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Ana Cristina Souto

anacrisce@hotmail.com

Da Vinci, La Scapigliata, detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica: 


Alguma notícia da autora:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sophie Anderson, Portrait Of Young Girl

 

Albrecht Dürer, Germany, Study of praying hands

 

 

 

 

 

 

 

Ingres, 1780-1867, La Grande Odalisque

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

A ti e ao vento
 

As mãos
tocaram as bordas finas
dos teus lábios
teu corpo inteiro – percorri;
a salinidade do teu suor e lágrimas
e a doçura do vinho que é a tua saliva
junto com o fruto proibido:
essa vontade de te cobiçar;
delírio pleno – devorador;
é estar contigo por te conter...

Tuas carícias/ toques de cetim
tomam minha calma
e todo o amor do mundo
dedicado a ti,
            e ao Vento;
            que leva a minha saudade;
            e te traz à tona
            a mim...

 

 

 

Antonio Mariano de Lima

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Cecilia Meireles

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alessandro Allori, 1535-1607, Vênus e Cupido

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Areia Movediça


Tentar debater-me — sair de ti —
Afundaria mais e mais.
 
Assim —
Prefiro a inércia
a morrer soterrada,
                 sem o teu fôlego.
 

 

 

 

Gerardo Mello Mourão

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Cussy de Almeida

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova, detail

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

C´est la Vie


Quando te vi a vez primeira
já o tinha em meus olhos;
teu perfume, essência inconfundível,
inebriava-me as entranhas.
 
Teu olhar
azul-violeta,
tal a calmaria do mar
após uma noite de tormenta.
 
O encanto flutuava pelo espaço sideral
à luz do luar — descalços e bêbados
balbuciávamos palavras etéreas
 
Eu, distraída
dispersei o teu fascínio em mim
em breves instantes de arrebatamento.
 
A paz morta pelo ciúme,
encruzilhadas... Desencanto.
Ansiosa minha alma te reclamava.
 
Ah! Fosse meu o teu último alento!
 
Tua lembrança ...
surges nos lampejos
como um astro desponta no firmamento
 
Eu te perdi!
e recrimino a delinqüência quase juvenil.
 
Ah! Mas o triunfo do tempo...
 
Queria dar-te mais que poesia
mas foste por atalhos
e me restou dorida consolação
hoje te dou meu lamento.
estendo-te a mão, em cumprimento banal.
 
E te foste como se vão os dias
longos e enfadonhos de inverno;
e vivi tantas vidas!
Em vão!
 
Obsessão!
 
Fecho os olhos
para não ver teu rosto
perpetuado em outros rostos.
Inútil!
 
Vejo-te com teus olhos de mar
e teu perfume mediterrâneo
até no silêncio dos meus sonhos.
 

 

 

 

Alphonsus Guimaraens Filho

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Jorge Medauar

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Desencanto


Tua silhueta
ainda arranha minha retina
contigo
ignorei o futuro
vislumbrei apenas o preciso
— um blefe do destino —
que seja!

Atravessei meus espinhos
perdi todas as defesas
hoje
imune à dor
refém de mim
lastimo a insistência da vida
 
Poderia ser tudo maior.
Sim! Poderia!
Mas era preciso muito...
Muito mais!
nessa paixão sem amanhãs
réstia de luz
refletida nessa taça de cristal trincada.

 

 

 

Vicente Franz Cecim

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Jorge Tufic

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Setembro
                                                       
Para o meu pai
 

Uma taça vazia
       — cega deriva —
desses anos perdidos no tempo.

Espremi o sumo
do istmo que ligava essa distância;
rompendo o abandono
— à tua presença latente
na linha imaginária daquele oceano.
 
O inverno quis ficar contigo,
mas o sol não devorou tua memória.
E o risco que sobrevoava
ao medrarem os sobressalto
dos teus gestos ausentes.
 
Palavras de uma busca
— de todos os mitos —
os lapsos de nossa história:
             e o que me resta de setembro?
 
Agora que você chegou,
entendo o que morreu
e o que nunca morrerá.
Comporei um silêncio
esquecido dos anos sem ti.
 
O novo e o mais antigo amor,
extirpei as dores
do meu coração;
farto de coisas por dizer.

No futuro que guarda tua mão
— tato que nina a minha alma —
Quando eu me for
é por ti que hei de esperar.
a me levar aonde os teus caminhos
           — Por todos os setembros... a fio.
 

 

 

 

Junot Silveira

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Thiago de Mello

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Judgment of Solomon

 

 

 

 

Ana Cristina Souto


 

Será isto o Amor?


Amor? Sim eu tenho!
Diferente de tudo que já tive,
ameno como a brisa em tardes de domingo.

Sol que doura sem queimar
lua que ilumina, inebria consola e seduz;
e que me traz sonhos generosos – doces miragens
um grande e infinito amor
desses que não se fere nem com uma lança no peito.

Sem tormentos vãos
juras, segredos, mistérios
milagres, pecados, purgatório
inconstâncias, mágoas, domínios
dilemas, inquietudes, letargias
armaduras, rivalidades, couraças
traduções, legendas, mímicas
relâmpagos fugazes, orvalhos, tempestades
prudência, displicência, delinqüências
lendas, cataclismos, desastres
incertezas, ameaças, cobranças
castigos, vitórias, derrotas
espectadores, especulações, explicações
heranças, trapaças, tetos de vidro
fraquezas, labirintos, masmorras sepulcrais
hostilidades, impunidades, abandonos
máscaras, buscas, preces
ciúmes, provações, condenações
subterfúgios, esquecimentos, carnavais
naufrágios...

duelos, presságios, segredos inefáveis
algemas, âncoras, correntes
manipulações, perseguições, disfarces
roteiros, cenários, itinerários
sentenças, opressões, indulgências
vestígios, declínios, emboscadas
clemências, sacrilégios, renúncias
vigílias, remorsos, apelações
esboços, suspeitas, regressos
destroços, partilhas, martírios
vacilos, mortalhas, mordaças
querubins, serafins, belzebus

maldições, cláusulas, juízes
súplicas, trincheiras, tragédias
passado, êmulos, cicatrizes
conspirações, intromissões, submissões
habeas-corpus, álibis, aliados
disritmia, taquicardia, asfixia
doutrinas, rituais, cabalas
sofismas, sarcasmos, subornos
pactos, teoremas, epitáfios
guardiões, portais, São Pedro

fábulas, alfarrábios, mantos sagrados e profanos,
abismos, grotões, marolas
tufões, vendavais, terremotos
horários, Big Bang, trem das onze
crenças, amuletos, divindades
bússolas, descaminhos, estrela D'alva

Amor, eterno amor!

         Desafiador amar-te sem estratagemas.

         Assim,
                sigo ao teu lado -
                          à sombra de teus gestos...

 

 

 

Rodrigo Marques, ago/2003

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Luiz Paulo Santana

 

 

28/11/2006