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Ronaldo Werneck


Poesia:


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Fortuna crítica:


Alguma notícia do autor:

 


 

 

 

Allan Banks, USA, Hanna

 

Edna Menezes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vale or Farewell, ARTHUR HACKER (RA), (1858 - 1919)

 

 

 

 

 

Ronaldo Werneck


 

Uma rápida biografia



Ronaldo Werneck Silva, Cataguases, MG, 23.10.43.

Email: <roneck@terra.com.br>
Site: www.ronaldowerneck.com.br
Praça Rui Barbosa, 68 apto 102
36770-034 – Cataguases MG

Telefone: (32) 3422-2337 – Telefax (32) 3421-4653

Poeta e jornalista, Ronaldo Werneck tem trabalhos publicados no Brasil e no exterior. Morou um ano na Bahia (Salvador, 1964) e mais de 30 no Rio de Janeiro, onde atuou em vários jornais. De 1991 a 1995 foi Assessor de Imprensa e Editor de Textos do Centro Cultural Banco do Brasil. Desde 1998 voltou a residir em Cataguases.

Co-editor/fundador, junto com o poeta Joaquim Branco, de O Muro (1962), SLD (1968), Totem (1974) e Cataguarte (anos 80/90), jornais do movimento de renovação/experimentação literária de Cataguases. Nos anos 60, integrou o grupo do Poema Processo e foi um dos organizadores do Festival Audiovisual de Cataguases (música & poemas visuais) em suas duas versões (1969-1970). Editou três livros de poemas-solo, Selva Selvaggia (1976), Pomba Poema (1977) e Minas em mim e o mar esse trem azul (1999). Em 1997, lançou Cataguases é Cachoeira, homenagem aos 100 Anos de Humberto Mauro.

Participou de várias antologias poéticas, sendo as mais recentes A Poesia Mineira no Século XX (1998) e Poemas Cariocas (2000) Três livros de poemas inéditos – Tempos de Mineração, Preto Nu Branco e Doris Day by Night – e um de “prosa pós-patética”: Há controvérsias.

Mais Ronaldo Werneck:
http://www.ronaldowerneck.com.br/
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Winterhalter Franz Xavier, Alemanha, Florinda

 

 

 

 

 

Ronaldo Werneck



Oficina



Passei cerca de 40 dias na Argélia em 1979. Representante oficial da Cacex na Feira Internacional de Argel, muitas vezes fiquei responsável pelo stand do Brasil enquanto seu presidente, o Secretário do Itamaray Antonino Gonçalves, ia a Genebra ou a Paris para resolver alguma pendência mais urgente. Era um tempo de Leste-Oeste, esquerda-direita, quando a guerra Ocidente-Oriente ainda era fria. Não um “fria” como agora. O mundo todo estava em Argel, os países exibindo em mega-stands suas últimas conquistas tecnológicas, industriais e até mesmo bélicas. Num daqueles dias em que presidia o stand – Antonino fora a Paris –, surgiu o representante da Nação Saharaoui, cujo stand eu já conhecia e que ficara famoso na Feira por exibir exclusivamente filmes e equipamentos aprisionados ou recuperados durante a guerra que travavam naquele exato momento ao Sul do Marrocos, no Saara Espanhol.

O saharaoui soubera que eu pertencia ao Banco do Brasil e viera me consultar sobre possíveis financiamentos do BB às batalhas que seu povo travava no deserto. Tive que lançar mão de toda a (pouca) diplomacia aprendida naqueles dias ao lado do Antonino para “sair da enrascada”. Nunca a expressão “Há controvérsias”, poderia ser tão bem aplicada quanto naquele momento. Não podia simplesmente dizer não, pois isso poderia gerar um quiproquó internacional, mesmo porque no momento eu era o presidente do stand do Brasil. Dizer “sim”, é claro, estava fora de cogitação. Então, deixei mineiramente o nosso saharaoui em banho-maria, enquanto aguardávamos “uma possível resposta de Brasília” – a quem eu afirmara estar consultando via fax. “Mas a resposta”, dizia a ele, “seria demorada porque o pedido teria que ser avaliado pela diretoria do Banco”.

Por conta disso, o saharaoui acabou “meu amigo” – e sempre vinha puxar conversa nas recepções que aconteciam quase todas as noites nos inúmeros stands da Feira. Não lembro mais seu nome. Só que perdera uma orelha na guerra – e isso era motivo de grande orgulho, exibido quase como “um troféu que faltava”. Uma noite, durante um coquetel no stand da Áustria, eu estava dançando com Georgia, uma húngara de cem quilates de quem ficara amigo, quando o saharaoui me abordou. “Monsieur, amanhã Arafat chegará a Argel e daremos uma recepção em nosso stand. Faço questão de sua presença”. Enquanto conversava com ele, começou uma dança folclórica argelina e vários árabes cercaram Georgia no compasso da dança. E literalmente “dançei”, pois me tomaram a nobre dama magiar.

Georgia me acenava meio aflita, mas eu e o saharaoui nada pudemos fazer por ela, a não ser bater palmas ao compasso da música. “Amanhã Arafat chegará”, repetia o saharaoui – e durante toda a noite só se falou nisso em toda a Feira e acredito que em toda “Alger la blanche”, como é carinhosamente conhecida a bela capital argelina. Yasser Arafat, o líder da Autoridade Palestina, vinha para uma conferência em Argel e era aguardado com visível esperança por toda a nação árabe. Não o conheci, apenas o vislumbrei de passagem durante o “coquetel saharaoui” da noite seguinte. Meu amigo chegou a me presentear com um daqueles turbantes em preto-e-branco que marcam até hoje sua figura, infelizmente extraviado na volta ao Brasil. Nunca mais vi Georgia. Nunca mais, também, me esqueci daquela noite-véspera de Arafat em Argel.

O poema a seguir tem quase vinte e cinco anos, mas é inédito. Foi feito durante aqueles dias em Argel e o publico agora numa homenagem ao líder árabe, Nobel da Paz em 1994, exatamente no momento em que seu poder na Autoridade Palestina começa a perder força face às intensas pressões do governo Bush.
 



ARAFAT CHEGARÁ


                                                                                  lua-luar
                                                                           despenca
                                                         sobre o mediterrâneo
amanhã
arafat
chegará

manchas de morte marcas
martelam o marrocos
na branca argel o mar
– arafat chegará.

– de la bière, messieurs!
há no stand austríaco
rotundo coquetel
– arafat chegará.

teia teia de estrela
autrichienne stella
artois pão scotch
– arafat chegará.

magia magiar
requebra in the night
georgia húngara star
– arafat chegará.

sim é aussi agreste
frenchenglish georgia
seu ar de buda-peste
– arafat chegará.

bleu-blue danúbio broken
my heart mon coeur deserto
lua lua luar
– arafat chegará.

luzes emprenham o ar
os cílios de georgia
exalam cabochard
– arafat chegará.

dentro de la nuit
o tuaregue azul
azul ri sem parar
– arafat chegará.

sob argelinos olhos
dança georgia dança
sans son aãdjar
– arafat chegará.

árabes de mãos dadas
cerco georgia cerco
ar parado no ar
– arafat chegará.

rien de tout sabemos
do front saharaoui
oui lá mes amis
– arafat chegará.

a orelha não há
l´ami saharaoui
é mesmo de assustar
– arafat chegará.

no deserto a orelha
cai no front sem lugar
areia luar
– arafat chegará.

não ninguém ninguém mais
ninguém bebe riccard
nem georgia mais há
– arafat chegará.

preto-branco perturba
a turba o turbante
instante de arar
– arafat chegará.

do chão de casablanca
brotam les roses-au-sable
pedra pó estelar
– arafat chegará.

luz de não acabar
sim aujourd´hui
manhã cheia de mar
oui – CHEgARAFAT!
 


Ronaldo Werneck
Argel, setembro/1979
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Rinaldo e Armida

 

 

 

 

 

Ronaldo Werneck


 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

 

 

 

 

 

 

Ronaldo Werneck

 

 


Pois. O poeta “muito me apraz”

 

 

Tenho uma amiga do Recife que mora em Lisboa “pra mais de cinco anos” – a jornalista Juliana Torres, que trabalhou comigo ano passado na Assessoria de Comunicação do Festival Cineport em Lagos, no Algarve. Juju é “frevo que freve”. Uma flor de menina lisbo-pernambucã. Muito gracinha que só ela, com seu cheirim, sua pele de canela: alegre e “frevente”, sagaz e muito da competente. A “Ninja da Informática”, como Juju se dizia sempre que meu computador pirava, e eu com ele me debatia. “Calma, Werneck: a Ninja vai entrar em ação e logo tudo se resolve”. Batata. Perdão, macaxeira pura.  Não fora ela e sem dúvida as edições diárias do Cineport na Tela, o boletim eletrônico que faziamos direto do Algarve, estariam ainda hoje lá perdidos, pois de lá(gos) não teriam saído.

Muito que bem. Há coisa de um mês acionei Juju para uma tarefa de “jornalismo investigativo”, eufemismo para que ela me conseguisse em Lisboa o e-mail do poeta António Mega Ferreira, sobre cujo livro “Roma” andei a comentar aqui na coluna. Dei uma pista: “o Méga é o atual Diretor do CCB, o Centro Cultural de Belém, que fica aí perto de onde tu moras, morou tu, ó Jujuju?”. Um dia depois, Juju mandou de lá, no seu lisbopernambuquês: “ronaldiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim!! Olha, a tua Ninja conseguiu uma coisa... Sabes que aqui os doutores passam pela triagem das secretárias... ehehe A secretária pessoal dele pediu para que enviasses um e-mail para ela que ela encaminhava para ele... Beijoooooooooooooo”.

Assim, graças à Juju (brigadim e “um  cheirim”, minha querida) consegui comunicar-me com António Mega e mandei-lhe algumas colunas que escrevera, centradas em seu livro. Um dia, recebo um mais que atencioso e-mail do poeta português: “Caro Ronaldo Werneck. Muito obrigado pelas suas generosas palavras sobre o meu livro “Roma”. Mais ainda, as abundantes referências que lhe faz em duas de suas interessantíssimas colunas. O meu Amigo é o leitor com que todo o escritor sonha: atento, perspicaz e solidário. Não admira, lendo as suas colunas, onde ombreiam sensibilidade e gosto (palatal…) pela língua portuguesa. Quanto à minha poesia: tenho muito gosto em enviar-lhe um exemplar de “O Tempo que nos cabe”, bem como de um livro ensaístico-biográfico sobre Fernando Pessoa. Até já,  António Mega”.

Pois, como lá dizem em Lisboa: ponto. Pois. Pois não é que caí na besteira de, ao agradecer “desde já” o envio dos livros, emendar palração meio desairosa sobre o poeta de “Mensagem”? Um só desassossego para quem sobre ele escrevera um livro que justo queria me enviar. Pois. Não sei bem o porquê, cometi o desplante de dizer ao Mega que não me apetecia o Pessoa. Poderia ter dito, pois, como outrora me disse um amigo dermatologista, em plena consulta, eu prostado por dores, vamos dizer, furunculares: “Ronaldo: você, como poeta, gosta do Fernando Pessoa? Ele é um poeta que muito me apraz”. E o tumor a doer mais e eu a pensar como bom rapaz: “poeta que me apraz?”. Nada disse, fora um ou dois ais. Dito por não dito, muito me aprazeria, sim, dor não ter mais. Poeta nenhum propriamente me “apraz”: há os de que gosto, os que às vezes em paródia “declamo”, e os que na verdade amo. Mas, aprazer? Pois. Olha que nenhum “me apraz”, como aprazer me aprazem  os sorvetes da “Sol e Neve”, aqui na praça Cataguás, ou aprazer me aprazeriam se de novo e agora estivesse frente aos gelati italianos a que o Méga sutilmente se refere ao dizer em seu email sobre minha “sensibilidade e gosto (palatal…)”. Pois.

Pois, e lá mandei eu de imediato: “Caro António Mega Ferreira, obrigado pelas palavras mais que gentis sobre minhas colunas. Vou adorar receber os seus livros. Não só "O Tempo que nos cabe", como aquele a respeito do Fernando Pessoa, sobre quem guardo em mim uma idiossincrasia, quase diria um antigo vezo: acredito que por não ter lido direito o Pessoa;  como ele, idolatrado por aqui, sem duvida merece”.  Puf! Envei o e-mail. E parei pra pensar, ó pá! Como pude ser assim tão indelicado ao falar do Pessoa a uma pessoa que sequer conhecia em pessoa. Não o faz assim a pessoa que honra o nome de pessoa. Assim foi que rente como o rio (de minha aldeia) corrente, mandei outro e-mail, não mais que de repente:

“Caro António Mega Ferreira, enviei há pouco "Mensagem" (palavra certa) onde falo de minha "idiossincrasia", do meu "vezo" por Fernando Pessoa. Parei para pensar. E pensei: puxa, estou sendo extremamente indelicado com uma pessoa que exatamente está por me enviar o livro que escreveu sobre Pessoa. Confesso que estou a me "curar" desse vezo que me levou a dizer com adolescente empáfia e vida afora: "o Mário (de Sá-Carneiro) escreveu pouquíssimos poemas, mas formalmente melhores que os do Fernando".  Ou ainda (citando Mallarmé): "um poema se faz com palavras, não com idéias"... e o Pessoa tem muitas idéias, mas não as palavras certas.

“Enfim, meu caro Mega, uma chuva de achados inúteis pela qual o Pessoa, certamente, passa incólume com sua grandeza e capa e guarda-chuvas, sem receber sequer um respingo. E justo agora, quando à cabeceira de minha cama encontra-se a esperar leitura (acabo de receber o exemplar) o livro "Fernando Pessoa: quando fui outro", uma coletânea de poemas e textos de Pessoa selecionados pelo autor, o escritor brasileiro Luiz Ruffato. Detalhe: meu amigo Ruffato, o próprio, é quem escreve o texto de orelha de um de meus últimos livros de poemas. Sim, acredito que quando ler o teu livro sobre Pessoa corro o sério risco de me tornar, como muitos,  um "fernandólatra". E acabar ocorrendo comigo & Pessoa o que ocorreu tempos atrás comigo & Clarice Lispector. Peço que leia, se houver tempo e paciência, a crônica "Clarice-Ela" que envio em anexo. Como também, etc etc, as demais crônicas, as mais recentes com relação ao breve tour europeu do ano passado. A saga continua: sequer cheguei ainda a Paris. Et voilà! Abraços etc”.

Até agora, nada. O Mega não me retornou e eu resolvi, como penitência, me embrenhar não no “Quando fui outro” do Ruffato/Pessoa, mas nos Saramagos desta vida, a ver se o mago de Lanzarotte me salvava desse qüiproquó internacional no ano em que matou Ricardo Reis. Era 1937, é bem verdade, e lá se vão quarenta anos. Pois. O homem, claro está, é o labirinto de si mesmo, Um homem rala-se, preocupa-se, teme o pior, julga que o mundo lhe vai pedir contas e prova real, e o mundo já lá vai adiante, a pensar noutros episódios, Se aqui o mar acaba e a terra principia, Aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir, As pessoas na verdade são papagaios umas das outras, nem há outro modo de aprendizagem, Porque esta deve ser a cidade do mundo onde com maior abundância florescem os calos e as calosidades, os joanetes e o olhos-de-perdiz, sem falar nas unhas encravadas, Desta maneira se concluindo o poema, Não quieto nem inquieto meu ser calmo quer erguer alto acima de onde os homens têm prazer ou dores, o mais que pelo meio ficou obedecia à mesma conformidade, quase se dispensava, A dita é um jugo e o ser feliz oprime porque é um certo estado. Prazer ou dores? Ser feliz oprime? Muito me apraz, Mega, esse ser amargo. Pois. 

 

 

Nelly Novaes Coelho

 

Augusto dos Anjos

 

 

 

 

 

24/03/2007