (Assírio & Alvim, 1985);

  • Anuário de Poesia 3 (Assírio & Alvim, 1986);

  • Anuário de Poesia 4 (Assírio & Alvim, 1987);

  • Água Clara (Edições Património XXI, 1988);

  • Hora Imediata (Hora Extrema) (Edições Átrio, 1989);

  • Viola Delta (Edições Mic, 14º Volume 1989);

  • Antologia de Homenagem a Cesário Verde (Edições da Câmara

  • Municipal de Oeiras, 1991);

  • Simbólica 125 Anos (Ateneu Comercial do Porto, 1994).
     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Êxtase de São Francisco

 

 

 

 

 

Maria Azenha


 

Mamã! Mamã federal !
(ao Pedro, meu filho)

mamã:

o meu corpo caiu na pia baptismal. Foi um percalço.
recebi a tua bênção com os óleos santos
em algodão de rama.

Mas que faço agora eu neste bordel das lágrimas,
com tantas orlas com tantos véus,
a fabricar poemas nas morgues do Céu?

Que faço agora eu artesã do sangue
com a minha mão profana que ficou grávida?
E a minha mão direita é ainda uma têmpora
num país distante com lágrimas de sal

mamã!:
envia um telegrama a todos os jornais, anuncia
com o meu coração em febre,
com todos os meus punhos cerrados como que a rezar,
que eu fumo cambodja, liamba,
hiroxima, armas nucleares,
que rendilho a ferros todos os meus cárceres
com as palavras brancas do medo
que saltam dos meus olhos.

Eu roubei a todos os arcanjos as palavras do ódio!
eu fumo cachimbos, goelas de bairros, narcóticos, drugstores democráticos; mato vinte e sete pessoas por cada prato faço massacres na américa central cravo balas nos vestidos amarelos das crianças estrangulo o tempo com o sexo dos eléctricos ilumino as fezes com feiuras sacro-santas faço ícones com toda esta tristeza humana.

mamã,
eu rasgo «cânceres» de papel, trabalho as sombras
com as lágrimas de plástico,
mexo na história com cadáveres brancos
estendo os meus braços em tecnicolor
como numa tela circular humana.

mamã,
eu encolho os ombros, espirro,
bebo cafés evangélicos, grito com os filhos.
mamã, vivemos juntos!, isto é o meu mau génio.

ah, mas o Vaticano,
esse grande gangster de robe,
que anuncia
a paz para os domingos, essa pia
baptismal onde eu também caí com fome
foi um percalço.
e o pavimento lustral da carniçada humana
pisando o sangue , os incensos
da guerra,
onde não cabe agora aí o trigo!

mamã,
e os uniformes azuis a dizer
tão bem com as velas,
e os pássaros
e as indochinas
e os vitrais da esperança com tanta luz.
a difundir as trevas com vapores de chumbo.
e os trigais maduros a vencer
o chão, a curvar a terra
aos anéis do mundo; e as lutas armadas
e as recitações de tréguas
e as missas solenes lidas à breviário,
cantadas por gorilas
com sapatos d'anjos.
e a guarda civil e as patrulhas
e os ofícios e as escolas
e as embaixadas anfíbias nas tuas nádegas
onde fica agora aí toda a tua força política.
e os tribunais de togas a julgar
os crimes a barricar as fomes
esquecendo as dívidas.

mamã,
onde fica o grande rio das palavras onde fica guatemala
onde fica a noite dos tam- tans onde fica a esperança
com os olhos de napalm?!

onde fica a vida mamã-sacrária?
mamã! mamã federal,
esta manhã eu mijei todas as rimas
todos os versos brancos,

nessa pia baptismal!
 

 

 

 

Herbert Draper (British, 1864-1920), A water baby

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José Alcides Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat

 

 

 

 

 

Maria Azenha


 

Ovo Nuclear
 

este reencontro com o Silêncio na procura de mim mesmo
esta busca de Paz em cada ave
em cada movimento
como uma janela entreaberta

este centro que 
evolui com a paisagem

esta Viagem ao país do meu rosto
a  minha janela fotográfica
este cigarro que acendo
e
que procura 

Ovo

 

 

 

Um esboço de Da Vinci

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Weydson Barros Leal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), A Classical Beauty

 

 

 

 

 

Maria Azenha


 

Um fantasma branco de nuvens e cabelos
 

falo de um espelho secreto entre os meus dedos
um espelho que reflecte múltiplas imagens
um espelho que
de cada vez que alguém chama por um nome inteiro
sucede nele um tremor de terra

e o espelho quebra
ficam então os estilhaços dele
entre os meus dedos
que entraram abruptamente no meu cérebro
vejo agora e de mais perto
um rapaz com asas e sem lágrimas:

um fantasma branco de nuvens e cabelos...

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova. 1864.

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Roberto Pires