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Culpa

 

Mary Wollstonecraft, by John Opie, 1797

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Gilson Nascimento


 

A poesia de Soares Feitosa

 

Prezado Soares Feitosa

Chegou-me, com seu gentil autógrafo, Psi, a Penúltima. Como o José Bonifácio Câmara, meu colega de infância e bibliófilo especializado em autores cearenses, já havia feito referência ao seu primeiro livro, aliás de belíssimo aspecto gráfico, mais que depressa, mergulhei na leitura.

Corri os olhos pelo seu interessantíssimo Prólogo, depois passei à Aparição da Poesia, do Gerardo Mello Mourão e, sem perda de tempo, embrenhei-me. E ainda sob o impacto da emoção que me causaram os poemas iniciais, entre os quais estão Perdidos & Achados (o belo-simples, a poesia sem atavios) e Antífona, para o qual não tenho palavras, deparei-me no jornal O Globo, de sábado último (26.04.97) com o artigo do crítico Wilson Martins, uma autêntica apoteose.

Confesso-me, desde já, encantado com o que ali até agora, porque, nordestino autêntico, profundamente telúrico, sinto arrepios de emoção à leitura de poesia que, como a sua, na linguagem, no jeito de dizer, na força e na fidelidade descritivas, vem impregnada do cheiro inconfundível da terra e da gente nordestinas.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rubens, Julgamento de Paris

 

 

 

 

 

Gilson Nascimento


 

Inspiração


Caro tio, teu verso está em mim
Sinto-o a cada momento, quando escrevo
No princípio, no meio, até no fim
Do meu poema inspiração te devo


Adolescente, bem me lembro ainda
Eu te escutava cheio de emoção
Alguns sonetos teus – saudade infinda!
São patrimônio de meu coração


Sem rebusques, rimavas facilmente
Teu verso, que cantava, e era fluente
Trazia a marca da simplicidade


E hoje, ao recitar-se para alguém
A emoção juntar-se à fala vem
E os meus olhos marejam de saudade


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904) - Phryne before the Areopagus

 

 

 

 

 

Gilson Nascimento


 

Morte ao amanhecer


Na quieta e calada madrugada
Morrem as vozes, nascem os sussurros
Há um respirar, é tardo, é ofegante
Sopro débil de vida que se apaga


Junto ao leito a família reunida
Partilha a mágoa que enluta corações
Ninguém se comunica por palavras
Olhar e gesto casam no silêncio


Um pássaro se alegra, o dia nasce
E o claro sol que lhe assoma à face
Penetra, vivo, o quarto do doente


E o astro sua lida iniciando
Derrama luz no olhar do moribundo
O ocaso de uma vida alumiando


 

 

 

 

 

 

10.08.2005