Mais de 3.000 poetas e críticos de lusofonia!

Luís André Nepomuceno

 

nepomuc@terra.com.br

 

Andreas Achenbach, Germany (1815 - 1910), A Fishing Boat
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:

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Crítica, ensaio e comentário:

 


Fortuna:


Uma notícia do autor:

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Velazquez, A forja de Vulcano

 

Tiziano, Mulher ao espelho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci

 

 

 

Adelto Gonçalves

 

 


 

 

Petrarca em Minas Gerais

                                                                                                   

 

           

                                                           I

O petrarquismo como fenômeno literário sempre esteve atrelado à existência de uma corte. Sua importação pela América portuguesa, no século XVIII, foi uma contradição à própria origem e razão da existência do fenômeno, pois nunca houve corte no Brasil até o começo de 1808, quando desembarcou no Rio de Janeiro a família real, em fuga das tropas napoleônicas que invadiram Portugal em novembro de 1807.

Isso, porém, não impediu que alguns poetas exercitassem em suas liras o espírito petrarquista, o que não deixava de ser uma contradição. Sem corte, não havia cortesão nem cortesia. Portanto, toda iniciativa de poesia cortesã poderia soar falsa. Mas os fatos não foram assim tão simples.

É o que mostra o professor Luís André Nepomuceno em A musa desnuda e o poeta tímido: o petrarquismo na Arcádia brasileira, resultado de sua tese de doutoramento em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 2000, sob a orientação da professora Suzi Frankl Sperber, e que contou na banca também com os professores Jorge Ruedas de la Serna, da Universidade Nacional Autônoma do México, Melânia Silva de Aguiar, da Pontifícia Universidade Católica, de Belo Horizonte-MG, Fábio Lucas, da Universidade Nacional de Brasília, e Alcides Vilaça, da Universidade de São Paulo.

Para Nepomeceno, é razoável que o petrarquismo tenha soado falso no Brasil colônia aos ouvidos de alguns, mas é esse mesmo fenômeno literário revestido de tinturas coloniais que vai dar formato à realidade brasileira. Foi algo parecido, compara o ensaísta, ao que fizeram poetas cortesãos renascentistas do século XVI, que se sentiram na necessidade de se libertar dos moldes da vassalagem cortesã, como Ronsard e Philip Sidney.

                                               II

 

O autor ressalta ainda que a ausência de uma corte na colônia não impediu que as elites portuguesas no Brasil imitassem valores cortesãos. Mas é claro que a importação de uma civilização acarreta modificações essenciais, “especialmente se há ausência de elementos básicos por parte do país colonizado”, diz o ensaista.

Além disso, o Brasil não foi colonizado por aristocratas e homens da corte. Sem contar que, de 1580 a 1640, a corte foi espanhola, permanecendo Lisboa abandonada nas mãos de mercadores burgueses, ávidos de emancipação econômica, mas pouco interessados em boas maneiras ou na tradição aristocrática. Mas, restaurada a coroa, não se pode dizer que, entre os homens escolhidos para governar as capitanias da América portuguesa, não houvesse gente de cultura refinada, da alta nobreza, que falava e lia em vários idiomas.

De uma enfiada, podemos lembrar aqui de D.Brás Baltasar da Silveira, que tomou posse do cargo de governador e capitão-general da capitania de São Paulo e Minas de Ouro em agosto de 1713, na cidade de São Paulo, e de seu substituto, D.Pedro Miguel de Almeida e Portugal, o conde de Assumar, ambos oriundos da nobreza que se destacara a partir da ascensão dos Braganças ao trono. 

Depois com a separação de Minas, a capitania de São Paulo continuou a receber governadores bem preparados do ponto de vista intelectual, como Rodrigo César de Meneses e Antônio da Silva Caldeira Pimentel. De Pimentel, sabe-se, inclusive, que chegou com a família, pois há documentos no Arquivo Histórico Ultramarino, de Lisboa, que registram a sua subida de Santos para São Paulo com a ajuda de guias indígenas.

Mas é claro que, à falta de interlocutores, esses governadores nunca tiveram tempo nem condições de reproduzir o ambiente cortesão. De Pimentel, os grandes senhores paulistas — gente rústica e mestiça, que enriquecera com o trabalho de caçar e escravizar indígenas — mostravam ressentimento e queixavam-se de que os ofendia freqüentemente com a perseguição que lhes movia, inferiorizando-os “perante os visitantes e os do Reino”. Por seu lado, o conde de Assumar passaria para a História como um dos mais despóticos dos governadores que andaram por Minas, ao mandar esquartejar, sem autorização da Corte, um tropeiro reinol, Felipe dos Santos, nascido em Cascais.

Já de Antônio Manuel de Melo Castro e Mendonça, que governou São Paulo de 1797 a 1802, a lembrança que ficou foi a de um governador mais preocupado em atravessar os negócios dos comerciantes da capitania. E não se pode dizer que fosse homem bronco. Pelo contrário. É autor de uma memória que resgata boa parte da história da capitania de São Paulo no século XVIII em que mostra seu bom preparo intelectual.

Criado no Palácio Cunhal das Bolas, no Bairro Alto de Lisboa, onde hoje funciona o Hospital São Luís (dos Franceses), monumento da Renascença portuguesa, Mendonça era conhecido como Pilatos, apelido que herdara do pai, Diniz Gregório de Melo e Castro de Mendonça, fidalgo conselheiro de Estado e segundo general dos Açores, que, enriquecido, comprara o célebre palácio construído por um rico comerciante lisboeta conhecido como Pilatos, o que levou a população lisboeta a estender a alcunha aos novos proprietários.

                                      III

 

A uma época em que tudo na América estava por fazer, não se podia esperar que esses capitães-generais pudessem ter muitas veleidades literárias, ainda que D.Rodrigo José de Meneses, filho do famoso marquês de Marialva, à época em que dirigiu a capitania de Minas Gerais no começo da década de 1780, tenha sido uma exceção, pois, apreciador das belas letras, foi incensado por poetas do calibre de Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto exatamente porque permitia que esses homens de cultura freqüentassem o palácio do governo para sessões lítero-musicais.

Em seu excepcional ensaio, Nepomuceno dedica a maior parte do espaço ao poeta Cláudio Manuel da Costa, introdutor do Neoclassicismo no Brasil e uma espécie de corifeu do movimento arcádico. Embora não se saiba que tenha freqüentado a corte ao tempo em que estudou em Coimbra, Cláudio, ao retornar ao Brasil, sentiu-se sempre um exilado em sua própria terra, suspirando pelas musas do Mondego.

Nunca pôde ser um poeta de corte, mas sempre escreveu com os olhos voltado à ética do refinamento cortesão. Só que, como observa Nepomuceno, sua poesia amorosa cortês vem muito mais de suas leituras eruditas do que de sua experiência de vida. É ele o poeta tímido, inconformado com o meio inculto e selvagem em que vivia, a que se refere o título do ensaio.

De fato, o sentimento de deslocamento no espaço social teve início com Cláudio, mas se fez presente nos demais poetas do período árcade. Mais tarde, no século XIX, esse comportamento seria interpretado por críticos românticos e exacerbados pelo nacionalismo como falta de amor à terra brasileira.

Nepomuceno mostra, porém, que no século XVIII a sensação de estrangeirismo reflete apenas uma condição cultural da colônia “e o desejo de sistematização de modelos de civilização, cujo parâmetro era a ilustração pombalina, no campo da cultura e das relações sociais, e o petrarquismo neoclássico, no campo da estética”. Exigir daqueles homens que tivessem tido comportamento diferente seria cair no movediço terreno do anacronismo.

                                                        IV

Luís André Nepomuceno, nascido em 1968, é doutor em Teoria Literária pela Unicamp e professor de Teoria da literatura e Literaturas de Línguas Inglesa no Centro Universitário de Patos de Minas (Unipam). Ficcionsta, é autor também de A lanterna mágica de Jeremias (Rio de Janeiro, Sete Letras, 2005) e Antipalavra (Rio de Janeiro, Sete Letras, 2004). Já conquistou os prêmios Guimarães Rosa, da Radio France Internationale, e Luiz Vilela, da Fundação Cultural de Ituiutaba-MG.

 

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A MUSA DESNUDA E O POETA TÍMIDO: O PETRARQUISMO NA ARCÁDIA BRASILEIRA, de Luís André Nepomuceno. São Paulo: Annablume. Patos de Minas-MG: Centro Universitário de Patos de Minas (Unipam), 307 p., 2002. www.annablume.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: adelto@unisanta.br

 

 

   
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

 

 

 

Um esboço de Leonardo da Vinci

 

 

Luís André Nepomuceno

 

 

 

Inventários da Memória

 

 

A Memória das Coisas: Ensaios de Literatura, Cinema e Artes Plásticas (Rio de Janeiro: Editora Lamparina, 2004), de Maria Esther Maciel, como nos adverte a própria autora em nota prévia ao livro, reúne ensaios escritos entre 1999 e 2003, publicados esparsamente em revistas e jornais do Brasil e do exterior. O que permeia toda a discussão do volume, abrangendo diferentes universos estéticos de poetas, cineastas e artistas plásticos, é a utilização peculiar de sistemas de classificação e catalogação de coisas, idéias e percepções do mundo, do tempo e dos indivíduos, partindo, sobretudo, de indagações modernas particularmente selecionadas e articuladas pela autora.        

Longe de fechar compartimentos arbitrários nesse maquinário abrangente da investigação moderna sobre a relação entre o indivíduo e o mundo, Maria Esther não se prende a uma escola crítica e, mais que isso, não se prende a uma linguagem estética apenas, seja a literatura, o cinema ou as artes plásticas; antes, mescla essas diferentes percepções e mecanismos de revivescimento do homem e do mundo, num todo que não se deseja necessariamente simétrico, nem harmônico, mas profundamente revitalizado. Nesse contexto, uma profusão de nomes se inclui e se oferece à lembrança, à medida que se lêem os ensaios: do cineasta Peter Greenaway ao artista plástico Arthur Bispo do Rosário, do escritor Jorge Luiz Borges ao cineasta Júlio Bressane, do cineasta Helvécio Ratton ao escritor Haroldo de Campos, do poeta Carlos Drummond de Andrade ao outro poeta Altino Caixeta de Castro. Todos eles são trazidos à discussão por um fio que os identifica: a capacidade, ou pelo menos o intento, de investigar ou traduzir o mundo. Assim, a organização dos ensaios está dividida em três partes: “Inventários do mundo”, “Texto, imagem, tradução”, e “Do inventário à invenção”, com um apêndice ao final do livro, em que a autora publica entrevista concedida a Floriano Martins, para o Jornal Rascunho, em março de 2003.        

Porque as questões são múltiplas e os ensaios, diversos e abrangentes, gostaria de me ater particularmente a duas questões que são colocadas no livro e que, de certa forma, dialogam com outras que venho pensando e considerando recentemente. É certo que minha maneira de enxergar o livro pode soar pessoal demais, talvez focalizando levianamente apenas aquilo que me diz respeito, mas ao mesmo tempo, não penso que tudo isso possa ser diferente, ou pelo menos, muito diferente. Afinal, estou diante de uma poeta cuja subjetividade assumida por meio de um “eu” multiplicado e explícito no poema é, sem dúvida, uma das marcas de sua poesia. As duas questões a que me refiro são, enfim, as seguintes: 1) a idéia de que as ordenações e classificações taxonômicas, explicitadas principalmente no cinema de Peter Greenaway são, na verdade, uma ironia e uma crítica aos próprios sistemas classificatórios da modernidade, iniciados, a meu ver, com a filosofia medieval escolástica e perpetuados pelo enciclopedismo iluminista; e 2) a idéia de que as coisas se inserem no universo da memória não pela funcionalidade, mas pela sua capacidade afetiva de articulações passionais.     

Ambas as proposições merecem uma breve consideração de minha parte. A primeira delas parece ser crucial ao desenvolvimento do livro. Maria Esther começa, dando-nos notícia das peças colecionadas por Arthur Bispo do Rosário, artista sergipano excluído do eixo intelectual e artístico do país: negro, pobre e psicótico (passou 50 anos num hospital psiquiátrico do Rio de Janeiro), Bispo coletou objetos quotidianos de sua existência como marinheiro e empregado doméstico, e organizou imenso acervo de sua memória, hoje no museu que leva seu nome. Convicto de que coletava cacos de sua vida para o Juízo Final, e de que tinha sido escolhido por Deus para reconstruir o mundo, Arthur Bispo do Rosário colecionou objetos avulsos, como navios de madeira, roda de bicicleta, faixas, fichários, miniaturas, tabuleiros etc. O gesto é motivo para Maria Esther identificá-lo com o cineasta Peter Greenaway, ele próprio confesso dessa identificação, quando de sua visita ao acervo de Bispo. Greenaway teria se impressionado com a forma como ele “parece zombar um pouco com a mania dos intelectuais de catalogar tudo, de transformar o mundo em verbetes de enciclopédia”.

O motivo parece permear toda a discussão de Maria Esther Maciel, em A Memória das Coisas, partindo, sobretudo, da filmografia de Peter Greenaway que, como Bispo do Rosário (porém com consciência estética e intenções definidas), procura obsessivamente representar a imaginação taxonômica, ou seja, a necessidade lógica que tem o homem, e mais precisamente a intelectualidade, de ordenar o universo e classificá-lo em sistemas e catálogos que dêem conta de suas multiplicidades. Esse novo “inventário do mundo”, ou “museu de tudo”, no entanto, propõe justamente o sentido oposto daquilo que nele aparentemente reside: essa exposição de um sistema classificatório, pensando-se na intenção proposta por Greenaway, funciona, na verdade, como um anti-sistema de classificação, como um contraponto paródico à própria obsessão da filosofia escolástica medieval (que, como disse, creio ser o primeiro grande momento moderno de um racionalismo classificatório de inspiração aristotélica), ou seja, a reimaginação da taxonomia, por parte de Greenaway e Jorge Luiz Borges, dentre outros, revive para nós a tradição humanista que, oposta a qualquer sistema de classificação, entende que as coisas não devem ser compreendidas ou ordenadas, mas apenas trazidas à memória do indivíduo, como proposta de ressignificação. Não foi por motivo gratuito que o primeiro Humanismo substitui o termo “nomen” (“nome”, “denominação”), largamente difundido pelo nominalismo, pelo termo “res” (“coisa”, em sentido genérico), ou seja, substituiu o nome pela coisa, a denominação das coisas pela sua essência. É esse o legado de nossa filosofia moderna: qualquer denominação, ou anseio de sistematização, servirá para nos lembrar que toda catalogação é um fim em si mesma. Nesse sentido, A Memória das Coisas está afinado com as agruras e anseios de revitalização do homem, por parte de um lado da nossa modernidade.

        

E as coisas, ou objetos não compreendidos, porém trazidos à memória como entidades ressignificadas, é o segundo tema que destaco no livro, como ponto de convergência (segundo Maria Esther) entre poetas e cineastas, como Drummond, Altino Caixeta, Júlio Bressane, Helvécio Ratton. Com destaque ao livro Lição de Coisas, de Drummond, a autora revela que os objetos do mundo são vistos, pela poesia, como coisas (no amplo sentido da palavra) que, destituídas de sua funcionalidade ou de sua serventia, são deslocadas para um campo afetivo e passional, na ordem de uma memória profundamente subjetiva. É o que parece explicar muito do discurso lírico de O Livro de Zenóbia, volume de ficção também recentemente lançado por Maria Esther, e que investiga a existência poética de uma alma feminina, ao longo de seus mais de 90 anos. As listas supostamente guardadas nos cadernos de Zenóbia (nomes de aves, de cidades raras, de temperos, palavras preferidas e outras coisas) parecem atestar não a ordenação catalográfica de uma vida, mas a desordem angustiante e profundamente sedutora da memória.

        

Por fim, quero lembrar mais uma vez que A Memória das Coisas termina com entrevista de Maria Esther, concedida a Floriano Martins, em que discutem poesia, alteridade, referências teóricas, modernidade e outros temas. De resto, gostaria de me referir a uma frase da própria autora, bem ao fim da entrevista, e que me parece uma das necessidades mais urgentes da crítica no Brasil, sobretudo jornalística, o que serve tanto para os jornais inexpressivos do interior, quanto para os de maior circulação: “Sem crítica não há mobilidade do pensamento. E não se confunda crítica com a desqualificação sumária do outro, com a intolerância. O exercício crítico requer também a responsabilidade ética de entender a lógica do outro, para então colocá-la em crise, evidenciar suas contradições e fragilidades. Algo que precisa ser mais exercitado por nós, intelectuais do presente”.

 


 

Link para a page de Maria Esther Maciel

 

 
   
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
10.10.2007