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Carlos Emílio Corrêa Lima 

 

carlosemiliobarretocorrealima@yahoo.com.br

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Alguma notícia do autor:

 

Carlos Emílio, foto de Thiago Gaspar, Diário do Nordeste, 2007

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Christ in the Sepulchre, Guarded by Angels

 

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata, detail

 

André Seffrin

 

Diário do Nordeste, Fortaleza, Ceará, Brasil

25.7.2007

 


O poder encantatório da palavra

 

O romancista Carlos Emílio C. Lima participa hoje das Quartas Literárias do Dragão, às 19 horas, na biblioteca do MAC. Autor de onze livros, Carlos Emílio dará um depoimento de sua obra. Leia a seguir resenha do mais recente livro de Carlos Emílio, “O romance que explodiu”

Carlos Emílio Corrêa Lima tem cadeira cativa entre nossos prosadores mais densos e dotados de imaginação. É criador que conduz a narrativa num crescente magnetismo verbal que, apesar da nebulosidade dos enredos, acaba por atrair e atar o leitor com seus sortilégios e elasticidades semânticas, nos domínios do fantástico, do surreal e do órfico.

Será mesmo conto o que ele reúne em O romance que explodiu? Poemas em prosa? Ou se trata de um romance fragmentado em iluminações de sentido poético-existenciais? Dentro dessas suas circunvoluções labirínticas, o autor não deixa também de abordar alguns problemas que envolvem a arte contemporânea, nas fronteiras borradas ou voláteis dos gêneros frente a um mundo que vive estranhas simbioses.

Nesse passo, podemos dizer, grosso modo, que existem duas grandes vertentes na literatura brasileira, ou seja, a dos realistas simbólicos, família espiritual que tem no Machado de Assis de Memórias póstumas de Brás Cubas seu melhor representante, e a dos simbolistas órficos, nas sendas do Guimarães Rosa de Grande sertão: veredas. E esta última vertente alcança ocasionalmente certo tom crepuscular ou gótico (frutos do Decadentismo, dirão alguns), como no Raul Pompéia de O Ateneu, seguido pelo Lúcio Cardoso de Crônica da casa assassinada, a Clarice Lispector de A maçã no escuro, o Walmir Ayala de À beira do corpo, o José Alcides Pinto de Tempo dos mortos, entre tantos outros. Nessa classificação, digamos, operacional, teríamos até figuras confluentes, a exemplo de Pedro Nava, que em certa medida pode ser visto como um amálgama estilístico de Machado, Raul Pompéia e Guimarães Rosa.

Em suas anotações de diário, reunidas em O observador no escritório (1985), Carlos Drummond de Andrade escreveu sobre Guimarães Rosa (a sete de março de 1961) algumas linhas que podem eventualmente servir de ilustração ao parágrafo anterior: ´Encontro casual com Guimarães Rosa, na rua. O assunto, no começo, é literatura, mas logo deriva para o mistério de tudo, que ele considera com um misto de gravidade e alegria. Sorri, ao dizer coisas assim: ´A realidade, para mim, é mágica. Este simples encontro que estamos tendo agora não aconteceu por acaso; está cheio de significação´. Sorrio também, ignorante´.

No panorama sugerido, Carlos Emílio Corrêa Lima pertenceria ao segundo grupo, dos simbolistas órficos, dos escritores assistidos pelos encontros mágicos que, é claro, parecem nunca acontecer por acaso. Está sempre com um pé no que há de fantástico ou sobrenatural no mundo ou, como disse outro poeta, transitando na alta alucinação da provada beleza. E escreve ficção como Jorge de Lima, Hilda Hilst e Vivente Franz Cecim, trabalhando com densidade poética enredos fluídos, tênues, nos quais ressalta acima de tudo o poder encantatório e mágico das palavras.

Lembremos aqui o que disse Leo Gilson Ribeiro a respeito da prosa de Hilda Hilst, ao anotar que ela carrega ´involuntariamente um estigma: o de nunca talvez vir a ser popular, agradável, acessível´. Estigma que acompanha igualmente a prosa de Carlos Emílio Corrêa Lima, desde seu primeiro romance, A cachoeira das eras (belo livro que, diga-se de passagem, merece reedição), em 1979, depois com Além, Jericoacoara (o observador do litoral), em 1982, Ofos, em 1984, Pedaços da história mais longe, em 1997, e agora com O romance que explodiu que, como o volume de Ofos, reúne contos. Publicou ainda, em 2002, o ensaio Virgílio Várzea: os olhos de paisagem do cineasta do Parnaso, no qual aborda o cultor de um ´tipo de conto aparentemente sem muita ação, urdido com as potências telúricas e oceânicas do descritivo´. Nota-se claramente que Carlos Emílio Corrêa Lima, quando abordou a obra de Virgílio Várzea, esteve a considerar sobre um espírito afim, e aí reside uma das tantas qualidades do seu ensaio, ao qual ele dá envergadura semelhante ao da ficção.

Nesse aspecto, em alguns de seus contos o autor de O romance que explodiu não raro compõe uma alegoria de seus próprios passos como ficcionista dentro do que chama de ´neo-simbolismo submarino: o néo-simbolismo aquanauta submarinho´. Ele escreve de fato por ´sucessões de frases-pousos, mas tudo ao acaso, sem planos, sem seqüência, apenas sabendo-se que depois de um certo período de séries escritas, todas as linhas do papel almaço estarão preenchidas, a página completamente cheia de todas as frases que você compôs aos pousos de sua mão com a caneta e o lápis arcaico, exato-antigo, em diferentes instantes-regiões´. Assim, ´de posse de um silêncio ocado e profundo´, engendra um conto longo cujo título é ´Pousando poesia na terra nova, uma introdução ao Pousicionismo (landing poetry): a estética dos pousos. Um diálogo com o poeta Joseph Clifford Hantley Holland´. No entanto, escritor por impulso e investido de imaginação hiperbólica, seus melhores momentos parecem antes estar nos contos curtos, a exemplo de ´Eles´, que é sem dúvida página antológica da moderna literatura brasileira. Há aí a fixação de um enredo, embora tratado com aquelas boas doses de abstração em que Carlos Emílio Corrêa Lima é mestre. Uma entre as tantas facetas de um escritor incomum.

 

Direto para a página de Seffrin

 

 

Gizelda Morais

 

Augusto dos Anjos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5.8.2007