Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

Virgílio Maia


 

Ilumiara


Quem pintou essas pedras no Sertão,
nessa tinta que nunca mais se apaga?
E para quem nosso ancestral pintava
brutas cenas de caça e aquela mão?


Tais secretos mistérios estarão
insondáveis nas cores dessas aras:
candelabros ou onças vermelhadas,
mais figuras que seguem em procissão.


Contou-me um dia uma mulher velhinha
que numa noite escura el a passou
se benzendo de medo pela Pedra.


E viu, jurou que viu, vinha sozinha,
que o enorme Gavião se desgarrou
da pintura, gritando feito a Fera.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

Virgílio Maia


 

A arte de Audifax Rios


Uns pássaros perfuram, pintalgados,
a sisudez de uma escultura olmeca
ou por ossuda mão são levantados
poeirentos cadáveres da seca.


Sua arte tudo toca, ceca e meca,
dando voz, hora e vez aos deserdados,
na agudeza do lápis que disseca
num prisma exato os sóis apunhalados.


Não são pincéis nem tintas, mas gnomos,
que imprimem a fogo e alma cada risco,
das cítricas visões expondo os gomos.


Cada gravura é vida, não se doma,
cada um dos traços um piau arisco.
E o retinto nanquim por axioma.
 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), L'Innocence

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Roberto Pires

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

Virgílio Maia


 

Canudos não se rendeu


Foi ontem, claro dia de mais sol
(me haviam dito: tudo se findou:
que o futuro da gente se acabou,
não havendo sequer mais um farol).


Nas foi ontem um dia luminoso:
fui ao trabalho em alta andaimaria
e vislumbrei de lá, ao meio-dia,
sobrepujando um tempo desditoso,


eu pude ver, não se entregou ainda,
ainda peleja, a luta não é finda,
belo Arraial de Sempre onde se viu


ser o homem possível. Pois foi isto
que noutro dia me afirmou ter visto
um operário em construção civil.
 

 

 

Da Vinci, Homem vitruviano

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Ivo Barroso, 2003

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Delaroche, Hemiciclo da Escola de Belas Artes

 

 

 

 

Virgílio Maia


 

Um bujão de gás


Prateado, bojudo, gordo, anão,
num escuro recanto relegado,
humilde é Prometeu acorrentado
por plástica corrente a um fogão.


Traz no bojo ancestral ignição
ofertada da chama no azulado,
na memória assoprando inesperado
espeleológico arco de um tição.


Reside nele a flama do carvão,
labareda eternal em combustão,
homenagem de fogo a quem ousou:


homem primevo, rude antepassado,
que acendendo o futuro, desgrenhado,
num gesto só o fogo arrebatou.
 

 

 

Da Vinci, Cabeça de mulher, estudo

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José Santiago Naud

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Virgílio Maia


 

Um cata-vento de brinquedo


De extinto cacimbão o cata-vento
puxa ao meu rosto as águas de outra idade.
Ele é só um brinquedo, mas vale
pelas recordações que guardo dentro


do menino que mora aqui ao lado,
e sabendo de cor a cor dos ventos,
tem na ponta da língua, decorados,
uns gestos infantis de cata-ventos.


Flandre e ferro somados pela solda:
sendo brinquedo, brinca no jardim,
à brisa mais maneira já se alegra.


Brinca sem compromisso, roda e roda,
se fingindo irrigante desta terra,
num faz-de-conta de aguar jasmins.
 

 

 

Maura Barros de Carvalhos, Tentativa de retrato da alma do poeta

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Pedro Salgueiro