Ruth, de Francesco Hayez, 1791-1882  

Soares  Feitosa

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Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido
 

Mergulho

 

Ela corria pela ravina 
quand’eu lhe gritei: 
desce, amor, sou eu. 
  

Ela me perguntou: 
o que me trazes, 
o que me ofereces? 

 
Trago no meu corpo 
o perfume da terra áspera,  
o cheiro da terra 
na primeira neblina,  
para ti eu trago. 

  
Nos meus olhos,  
o fruto amanhecente 
numa aurora de ouro, 
às tuas narinas,  
eu trago o fruto. 
  

Trago também, só para ti eu trago 
o furor da tempestade, 
o tremor do vento do deserto, 
que de dia é quente, 
que de noite é frio, 
e aos teus cabelos não negarei  
o arrepio  
nem o mergulho, 
não negarei... 
  

E na ponta dos meus dedos 
um dedilhar suave, 
uns tons de sol, 
uns tons de lua: 
esquadrinharei todo o teu rosto, 
pétala a pétala,  
numa manhã de rosa. 
  

           — Agora vem! Desce, amor! 
  

Foi quand’ela saltou, 
desequilibrou-se, nem sei,  
de despenhadeiro abaixo, 
e suavemente, pela cintura,  
nos pousamos: 
eram touceiras azuis 
dos manjericões de cheiro.

 

Salvador, Ba, noite leve, 31.10.1995

 

 

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Rodrigo Marques

 
 

A menina afegã

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelangelo, Pietá

 

 

 

 

 

 

Hélio Rola, Sem cabeça

 

“Mergulho” de Soares Feitosa no “Romance” de José Albano

  

José Albano publicou, em 1912, em Barcelona, as Rimas de José Albano – Redondilhas, onde guardou um poema de título simples: “Romance”. Poema mais fácil de ser encontrado em “Rimas”, livro organizado por Manuel Bandeira e que teve sua edição mais recente no Programa Editorial Casa José de Alencar, UFC, 1997. Rodrigo Marques, ago/2003

“Psi, a penúltima” (Edições Papel em Branco, Salvador, 1997), único livro impresso de Soares Feitosa, traz em suas páginas, além do cheiro de imburana, o poema “Mergulho”. Poema mais facilmente manuseado no sítio www.secrel.com.br/jpoesia.

Oitenta e três anos separam os dois poemas, retornos, manchas, palavras. Feitosa escrevera o dele em noite leve, mais precisamente no dia 31.10. 95, já o de Albano não sabemos, certamente bem antes de sua publicação em 1912 (uma vez que o poeta era um obcecado por perfeição). De qualquer forma, parece que o de Feitosa foi feito logo após o de Albano, como se os dois poetas alternassem a escrivaninha e o tinteiro daquela noite baiana e européia...

Leiamos primeiro, respeitando o tempo, passo a passo, o “Romance” de José Albano, segundo o “Mergulho” de Feitosa:

 

À margem da correnteza

Sonorosa e cristalina,

Sem cuidado alegremente

A doce avena eu tangia.

E das Campinas distantes

E das florestas vizinhas

Me respondiam as aves

E os ecos me respondiam.

Quando pelo verde prado

Graciosamente vinha

Da minha pequena aldeia

A mais formosa menina.

Eram de rosa os seus lábios,

As faces de neve fria,

Os cabelos noute escura

E os olhos luz matutina.

E por onde ela passava,

Namoravam as florinhas;

Beijavam-lhes os pés violetas,

Jasmins lhe à fronte caíam.

E eu, todo maravilhado

Com a aparição divina,

Via o sorriso da boca

E o brando volver da vista.

E à margem da correnteza

Sonorosa e cristalina

Triste e magoadamente

Suspirava e assim dizia:

“Linda e amorosa pastora,

“Donzela amorosa e linda,

“Se há pouco aqui vieste,

“Por que já vais de partida?

“A tantos mimos e encantos

“Não há peito que resista,

“Um só dos ternos olhares

“Me prendeu por toda a vida.

”Um só dos sorrisos brandos

“Tornou minha alma cativa

“E agora um só de teus beijos

“Pode curar-me a ferida.

“Ai, coitado! Indo-te embora,

“Mal sabes, doce inimiga,

“A ventura que me deixa,

“A saudade que me fica”.

       Agora, com a devida calma, o poema de Soares Feitosa:

            Ela corria pela ravina

quando'eu lhe gritei:

            desce, amor, sou eu.

 

Ela me perguntou:

            o que me trazes,

o que me ofereces?

 

            Trago no meu corpo

o perfume da terra áspera,

            o cheiro da terra

na primeira neblina,

            para ti eu trago.

 

Nos meus olhos,

            o fruto amanhecente

numa aurora de ouro,

às tuas narinas,

eu trago o fruto.

 

Trago também, só para ti eu trago

            o furor da tempestade,

o tremor do vento do deserto,

            que de dia é quente,

que de noite é frio,

 

e aos teus cabelos não negarei

            o arrepio

nem o mergulho,

            não negarei...

 

E na ponta dos meus dedos

            um dedilhar suave,

uns tons de sol,

            uns tons de lua:

 

esquadrinharei todo o teu rosto,

            pétala a pétala,

numa manhã de rosa.

 

Agora vem! Desce, amor!

 

Foi quand’ ela saltou,

            desequilibrou-se, nem sei,

de despenhadeiro abaixo,

            e suavemente, pela cintura,

nos pousamos

            nas touceiras azuis

dos manjericões de cheiro.

 

Desemborquemos os barcos, os cascos, as faces da neve fria, os manjericões de cheiro... a mesma pastora à margem da correnteza, na ravina, acompanhada por dois pares de olhos, de dois poetas: um a contempla e nada diz; o outro, mal a vê passar, e já vai oferecendo manhãs e as mãos e o corpo inteiro para um mergulho em touceiras azuis; aquele amarga uma saudade que fica...

Desemborquemos as manchas e o retorno mais uma vez... quem sabe, o mesmo poeta, esperando, criando coragem para falar, depois de contemplá-la tanto, as mãos frias, adolescentes, finalmente: “desce, amor, sou eu”.

O encontro proporcionado aqui entre Soares Feitosa e José Albano vem ilustrar o diálogo atemporal realizado pela arte e pela cultura de um modo amplo, ou como disse Guimarães Rosa em carta a Edoardo Bizarri: “(...) digo a verdade a Você. Eu, quando escrevo um livro, vou fazendo com se o estivesse “traduzindo”, de algum alto original, existente alhures, no mundo astral ou no “plano das idéias”, dos arquétipos, por exemplo...”. A literatura sendo escrita por várias mãos, por vários olhos...

Fortaleza, 30.7.2003

Rodrigo Marques

  

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Albrecht Dürer, Mãos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

John William Waterhouse , 1849-1917 -The Lady of Shalott

 

 

 

 

 

 

Valdir Rocha, Fui eu

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Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes

 
O prisioneiro

 

 

 

 

 

José Saramago, Nobel

 

Sent: Friday, August 01, 2003 5:17 PM
Subject: Re: [LITT] Um intertexto de José Albano


Caro bardo, do estro sertanejo refinado! 

Sinto saudade de nossos conversares, que se amiudam na ausência cada vez mais intensa.

Agora, só sei de você por suas entradas eventuais nesta Lista. 

A partir da de hoje, fui lá e abri a bela página do JP e li tudo: o seu poema e o comentário consistente do cidadão que você cita abaixo, que teve o cuidado de reproduzir o Romance do Albano, com as inevitáveis marcas do tempo em sua expressão poética.

Sinceramente, gostei mais da beleza refinada e da força poética do seu.

Mandei aquela página para várias amigas. As mulheres saberão intuir tudo quanto você apenas insinua nos interstícios de seus versos, como em frinchas de velho muro de pedra por onde se expande os musgos e a memória dos afetos. 

Segue junto meu fraternal abraço, jejuno de falas.

  

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Um cronômetro para piscinas

 

 

 

 

 

Blake, O compasse de Deus

Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

 

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