Allan R. Banks (USA) - Hanna

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Victor Mikhailovich Vasnetsov, Rússia, 1848-1926, The Knight at the Crossroads

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Riviere Briton, 1840-1920, UK, Una e o leão

Do relato

de uma

peregrinação adolescente


 

Fragmento de um questionário: Francisco, personagem de um poema longo, Psi, a Penúltima, sai de dentro do poema e vem conversar com o autor, um certo SF, que também é Francisco.

 

 

 

64. Francisco: Você já peregrinou?

SF: Sim, várias vezes. No tempo do sertão. Morava nos matos, mas estudava em Nova-Russas, o terceiro ginasial. Ia fazer os exames todos os meses. Uma boa distância, sete léguas. Era um ano bom de chuvas; como dizemos por lá, um bom inverno. Havia um velho Ford F-5, da firma Carneiro & Veras Ltda, que fazia a linha Nova-Russas—Monsenhor Tabosa, carreando mamona. Na época das chuvas, as estradas muitos ruins, o caminhão, já muito cansado, não tinha forças para enfrentar os atoleiros. Além do mais, a safra é para depois das chuvas. O problema é que eu tinha que ir aos exames, do contrário perdia o ano. Da primeira vez, fui a cavalo, mas o animal, um transtorno na cidade; eu não tinha onde abrigá-lo. Em vez de um pouco mais de tempo livre para me divertir, administrava mais uma preocupação além dos exames: cuidar do cavalo, à redobrada preocupação de que o animal não passasse fome, nem sede. As próximas viagens, enquanto o velho caminhão não retornou, fi-las a pé.

 

65. Francisco: A pé?

SF: Sim, a pé. De noite! Durante o dia, com o sol quente, é muito pesado. Insuportável até. Saía de tardinha. Aprontava um pequeno lençol, com umas poucas roupas e os livros já lidos. Um embrulho na diagonal. É o matulão. A gente o coloca no ombro, transverso com o quadril oposto, distribuindo o peso. Nos primeiros quilômetros, o bicho vai que é uma beleza. Depois, não há lugar para ele. Você muda de ombro, bota para a barriga, bota para a bunda, troca de um lado, vira para o outro, mas quem disse?! Depois resigna. Chega o vento da noite. As estrelas no céu. Um céu enxuto. Levei um grande susto quando li o poema de Kant.

 

66. Francisco: Kant? Filósofo, não?

SF: Também. Ele disse, lá com as palavras dele: Nada me enche de maior assombro que o senso moral dentro de mim e o céu estrelado sobre minha cabeça.

 

67. Francisco: Por que o susto?

SF: É que na cidade grande também já esquecemos os céus, estrelados ou não. Só quem andou de noite, nos matos, sabe o que é, ainda que não houvesse, no dia em que andou, estrela alguma no céu nublado. Mas lá, estrelas é o que não falta. De noite, naturalmente.

 

68. Francisco: Não era perigoso?

SF: Eu pegava um garrancho, um cipó, coisa leve, porque na proximidade das casas, os cachorros vêm de lá, com a gota serena, a acuá-lo. Não! Morder não, que os cachorros do mato não são treinados para morder. Mas a gente não pode facilitar. Falava com eles, amansava-os, de voz mansa, mas nem todos. Continuavam latindo até o final do pátio, de despedida ou de raiva. Eu também latia com eles, mas só de despedida. De raiva, não, porque noutra viagem, o bicho haveria de lembrar. Enfurecido! Cachorro lembra de tudo. Quando paravam de latir, jogava o garrancho fora. Lá na frente, na próxima casa, pegava outro, ali mesmo, na beira do mato. As casas eram distantes, naquele tempo. Fechadas, que todo mundo dorme muito cedo. Mal escurecia, deitávamo-nos. Em compensação, sequer amanhecia, já está todo mundo de pé, na labuta.

 

69. Francisco: Assim mesmo, sem companhia, à viagem inteira?

SF: Havia uma companhia fantástica: a solidão. E a intempérie, bem na cara. Sabe, o vento no rosto destampado dá-nos uma certeza de desamparo, mas, incrível, é também uma perfeita sensação de exterior, um mundo mais. Sete léguas, 42 quilômetros, os mesmos da Maratona, que tem exatos 42,195km. Sem perceber, a gente se transforma num bicho da Natureza. Ainda que nunca tenha lido os versos de Kant, saberá perfeitamente o que significam. A noite é fresca, mas o tempo é seco. Sem maiores avisos, esbarrava-me no rio Acaraú, ainda próximo das nascentes, apenas um riachote, um filete magro, quase sem água, mas dá um banho. E que banho! Com tempo de sobra, um banho longo, botando o tempo para render, esticando-o além da conta. Esticava também o corpo inteiro. Era novo, mas a caminhadeira, a suadeira, de cansar! Os pés — a poeira fazia um pó grosso —, lavava-os, muito e muito. E a cara. Mas o estiramento era também de partes: pé, braço, dedo. Até os dentes, havia de estirá-los. Não é fácil, mas dá para estirá-los, desde que o cansaço seja intenso. Nesse ponto, você e a Natureza, um bicho único.

 

70. Francisco: Um bicho? E o medo?

SF: Medo de quê? Era um tempo calmo. Hoje, nem pensar! Medo de nada. Nem da outra cobra, a cobra-macho, da beira do rio Macacos, se é que ela existia. Devia existir, mas não dava para pensar. A que existia, estava morta, eu que matei. Por que haveria de ter medo de nada? Se aparecesse, era cacete para cima dela. Do mesmo jeito. A gente tem outro medo, mas só no começo. É o medo de desistir. Depois, passa. Lá adiante, você, a viagem e o cansaço: quem é quem? Nenhum medo.

 

71. Francisco: Uma boa peixeira, bem afiada, não?

SF: Que nada! Se não havia medo algum, por que haveria de andar com o instrumento do medo? Lá nos matos, sim, a faca não é do medo, é do serviço. Nem revólver, nem nada. No trabalho, nos matos, para cortar um galho de pau, desenganchar um bicho, cortar um cordão de umbigo, a faca, quanto mais afiada, melhor. Mas em viagem, se não há medo, para quê?

 

72. Francisco: Pelo menos uma boa lanterna, não?

SF: Lanterna, coisa nenhuma! Nunca tive lanterna naqueles tempos. Éramos modestos. Uns trocados, e comprei enxó na loja O Gabriel, e pua, trados, formões e outros ferros de carpinteiro, uma plaina e folhas de lixa. Verniz? Não! O dinheiro não deu para verniz. Conseguia-o na lixa, polindo, até brilhar, a madeira. Alisava com mucanã. Um brilho real. A beleza modesta, na madeira, a maciez do polimento, horas a fio. Assim Ela, do mesmo modo — os olhos, tintas nenhumas. Não deu para lanterna, o dinheiro, ou até acho que deu, mas havia de comprar pilhas novas. Desmantelou, descarregou, vazou. Os ferros, bastava amolá-los, eu mesmo, na pedra de amolar: água e paciência, pra lá e pra cá, assim, um fio sobre fio, a ponto de cortar rentes os cabelos do braço. Barba, não, que a barba era rala, só a penugem, 15 anos. Por outra, os caminhos, por mais escura que seja a noite lá no sertão, é sempre possível entendê-los. No sertão, não há aquela escuridão de breu, da serra. Na serra, de noite, nublado, você enfia o dedo no olho e não vê nada; só as estrelinhas, furando os olhos. No sertão, por mais escuro, a gente divisa o vulto das mãos. É suficiente! Lá, as noites são de uma penumbra que dá para saber da mancha dos matos e do contorno das casas. É a hora, antes de cansar, de soltar a mente. Depois que cansa, não precisa mais olhar para nada. Nem consegue.

 

73. Francisco: Antes de cansar?

SF: Isto mesmo! Antes de cansar, a mente é igual a um macaco na corrente, para lá e pra cá, pulando, sem sossego. Nada melhor do que soltá-la para cima dos matos, das folhas, dos barrancos, das nuvens lá longe e das estrelas por todos os lados da cabeça. Soltá-la, mente, por cima das pessoas que ficaram. E de outras que estão por vir, mas você não sabe quem. Depois, com o cansaço, isto é fundamental, ela, a mente, cuida de chegar para perto do dono. Acho que vem acudi-lo, deve ser isto. Ou porque perde as forças, com o cansaço. Então, a mente o tange a uma outra paisagem, a sua paisagem. O lado de dentro. E, quando vem a encontrar, bem no futuro, aquela pessoa saltitada de sua mente cansada, já sabe quem... Ela, é claro. Mas esse sossego interior leva algum tempo. Tem que cansar primeiro. O ruim da viagem era o amanhecer.

 

74. Francisco: O amanhecer? Não haveria de ser a melhor parte?

SF: Sim, razoável que o fosse. É que aos primeiros clarões, os céus esturricando-se de vermelhos, dava para divisar a torre da igreja de Nova Russas, que a cidade é num baixio, no vale do rio Curtume. Era ruim porque faltava muito mais de uma légua inteira. Bom pela certeza de que estava perto, chegando. Mas cadê?! Longe por demais, melhor que não avistasse nada! Avistar coisas de esperança muito larga é tentar-se ao desistir. Deixasse para avistar só bem de perto. Você anda e anda. E nada! O bom é que, de descida, uma descida leve, tudo ajuda, descendo. Mesmo assim, aquela visão nova, ressurgindo dos escuros da noite, trazia uma aflição nova.

 

75. Francisco: Um aflição nova?

SF: Era da impaciência de chegar. De dar por concluída aquela tarefa, agora às claras. Veja, de noite, sem ver nada, a noite é melhor. Também é a hora da sede, de manhã, pela manhã, com o sol. A sorte é que as casas, nos matos, abrem muito cedo. A gente pede água. Oferecem café. É bom. Uns minutos de alpendre, sentado. Sai cuscuz com leite. Perguntam coisas, a gente vai respondendo. Perguntam se vai chover no ano que vem. A gente diz que sim, abaixo de Deus, tirando o chapéu, mas nunca andei de chapéu. É da lei que essas coisas sejam respondidas “abaixo de Deus”. Entristece porque, avistando a torre da igreja, ainda que de muito longe, você percebe que a viagem está no fim. No duro, a viagem é boa. Aliás, ótima. Mas há um perigo a mais, aborrecer-se com a passagem.

 

76. Francisco: Com a passagem? Havia outro rio?

SF: Não! Rio nenhum. Aliás, o Rio Curtume, outro riachote, depois que fizeram um açude grande, secou à jusante. Havia ponte dentro da cidade, entre a rua do Progresso e o Centro. Falo de um outro obstáculo, um rito, como se fosse passagem: da noite para o dia; dos matos para a cidade. Entre aquele aparente nenhum, o sertão, e a pólis, há um salto fantástico, mas esse salto há de ser dado sem salto algum. Do silêncio ao burburinho, indo e voltando. Só assim, a viagem! O trânsito límpido entre o sertão e mar; mar e sertão. Assim as coisas também do coração. Não! No amor, não! Que haja a vertigem! Quanto mais alta, melhor. Mas fique claro: Nova-Russas, a mais de cem quilômetros do mar... Mas era Mar em relação ao Sertão, onde a viagem se fez de começo.

 

77. Francisco: Quantas horas de viagem?

SF: Começava a andar pelas quatro da tarde, mais um pouquinho. Chegava às cinco e pouco da manhã. Mais de 12, em torno de 13 horas. Sem puxar, esbanjando todo o tempo. Se fosse para fazer ligeiro, a média é de uma légua por hora, umas sete ou oito, por aí. Mas para quê? O bom daquilo era gastar o tempo, a insultar com o tempo. Se fosse ligeiro, acho que não agüentaria. Era jovem demais. Por outra, para que ir ligeiro? Administrava o chão, os meus pés em cima dele, comigo de dentro, em cima dos pés. Não administrava os passos de chegar ligeiro. Mas, se necessário, correria. No chouto, por longo tempo. Ou galope. Alternando-os.

 

78. Francisco: Não estou entendendo: você fala em peregrinação, mas a rigor era um dever, comparecer aos exames do colégio, sob pena de ficar reprovado. Peregrinação não pressupõe livre vontade?

SF: Sim, era um dever. Tinha que ir. Em dia certo, chegar na hora certa, comparecer aos exames e auferir as notas suficientes. Mas, iniciada a viagem, tomando gosto pelo que fazia, o gostar eliminava o obrigatório. O prazer de fazer é que faz a diferença entre o cativeiro e a devoção. Ainda que o fruto seja o Mal. Só assim se explica a eficiência dos carrascos de Hitler, aliás, de quaisquer carrascos —, eles gostam do que fazem. Fazem-no melhor que o dono. Mas há quem faça o Bem. Sem paga alguma.

 

79. Francisco: E o cansaço, muito?

SF: Sim, muito, porque aquilo era uma doidice. Exatos 15 anos, toda a musculatura doía. Mas era bom porque havia um fenômeno muito estranho. Um excesso de energia, talvez mesmo por conta do excesso de cansaço. Assim que chegava à casa do padre, um banho ligeiro, que a água era pouca. Se a caixa d’água estivesse meio vazia, ainda tinha que dar umas bombeadas, se não o padre reclamava que haviam acabado com a água dele. O padre chamava, perguntando coisas, roçados, chuvas e os mesmos assuntos de sempre, andando. Quando nos dávamos conta, estávamos na sacristia, na hora da missa. Ele dizia: venha ajudar.

 

80. Francisco: Você ia?

SF: É claro! Com o maior prazer! Dentro em pouco, lá estava eu – pichelengo, pichelengo – tocando com toda força a campainha na hora do Sanctus, Santus, Sanctus, [Isaías, 6], que não tem outra mais bonita no lugar, mas, por favor, a segunda parte não é de Isaías, é do Humberto Teixeira e do Luiz Gonzaga e refere-se à missa do meu velho tio, o padre Leitão. Também às meninas do coro. Havia a voz em contralto da futura monja. E a outra, muito magra, uma alma-de-gato, uma voz tênue, os cabelos calmos. A missa era em latim. Voltava para o café, com o padre. Ia em seguida para o ginásio. Sem parar, que o cansaço, agindo pelos inversos, não deixava parar. Fazia minha algazarra com a turma. Os exames, fazia-os. Os meninos diziam que era mentira, eu, escondido na casa do padre, estudando. Eu lhes mostrava os pés. De tarde, desabava como um bicho bruto, a acordar só no outro dia. De noite. E as notas!

 

81. Francisco: Alma-de-gato, o que é?

SF: Com o forro das casas, na cidade, perdemos mais esta informação. Seja uma coberta de telhas. Ou de palhas. Réstias, aqueles buraquinhos por onde entra o sol, a lua, a escuridão das estrelas. Pronto, se uma réstia de sol bater numa vasilha d'água, refletirá na parede uma mancha de luz. Com o vento n'água, ter-se-á uma luz tremida, ligeira, assustando, bulindo, mexendo. Era, de puro susto, sobre mim, os olhos — Ela.

 

82. Francisco: Vejo que tenho que fazer um curso de sertão. E a volta, outra vez a pé?

SF: Bom, aí eu esquecia os matos. Muito justo que os esquecesse. Era jovem, as meninas do ginásio, muitas, e a minha turma de adolescentes. Havia de voltar, mas só voltava quando encontrava um transporte que me deixasse na porta de casa ou, no mínimo no Morro Redondo, no lugar Cruzeta, exatas duas léguas e meia (15 km) que eu tirava num chouto. Com um novo estoque de livros, uns oito ou dez, para não fazer muito peso.

 

83. Francisco: Livros, os do colégio?

SF: Não! Os do colégio já estavam em casa. Eram agora os livros que o juiz me emprestava. O doutor Bastos, Moacir Bastos, que Deus o tenha. Duas belas estantes da melhor literatura. Livros da Editora Globo, coisa de antigamente, ótimos. Edison Carneiro, lembro este nome. Ele conta que Zumbi tinha escravos. Muito estranho que um senhor de escravos tenha sido escolhido patrono do Movimento Negro. Joaquim Nabuco, não! Era senhor e não tinha escravos. Levava os livros de volta e trazia outros. De noite, a lamparina polmando fuligem. O dedo no nariz? Vinha preto! Fumaça da lamparina! Se fez algum mal? Acho que não! Passei dos sessenta e estou aqui novinho em folha, para outros vinte! Ou trinta. Ou mais!

 

84. Francisco: A peregrinação, uma coisa sofrida. Alguma vantagem?

SF: Ah, sim! Só vantagens. É quando você encontra o seu animal.

 

85. Francisco: Um saci, um duende. Crê nessas coisas?

SF: Nem um pouco. O animal, você o encontra quando peregrina sozinho, à noite, cansado, jejuado. Ele está dentro de você. O corpo sacrificial, o seu, os céus, estrelados ou não, que, ao mesmo tempo, chamam-no para cima e, com a mesma força, o repelem e o esmagam no rumo do chão, que também o puxa e empuxa. Você no meio, joguete de céus e terra. Não é fácil, creia-me. É quando o seu animal aflora, salta para suas mãos. É a hora de domá-lo. Ficam amigos, o animal e o dono. Acho que a peregrinação devia ser matéria obrigatória no currículo do jovem.

 

86. Francisco: Ainda que não fosse religioso?

SF: Religioso? Nada a ver! Não precisa ser religioso para peregrinar. Melhor que nem o seja. Veja, há um aterramento, ainda que o cabra não esteja descalço. Eu mesmo, questão de costume, nunca consegui andar descalço. Sempre andei em cima de minhas chinelas de currulepo ou das alpercatas de rabicho. Mas a terra está ali, nos seus pés, na poeira, no ar, na face. E a intempérie também, bem na cara. De tarde, quando a viagem começa, o vento é duro, abafante. No poente, o Sol, rubro de fogo, estatelando-se nos boqueirões da Serra Grande, lá muito longe, mas doendo na cara. Depois, à medida da noite, chega a fresca da noite. Você começa pelo pior, o sol quente nos olhos, o vento-mormaço, o calor. Tudo isso de ruim ajuda a abrandá-lo, fragmentando-o, a rearrumar-se. A desejar que a noite chegue. E escureça! Lá pela madrugada, uns pingos ligeiros, coisa que não dá para molhar, apenas para, digamos, lembrar como é que molha. Mínimas gotas escorrem na face, mas o bom é não enxugá-las. Deixar que subam no vento, secando. Quando respinga um pouco mais, a gente bebe (não faz mal que beba), mas não pela sede. Acho que seria uma sagração das águas — bebê-las dos céus, direto na face. Os óculos. Sempre andei de óculos. Ficam manchados, mas de noite não precisa limpá-los.

 

87. Francisco: Não fica ruim para enxergar?

SF: Enxergar o quê? Tudo no escuro, a leitura é outra. Tem que aprumar o faro, as oiças, a pele, o corpo. Os dentes, a mordedura, se necessário. O vento às vezes se dana, rodopia nos paus, faz um barulho grosso. Era a hora de lembrar da jumenta de Jeremias esturrando no deserto. Você, ali, com certeza também é um jumento. Um retorno, uma grande viagem de volta. Não! Não tem que ser religioso. Melhor que nem o seja. Basta completar a quota. A quota do cansaço. Estou certo de que Jeremias errou, senão, de muito pudor, não contou que o esturro verdadeiro é do jumento e não da jumenta.

 

88. Francisco: Jeremias, o que ele falou?

SF: Veja, ele escreveu: Uma jumenta selvagem acostumada ao deserto, que no ardor do cio sorve o vento... [Jer 2, 24]. Não contou que o tirinete legítimo, em onda alta, é do jumento-de-lote. Do lote das éguas, o jumento garanhão. Assim o lá de casa, o Meia Noite. Eu também! Ele rasgava o vento, esturrando. Não! Nada a ver com relincho. Nem com zurrar. É um esturro de vento, nas ventas do bicho, espoucante, rápido e largo como um feixe de borrachas a sibilar sob grande pressão de um redemoinho feroz. Eu fazia do mesmo jeito. Esturrava na beira do rio, reinando. Ora, de jumento de lote, igual ao Meia Noite; ora, de touro, o touro Fidalgo, chifrando os murundus no pátio da fazenda, rodeando as vacas, brotando, zombando. Só quem é de lá, da noite, sabe o que é. Faz medo, mas é um medo grato, que a gente insulta com ele, para mais medo. Viajar na noite. Um medo bom.

89. Francisco: Medo?

SF: Um dia, de noite, fui pegar o Meia Noite para uma viagem ligeira. Ele rasgou o vento nas ventas, dentro de uma moita, bem perto de mim, que não o havia visto. Levei um susto medonho. Pensei que era a onça. Claro que tive medo, mas já saltei bem acolá, a postos. Arrepiado, um gato de assombro teria sido menos. O bicho correndo de lado, olhando para trás, ora de um lado, ora do outro. É bonito. Era de lua, no descampado, cheia. No trote ligeiro, a cara de banda, rasgando o vento, o jegue garanhão. Só os eqüinos correm assim, quando soltos. Acho que preparam as armas, que no boi é de frente; neles é atrás, os cascos, afiadíssimos, ao coice. Em nós é mais de frente, as mãos, os olhos. Os olhos, as mãos — armas, aqui, ó!, os pés. A palavra! O corpo inteiro, tudo é arma, homens (e vítimas!), uma arma só, o Homem. Garra, dente, unha! O olhar. Por isto é que olham de lado e para trás, eqüinos. Devia estar com medo da onça, o jegue garanhão, ou zombando dos outros jumentos. Eu também zombava dos outros meninos na beira do rio. Pois se o vento esturra com a gente, de noite, a gente esturra com ele. Fazia igual ao meu amigo, o jumento de lote, o meu compadre, o Meia Noite. O vento responde. Se o cabra for medroso, é o suficiente para mais se assombrar. Correr e cair. Ou paralisar, sem sair do canto, de medo, caído. Não tinha ninguém para ouvir, nem reclamar. Muito menos para acudir. Os cachorros latiam. Eu também latia. O vento esturrava outra vez. Eu respondia no mesmo trom. A garganta roncando até ficar rouca. Depois acalmava. Zombava de novo. O vento. Eu, os bichos de chão, o medo — reinantes.

 

90. Francisco: Ninguém por perto?

SF: No fim da tarde, as pessoas retornam dos roçados; de noite cedo, das casas das namoradas. Um boa-noite – é de lei. Todo mundo cumprimenta-se, muito diferente da cidade grande, que quase ninguém responde um bom-dia no elevador. Até se espantam com a cortesia. Lá, depois das oito da noite, só o silêncio. Nem luz, nem carro, nem nada. Ninguém. Podia cantar. Cantava o Forró no escuro. Berrar um poema, também podia. Assum-preto. Ninguém reclamava. Podia berrar. Berrava. Só as aves noturnas, os coriscos da noite, os cachorros e o seu animal. E o Magnificat, que sabia berrá-lo de voz grave, em latim. 

 

91. Francisco: Coriscos da noite?

DF: Sim! As estrelas cadentes, um risco no céu, rasgando o céu de cima abaixo, reto, ou assim na diagonal, ligeiro, quase de banda, bem inclinado, no fim do horizonte. Ninguém ouve nada, só a luz, uma luz azul, esverdeando-se. Era de lei que fizesse pedidos ao corisco. Eu os fazia. Pra cima dela, é claro, que sempre os fiz. Com o cansaço, presente o seu animal, todos os sentidos são um só, um bicho único, você mesmo, faiscando, pulsando, fremindo. Ora, se você negocia com o corisco da noite, ao nome dela, não precisa esclarecer sobre os deuses. Claro que eles estão de dentro.  

 

92. Francisco: Nunca mais peregrinou?

SF: Não. Nunca mais. Sinto falta. Já marquei viagem, mas só de boca, com mestre Antônio fazendo o apoio, a camionete carregada com umas águas...! Rapadura, paçoca de carne seca e queijo de coalho. Sim, cerveja também. E castanhas daqui, torradas no sal. E vinho, que faz bem para o coração. Qualquer dia destes, meto os pés e vou. Mas acho que isto de ter apoio e comida à vontade, ali, bem próximos, ao alcance de um grito, inibe o seu animal de aparecer. Tem que ser coisa de só. Sob a certeza do não. O homem, se for de coragem, quanto mais sozinho, mais coragem.

 

93. Francisco: Esse tal animal, ele aparece, só se for com o sofrimento?

SF: Não deixa de ser. Mas não há um sofrimento. É tudo suportável. Desculpe, quase. A técnica, se dói a batata da perna, é chamar a dor lá mesmo, na batata da perna. A gente pega a dor, vai rodando com ela, botando para cá e para lá, domando. Mas tem que estar de só. Na noite, a pé, póco-póco-póco, alternando os trocânteres para cima das alpercatas, chega num ponto em que você diz: Vem, perna! Ela dói, mas vem para junto de si! A sua perna, agora bem de juntinho, que normalmente está a léguas de distância. Você sabe de suas pernas? Claro que não! Pois ali, em viagem, sabe delas. Deixa de doer. Com palavras mansas.

 

94. Francisco: Palavras mansas?

SF: Isto mesmo. Veja, o meu tio Vicente, amansador de cavalos. Um dia, ele montou um cavalo muito doido. O bicho dando pulos que não tinham tamanho. Ele ali, rijo e forte, mas dizia palavras leves. O que ele dizia, eu não sei. Não dava para escutar. Mas os sons eram leves. O bicho calmou. Ele deu a volta, botou as marchas que era para botar e disse, apeando-se, batendo levemente na anca no animal, até pareciam velhos companheiros: Está manso. Sim, a patente-mor de domador de cavalos, a mais alta de lá do sertão, um grau a mais sobre a de vaqueiro. Aquele meu tio, Vicente; o finado meu pai, também Francisco; Heitor, direto de Tróia, e também este seu criado, esta patente a todos eles: domador de cavalos! Aos esturros do vento: de noite, de dia, à beira-rio ou no pedregulho da mata seca, espinhos e bromélias —, reinando, somo-los.

 

95. Francisco: E trocânter, o que é?

SF: Também pode dizer trocanter, oxítono. Fica na cabeça do osso do corredor, na coxa (donde nasceu Dionísio, donde padeceu Jacó a cutilada após o vau do Jaboc), o alto do fêmur, um lugar bom de trincar quando o cabra fica velho, sobretudo nas mulheres, de osteoporose. É ali que cansa e dói quando o bate-pernas é por demais. É a hora de chamar o animal a acalmá-lo. Deixa de doer. Só dá certo se for só. Na certeza da solidão. De ninguém acudir. Nem a quem se queixar. Nem remédio, nem nada. As palavras calmas. Energicamente as palavras calmas. E o medo nenhum.

 

96. Francisco: Não dá medo da morte?

SF: Pode até dar. O cabra não pode voltar. Este, o perigo: não pode jamais pensar em voltar. Tem que ser sem volta, póco-póco-póco, em frente. Sempre! A pisada bem firme, eu não tinha medo de nada. Nem da morte. A gente sabe que não. O seu animal garante que não. Não se trata de confiar. Há uma única palavra: certeza! Era o que eu lhe dizia. Ela dizia que sim. A certeza!

 

97. Francisco: Um instante: 42 quilômetros? Há peregrinações muito maiores. Canindé, você disse, 120 km; Santiago de Compostella, quase 1.000. Por que essa sua, tão curta, seria tão proveitosa?

SF: Tem sido um mistério a mais para mim. Mas veja, começava de tarde, com o Sol bem na cara, no rumo do poente. A noite, que seria o pior, ao assombro da escuridão, pelo contrário, era refrigério. Há o achamento interior, desde que na solidão absoluta. Na estrada do Canindé, centenas de carros, indo e vindo. A luz que vem, a luz que vai. Vruummm! E um bocado de gente a lorotar. Claro que o seu animal não virá nunca. O dono ganhará apenas o cansaço. O melhor lugar para peregrinar, estou certo, vai da fazenda Catuana até Nova Russas, iniciando pelas quatro da tarde, enfiando pela noite inteira, na mais absoluta solidão. Sem levar nada. Sequer livros ou matulão. Só a roupa do corpo, uma roupa leve e as alpercatas. Nem pente, nem escova, nem nada. Ou só os livros. Acho que sim, os livros. Os livros, sim! E um perfume para os cabelos dela, quando voltar. Sempre levei os livros. Dei-lhos todos. Perfume, não, que não tinha nenhum. Nem dinheiro. Da próxima vez que for peregrinar, levarei o incenso e a mirra. Aspergirei, com as minhas mãos, os seus cabelos calmos. A risca do rosto. Primeiro um, depois o outro, os olhos. Entre olho e olho, a única possível – viagem e morte —, os lábios. De ressurreição.

 

98. Francisco: Poderia ser o contrário, de Nova-Russas à fazenda Catuana?

SF: Não! A viagem tem que começar pelo pior, contra o Sol, correndo atrás dele, no rumo do poente. De manhã, quando você menos espera, ele o ataca por trás, nascendo, rasgando os horizontes, de tanta luz. Isto lhe dá a sensação de que ele, Sol, ganhou a corrida. É verdade, não tem quem ande com o Sol. Ele é mais ligeiro, muito mais. Amanheceu! Você se volta e o abençoa. Pede-lhe a "benção", que é um novo dia! É botar os olhos lá na frente... um limiar novo. Os seus olhos grandes, de nenhuma tinta, Ela. Perfil e silhueta, um tempo veloz. Iluminação.

 

Continua em UMA PEQUENA LIÇÃO DE CAVALARIA


 

Dos Leitores

Abílio Terra Júnior

Adriana Zaparolli

Adriles Ulhoa Filho

Alckmar Luiz dos Santos

Aldo de Oliveira Jr

Alfredo Fressia

Aline Lages Tomás Coelho

Ana Peluso

Angela Togeiro

Antero Barbosa

Antônio Carlos Secchin

Antônio Seixas

Astrid Cabral

Carlos Felipe Moisés

Carlos Roberto Lacerda

Carmen Cinira

Cecília Quadros

Cida Sepulveda

Cissa  de Oliveira

Claudio Willer

Edna Oliveira de Sant'Ana

Edson Bueno de Camargo

Efer Cilas dos Santos Jr

Elidia Maria Franzin

F. Silveira Souza

Fátima Leal

Floriano Martins

Francisco Cordeiro

João Arlindo Corrêa Neto

João Soares Neto

José Aloise Bahia

José Felix

José Peixoto Júnior

Luís Manoel Siqueira

Maria A. S. Coquemala

Maria da Conceição Paranhos

Maria de Lourdes Hortas

Mario Cezar Coivara

Marina Leitão

Mauro Mendes

Nei Duclós

Nilto Maciel

Ozório Couto

Paulo Gondim

Paulo Rezende

Paulo Rosenbaum

Paulo de Toledo

Raquel Naveira

Raymundo Silveira

Regine Limaverde

Renato Suttana

Rita Brennand

Rodolfo Lopes

Ronaldo Costa Fernandes

Ruy Espinheira Filho

Sandra Baldessin

Sérgio de Castro Pinto

Vera Queiroz

Vicente Franz Cecim

Willis Santiago Guerra

 


 

 

 

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Vale or Farewell, ARTHUR HACKER, (1858 - 1919)

Vale or Farewell, ARTHUR HACKER (RA), (1858 - 1919)