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Maria Alice Vila Fabião
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Alguma notícia da autora:

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Yeda

 

John William Waterhouse , 1849-1917 -The Lady of Shalott

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Êxtase de São Francisco

 

 

 

 

 

Maria Alice Vila Fabião


TER OU NÃO TER – BEM-VINDOS A ELSINORE

 

O olhar é o pensamento.

Tudo assalta tudo e eu sou a imagem de tudo.

O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,

a luz cambaleia,

a beleza é ameaçadora.

Transmitem-se, interiores, as formas.

– Não  posso escrever mais alto.

Herberto Helder, in: Do Mundo, Assírio e Alvim, 1994

 

A luz alterna com as sombras – bailado antigo ao som do rumorejar das folhas dos plátanos que bordejam um caminho que corre para parte alguma – para o Natal corre o caminho, diz-me quem sabe, enquanto escrevo. E o dia torna-se um dos tais dias para reler com olhos novos Gamoneda* e Gimferrer*, e reler com os olhos de sempre Cesariny, o que dizem que morreu, mas a quem ainda há pouco encontrei, bem vivo e de corpo inteiro, nas suas “palavras imensas”, nas suas “palavras acesas como barcos”, nas suas palavras “só sombra só soluço só espasmos só amor só solidão desfeita”**; dia para acreditar em Kafka (o que usou palavras em quem ninguém acreditou) e nos políticos que, com o mesmo sorriso, constroem túneis sem saída e intimam os cegos de nascença a ver uma luzinha ao fundo… lá muito ao fundo; dia para rir do humor dos humoristas nacionais na televisão nacional, para comer peixe congelado em restaurante à beira-mar: para ver montras em vésperas de Natal.

Quem tem medo do absurdo? Bem-vindos a Elsinore, que foi castelo de um jovem Hamlet assombrado por fantasmas e loucura, atormentado pela dúvida essencial: “ser ou não ser", existência ou inexistência - em qual delas a felicidade?

Vivemos na era da globalização: Elsinore é agora Londres e é Nova Iorque; é Paris e é Lisboa; é a grande cidade e a aldeia remota onde a TV diz missa aos domingos e prega violência durante todos os dias do ano.

Morto o Príncipe da Dinamarca, há muito que, sem perder um mícron da sua profundidade, a questão já não é a dúvida hamlética, já não é “ser ou não ser”, mas "ter ou não ter". O homem aquisitivo (vulgo: “consumidor”, tema sem dúvida de uma próxima lucubração da cronista, em noite de nevoeiro) não é atormentado por qualquer dúvida: o que quer que seja, a sua felicidade está em “ter”, na posse, no poder de aquisição: de bens essenciais, para os que não sabem o que é "ter"; de uma televisão plasma com ecrã plano de grandes dimensões, para os que já têm os bens essenciais; de um carro topo de gama para os que já têm os bens essenciais, uma televisão plasma e um carro de cinquenta mil euros; de um iate e um avião, para os que já têm todos os outros bens e o carro topo de gama; do domínio do mundo, para os que têm tudo, inclusive o iate e o avião; de uma remota ilha deserta, onde possam refugiar-se com, ou sem, um livro e uns calções, e viver de banana e caramujos, para os que, possuidores de tudo, sonham – os coitados! – com a liberdade do nada-ter, que não conhecem.

(Permitam-me, p.f., que não me refira às crianças que exigem, pelo menos, roupas de marca e telemóveis de última geração, nem às que, a morrer de inanição, ainda perguntam: “Mãe, no céu tem pão?”***).

Ausente de mim mesma, integro-me, com o frio e o nevoeiro, na multidão que, ao som de um desgastado Jingle Bells, circula nas artérias da cidade e com ela avanço e me detenho junto de montras onde miríades de coisas inúteis aguardam um comprador – porque vai ser Natal. A meu lado, um homem ensobretudado que não sabe já o que desejar interessa-se por um aparelho de medir o grau de alcoolémia. “É barato”, diz. “Para que o queres?”, pergunta, friamente, o vison a seu lado. “Tu nem bebes!”. Difícil a desistência. “Podia dá-lo ao Pedro…”. “Dá-lhe, mas é a porcaria que te deu no ano passado!”

Mentalmente, exclamo: Paz aos homens de boa-vontade!

Afinal, o caminho corre para o Natal, enquanto escrevo. Mudado está, porém, o léxico natalício. No novo Elsinore, povoado de fantasmas da pobreza e da ambição, um Elsinore em que a questão é “ter ou não ter”, o Natal tornou-se a época por excelência para a satisfação da gula, da sofreguidão da posse, reprimidas ao longo do ano, a época em que a felicidade e a generosidade são obrigações nem sempre fáceis de cumprir. (Refiro-me, é claro, ao Natal do comum dos mortais portugueses, e não ao dos que, em qualquer época do ano, fazem as suas compras em Londres, ou Nova Iorque, sem preocupações com o cartão de crédito).

E porque “não posso escrever mais alto”, Feliz Natal, Feliz Ano Novo - para todos, sem excepção!

 

*     Poetas espanhóis, recentemente premiados.   

**    Do poema de Cesariny: “You are welcome to Elsinore”

*** Do poema "No Céu tem Prozac”, do poeta brasileiro Soares Feitosa.

Lisboa, natal de 2006

 

 

 

 

 

 

 

 

Thomas Colle,  The Return, 1837

 

 

 

 

 

Maria Alice Vila Fabião


 

Habitação

 

Navegam os meus olhos - a reboque o coração, que sempre teima em deixar-se arrastar nestas viagens - através do desconhecido, do que se oculta para além dos dentes.

A ferocidade!!! Como ir mais além na leitura, perante a ameaçaAlbrecht Dürer, Germany, Study of praying hands de sermos destroçados no simples acesso ao mais recôndito da habitação do Ser?

Venho de ausências - onde, em vão, busco a ausência definitiva. Por que não entrar, ultrapassar, então, autocida, essa barreira de agressividade defensiva?

A partir daqui, SF, devia eu própria erguer todas as minhas barreiras, regressar ao escaninho mais oculto de mim mesma e silenciar - proteger-me, contra a força do vórtice que me arrasta, rompendo-me, despedaçando-me, de aresta em aresta, paradoxalmente suaves, todas, terrível e dolorosamente suaves, todas!

Por que me tremeu o coração à vista dos dentes-garra, ameaçadores, do Homem-fera, devorador - Lado 7, Talvez outro Salmo: "...cheguei para tomar/ e tomei,/ com toda a ânsia, e tomei, / comi e comi; bebi e bebi; gritei e gritei:pecado raiz /..../qu'eu sempre quis mais, de jamais chegar: a GULA." ? Os dentes...

Quão mais perigoso, e doloroso, no entanto, este mergulhar abrupto do outro-lado, na penugem dos canários, onde a metamorfose se processa, na viagem pelos sentidos, de Homem-dentes, Homem-Homem, em Mulher- Fêmea, Mulher-Mãe!!!

Dói mais, mas muito mais, ficar a saber, no ritmo acelerado dessa viagem - já lhe disse quão importante para mim é o ritmo, dimensão que envolve corpo e espírito, mas corpo também, ou sobretudo -, da existência, algures, por trás dos dentes-garras, da indecisa ambivalência da mão, da existência desse regaço materno e maternal. Como dói saber que ele existe!

"Um dia morei sobre o peito de minhas mães,
branca e preta, as mães,
(todas verdadeiras)
na mesma medida, agora, assim,
minha banda-fêmea
te regaça:
desta vez,
"mulher",
sou tua "mãe"..."

Volto a "Balançando Devagarinho" - há sempre um regresso a "Balançando Devagarinho".

A ambiguidade, "ambi-valência", de ", mulher," - vocativo+Theodore Chasseriau, França, 1853, The Tepidarium auto-afirmação? Assim a leio, no meu capricho habitual de ler o que quero, como quero.

SF, quero chegar ao fim, rápido - que me sinto arrastada pela torrente, ondulada e frenética, desta psique/habitação hermafrodita: "te esbalda na cavilha deste peito-pulso" - diz, homem. Que de mais masculino que um peito-pulso, cavilha de peito largo, símbolo, no homem, da força-protectora correspondente à suavidade-protectora de um regaço de mãe?

Habito agora apenas esta minha mão;
sou apenas esta mão:
....
mão, o calor de tuas sedas.
....
E se dormires
recobrirei respeitosamente a tua
nudez...
que da aurora,
vigilante
eu tomo conta.

Ula a ferocidade?

Entre o mais puro erotismo e a pureza mais pura, é onde você habita, ondulante, no topo da vaga, na profundeza do sorvedouro, na quietura da água límpida, turbilhão andrógino que nos arrasta, indefesos para abismos ignorados.

É consigo ou comigo mesma que estou zangada? Deve ser comigo mesma, SF — porque sempre é comigo mesma que me zango, com esta incapacidade de resistir e dizer apenas: "Muito obrigada, SF, por ter escrito mais um poema em que há todas as coisas de que gosto...", calando a minha fúria pelo turbilhão em que me lançou, arrancando-me à ausência voluntária; calando a minha fúria pela incapacidade de racionalizar o que sinto no seu poema, em palavras bem medidas, idas buscar a modernos e bem pensados compêndios de crítica literária.

Assim...? Que dizer?

É nas profundezas de mim mesma que o sinto, o seu poema. O reino da ausência de palavras. Após a minha tentativa frustrada de as procurar, algumas horas depois de ter iniciado a busca, vários telefonemas, duas visitas, um almoço, pelo meio, creio que só no abismo do inconsciente de ambos haveria possibilidade de comunicação.

Estenda o seu dedo: eu serei ET (lembra-se daquele simpático alienígena, vindo, como eu, de outra galáxia?), e também eu estenderei um dedo breve: um toque leve e as palavras serão inúteis.

Assumindo as maneiras de cá, diria apenas: e se pusesse uma vírgula a seguir a "pausadamente..."? Alargaria ainda mais a respiração desse pausadamente... [Alícia, pronto, botei a vírgula. SF]

Que, por agora, regresso, pausadamente, ao Nada, que "meOctavio Paz, Nobel deshabita". Talvez uma viagem às origens: concerto no Instituto Cervantes: Guitarra espanhola - Turina, Torroba, ... Por que não me deixar cair num "infinito ontem"?
 

Um grande abraço - pelo Habitação!
 

Alicia
 

Lisboa 08.02.1999

 

Notas do JP:

1 - A citação sobre Talvez outro salmo
2 - A citação sobre Balançando devagarinho
3 - A citação "me deshabita" in El Ausente, de Octavio Paz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Velazquez, A forja de Vulcano

 

 

 

 

 

Maria Alice Vila Fabião


 

Architectura, de Soares Feitosa

 

Não se admire do aparente laconismo da minha reacção à supresa com que deparei no endereço que me deu.

Subitamente, fiquei confusa, devo confessar. DemasiadasTiciano, Flora idéias ao mesmo tempo, e os olhos a cairem-me, sem explicação na data: não, não era um poema que eu ainda não conhecia, mas sim um, acabado de fazer, quase no minuto; mais: que, para dizer a verdade, só iria ser escrito dali a algumas horas, já que o dia 19 ainda era futuro.

Arquitectura — escrevemos nós — não é o mesmo que escultura, mas no poema era, pelo menos para mim.

Porquê? Se tivesse conseguido desenredar todos os sentimentos, todos os pensamentos que nada deviam ao raciocínio frio, eu teria conseguido escrever muito e muito mais.

Assim fiquei-me pela reacção instintiva: dizer-lhe que o achava belo, como continuo a achar.

É um poema (recuso-me a chamar-lhe poemeto, como a outros que assim classifica) contido, tão completo e perfeito em si mesmo como a mais ínfima, mas perfeita, das moléculas de que podem nascer mundos - porque em si os contém, já.

Desde o primeiro instante, no aturdimento provocado pela surpresa inicial, o meu cérebro estabeleceu, instintivamente, uma conexão natural, em que a palavra fundamental estava lá, perturbante, quase aparentemente deslocada, inexplicável, no final do poema: pássaros.

Em tempos, entre as muitas traduções feitas, houve o caso de uma pequena enciclopédia de animais, para crianças. Foi uma época de pesquisar a vida dos animais na natureza, um deslumbramento de descobertas que não mais iria esquecer.

Entre eles, sobressaía um pássaro: o jardineiro..., cujo nome completo não consigo recordar. Mais tarde, conheci-o pessoalmente, num programa de televisão. Nem sei se será brasileiro. Não tinha a plumagem das aves-do-paraíso, nem qualquer outra característica que o tornasse particularmente atraente aos olhos dos humanos. No entanto, para mim, ele ficou um símbolo, para todo o sempre.

(Como gostava de me lembrar do nome completo, porque também ele significativo... Vou chamá-lo apenas, jardineiro.)

Na época de cortejar a amada, o jardineiro não tomava nenhuma das atitudes, por vezes ridículas, por vezes de uma graciosidade maravilhosa, que os seus confrades tomam para conquistar a companheira da época ou da vida.

Em vez disso, limitava-se a fazer o ninho, mas a fazê-lo com todo o rigor, com o maior dos cuidados. Era um ninho feito no chão, quase uma casa, à frente da qual estendia o seu jardim. E não era qualquer flor que lhe servia: o jardineiro punha requintes de bom-gosto na obra que queria oferecer à sua amada: só pétalas de flores azuis, nada de outras cores, que tornariam a sua obra vulgar. Pétalas, vidrinhos, tudo quanto fosse azul... (Não era azul a flor da felicidade, para Novalis? Quem sabe se ele não encarnaria a alma do poeta, na sua procura de felicidade?) Poeta ele era, o jardineiro. Arrumava, voltava a arrumar, mudava as coisas de sítio, escolhia os melhores ângulos... Ficava-se a olhar, a estudar efeitos... Mais do que todos, ele sabia do verdadeiro amor.

O seu poema?

A parada nupcial é, nos pássaros, como muito bem sabe, sobretudo, um complexo conjunto de gestos e comportamentos, entre os quais, fundamental, sobressai a construção do ninho. "só os pássaros."

SF, o seu poema é extremamente perturbador, além de belo.

Você põe o mesmo requinte do jardineiro na construção da sua oferenda a "Ela". O trabalho - seu: as mãos, que, tal como na escultura, representam o contacto directo, sobressaem, poderosas...

O cumprimeto dos rituais nos mais ínfimos pormenores, ali: o começar por amassar os tijolos com os próprios pés Não compra, não procura: faz, amassando, no gesto fundamental, o barro-terra, com os pés (gesto simples, do homem também da terra), para o transformar nos elementos fundamentais da sua oferenda.

Para as telhas - o culminar da sua obra - guarda o barro mais macio... Quantos mais pormenores? As formas, uma a uma, apenas completadas pelo poeta - que a Ela o desenho, a escolha da oferenda que espera receber: a casa, símbolo de união e intimidade - quando "só nossa".

"Ela as alisará longamente" - alisar... longamente... O gesto de aceitação, de colaboração, naquele ritual de acasalamento...

O coração ficou-me, no fim, naquele verso: "seus dedos molhados de um profundo silêncio:"

Que outro verso podia estar ali? Você, SF, sabe do que fala, da arte do ritual de construir, com as suas próprias mão: o alisar o barrro, exige as mãos molhadas — o ritual do amor partilhado, mais puro no silêncio profundo.

Palavras para quê? "Só os pássaros."

Sei que não consegui desembraraçar a confusão de pensamentos suscitados pelo seu poema. Só sei que, inexplicavelmente, me calou fundo.

O que eu não fui capaz de dizer, leia-o você mesmo, SF.

Aposto que lançou as palavras, sem mesmo se dar conta da perfeição da sua própria "Architectura". Uma contenção plástica perfeita e uma "plasticidade concreta", se é que se pode dizer tal coisa, igualmente perfeita. Você disse tudo: nada a pôr, nada a tirar.

Acabo, depois de ter dito tudo isto, com a mesma frustração que ontem me manteve quase silenciosa. Sei que não consegui traduzir os sentimentos (não posso falar de pensamentos, neste caso) em palavras.

"Ela" compreenderá, sem necessidade de explicações, tenho a certeza.

E você saberá que o achei tão belo, que dá vontade de nos embrulharmos nele - e sonharmos com jardineiros-pássaros e flores azuis, de Novalis.

Alicia - 19.11.98


[Dois eslcarecimentos:

Architectura foi realmente escrito na manhã do dia 18.11.98. Por engano, datei-o com 19. Isto, naturalmente, espantou os leitores. Alicia, no primeiro e-mail comenta "que a manhã de 19 ainda não tivesse chegado"

As "Leónidas", referidas por Alicia, seria a chuva de micrometeoritos anunciada — decepção, foram poucos! — na véspesa pelos astrônomos do mundo inteiro. SF].

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Maria Alice Vila Fabião


 

Lua de Março

.....
Levo e trago os murmúrios do regato.
Só eu sei peneirar a neblina:
quando mestre Sol timidamente
fabrica o Arco-íris,
verdade mesmo,
o Artista sou eu:
tanjo as nuvens!
****
...porém, intrépido
e tórrido aos corações,
é assim que estremeço
o assobio da noite
às biqueiras da saudade
quando a ausência
é medo.

*****

A mais bela, a voz do Vento que peneira a neblina, que lavra os sons, que tange as nuvens, que estremece o assobio da noite às biqueiras da saudade - quando a ausência é medo.

Já há muito que aprendi que nenhum momento se repete - apesar de todos serem repetição de outros que vivemos ou sonhamos ter vivido.

Por que não acreditar que o tempo desapareceu, tangido pelo vento com as nuvens, e repetir, às biqueiras da saudade, o momento vivido - ou sonhado? Para quê o medo?

No silêncio, aqui, só o eco da voz de Caymi: "Vamos chamar o vento!..."

Que dele, Vento, a voz mais bonita do poema. Que ele continue a acompanhar a "moça", onde quer que... E o centauro-de-si. Onde quer que...

Com um grande abraço - e um dia feliz para ambos! Onde quer que... Como quer que...

Alicia

 

Leia o poema
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Exposition of Moses

 

 

 

 

 

Maria Alice Vila Fabião


 

Rezava

 

Pende do ar,
em estalactites,
a saudade
que o silêncio frio
da tarde
gelou!
No pensamento parado
ficaram nus
desejos de liberdade
que a tarde
formou
e o silêncio despiu.
E neste mundo gelado
em que o silêncio caiu
é branca a alma,
e os desejos
- frios e crus -
parecem ter estacado
em pregas geladas
que envolvem o mundo!
E na tarde calma,
como na minha alma,
dormem enlaçados
o silêncio e o frio profundo!


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Empire of Flora

 

 

 

 

Maria Alice Vila Fabião


 

Sensitiva

 

"Sensitiva" me chamava,
"flor da noite",
e os seus dedos-brisa
em vão tentavam
dedilhar o silêncio-de-impossíveis
entre nós ambos.
Eu me fechava.
E no reino imaginário
do faz-de-conta,
onde habitávamos,
o mar era aranha
e incansável tecia
teias de renda
de espuma-baba.
— "Manuel de Falla..." — a voz falava.
E eu meu fechava,
que eu era
flor nas "Noites
nos Jardins de Espanha."