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Ivo Barroso 

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Victor Mikhailovich Vasnetsov, Rússia, 1848-1926, The Knight at the Crossroads

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Poesia:


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Fortuna crítica: 


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Franz Xaver Winterhalter. Portrait of Mme. Rimsky-Korsakova. 1864.

 

Um esboço de Da Vinci

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

Ivo Barroso


 

Sent: Tuesday, May 07, 2002 1:59 PM


Caro Feitosa,

A menina afegã, de Steve McCurry
Seu texto é tão penetrante quanto os olhos dessa afegã dos q
uais a gente não consegue se afastar; leitura integral, corrente, aliciante.


Parabéns e abraços do
Ivo Barroso

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Judgment of Solomon

 

 

 

 

 

Ivo Barroso



Poema para meu pai


Meu pai morreu longe de mim
(eu é que estava longe dele).
Tantos anos se passaram
e ainda não lhe vi a sepultura.
Continuo longe. Mas sua presença
me sacode como um choque elétrico,
uma bebida forte que me arde
por dentro.
Está vivo nos meus dedos,
nos cabelos ralos
— a nuca, dá arrepios de se ver.
Está cada vez mais perto de mim
(eu é que estou mais perto dele).
 

 

 

 

Culpa

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José Nêumanne Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Consummatum est Jerusalem

 

 

 

 

 

Ivo Barroso



Canto nupcial


Agora que estás amadurecida para o amor
e em teu sexo a peregrinação das luas se sucede,
escuta, Amada, o meu canto nupcial.

De tua fronte penderão corimbos,
anêmonas e as últimas pervincas dilatadas em maio;
teus seios recenderão a malvas adormecidas
no sereno das madrugadas suspensas;
uma orquídea equatorial, grande como um símbolo,
cingirás ao ventre
e, em teu sexo nu, a flor estonteante
de tua própria pureza conservada.

Quero-te assim — floral, assim meio bárbara,
que o nosso amor contém um pouco da força dionisíaca
da terra;
e teu ventre redondo — abrigo de sóis —
palpita na esperança genital da espécie.

No chão,
tomando-te os cabelos, ansiosa de meu amor de esposo,
gritarás aos caules que nos cercam,
para as frondes que nos cobrem,
que propício é o tempo de tua flor esmagada
se tornar em fruto.

E rolaremos nos rituais sagrados da progênie:
teus seios — como duas luas gêmeas — crescerão
em suas fases;
teu ventre, penetrado de vida, se distenderá
na lenteza das horas
e o próprio chão em torno se gretará pelas raízes
que emergem sôfregas de ser.

(1952)
 

 

 

 

Michelangelo, Pietá

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Thomas Cole (1801-1848), The Voyage of Life: Youth

 

 

 

 

 

Ivo Barroso



Burocrático


Importante empurar o dia
como quem come
a dieta do nada
sem ter fome?
Importante é extrair
de sua
substância vazia
alguma ânsia.
 

 

 

 

Bernini_The_Rape_of_Proserpina_detail

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Helena Armond

 

 

 

 

 

 

 

 

Entardecer, foto de Marcus Prado

 

 

 

 

 

Ivo Barroso



Pão nosso


Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.

Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.
 

 

 

 

Bernini, Apollo and Dafne, detail

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Natércia Campos

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904), Plaza de toros

 

 

 

 

 

Ivo Barroso



Dos "poemas de amor"


Eu sei que o tempo foi e sei
que inútil será buscar no verso aquele instante
em que a licorne timorata e branca
baixava a testa luminosa e tudo
era regato e trompa na floresta.

 

 

 

 

Bernini_Bacchanal_A_Faun_Teased_by_Children

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Elaine Pauvolid

 

 

 

 

 

 

 

 

Titian, Venus with Organist and Cupid

 

 

 

 

 

Ivo Barroso



O peixe de Neruda


Neruda pôs um peixe na bandeira
que desfraldava em frente à sua casa.
Talvez quisesse assim, desta maneira,
dizer que um peixe voa sem ter asa.

Dizer que nós podemos transformar
As coisas pela força da vontade:
Que o mar pode ser céu, o céu ser mar,
Dependendo do olhar, da intensidade.

Talvez quisesse nos dizer que a vida
É o exercício de enganar a morte;
Que depende de nós uma saída,
Parar os dados, reverter a sorte.

Que toda coisa é muito mais que a coisa
em si; que um nome pode ser trocado:
tudo consiste em ser a mariposa
que se transforma num milagre alado.

Assim, pensando bem, o que Neruda
buscou simbolizar com o peixe erguido
na flâmula, que agora se transmuda
em onda do mar, tem múltiplo sentido:

Antes do mais, é a pura imagem física
do peixe, o seu desenho, o seu traçado
geométrico, a linha elíptica, a risca,
o contorno preciso e elaborado;

a exatidão de meios, essa técnica
biológica que o torna a parte viva
da água em que ele vive, a chispa elétrica
que intensa o move, orienta, compulsiva.

O peixe de Neruda é mais que um peixe,
é uma bandeira, é mais que uma bandeira,
um conjunto de símbolos, um feixe
de acepções - a mitologia inteira.

É um peixe apostólico, sem dúvida,
a ser multiplicado quando há bodas;
mas é também um peixe só e único,
quando se forem as esperanças todas.

Pois é o peixe de Cristo e do infinito,
esse oito deitado e em si completo,
oracular, sinal na areia escrito,
signo zodiacal, moto perpétuo.

Por isso penso às vezes que Neruda
ao erguer de manhã aquele mastro,
com voz potente e ao mesmo tempo muda,
dizia versos ao seu peixe-astro:

‘Acorda, ó peixe inaugural, ó peixe matutino
Longe de teu reduto aquático, nos ares;
Deixa a esponja, o coral, o caramujo
— Teus amigos agora são as aves.
Deixa o reduto de imersões profundas,
Liberta-te de abraços isobáricos
E paira livre de teu peso em vôo silencioso e estático;
Nada nesse ondulante pavilhão que o vento do mar fustiga.
És agora o peixe em estado virtual, o peixe-pensamento, espadanando
A esbranquiçada metamorfose das escamas.
A ti entrego o destino de uma espécie
Marítima e volátil, a dupla vida
Que intentamos viver sem os recursos
Que ora te empresto da imaginação.
A ti confio o destino de todos estes seres
Que querem ser bem mais do que têm sido.
Mas que lhes falta o anseio de ter asas
Ou temem sempre mergulhar no abismo’.

E tarde, tendo os olhos seus imersos
no pôr-do-sol, descendo o pavilhão,
talvez Neruda lhe dissesse versos
— que o verso de Neruda é uma oração:

‘Volta, ó peixe vesperal, mergulhador do ocaso,
Ao seio original de onde saíste, entre líquenes e anêmonas;
Conta às algas o azul do céu quando os stratus
coroam as colinas,
Agora sabes os segredos dos que pairam acima do horizonte,
Mas dize-lhes também que aventura inaudita
É viver em dois mundos, é saber que estás aqui
Mas que podes pairar além do insuspeitado.

Sonda teu elemento com perícia mas denodo,
Não deixes o recôndito esquecido,
Nele há tesouros que ainda não fulguram
Por lhes faltarem olhos que os vejam.

Vai mais fundo, explora os teus recursos mais íntimos,
A força potencial que jaz nestas escamas
Que tatalaram como virgens rêmiges,
Um dia nas alturas.
Usa teus olhos oblíquos para veres na sombra
O que muitos não vêem em pleno dia,
Sê tu mesmo, sabendo bem que podes
Ser outro, muitos mais, ser legião, miríade
Sem trair o que de mais teu trazes contigo.
Amanhã, serás outro meu amigo.’

E ouvindo o Poeta descobri que havia
Algo de mais recôndito na imagem:
Além de toda essa mitologia,
Há no peixe uma última mensagem.

A de que é a Poesia um peixe-alado
E o Poeta um ser que busca o vir-a-ser.
Vive para dar vida ao Incriado,
Que a missão do Poeta é transcender.
 

 

 

 

Bernini_Apollo_and_Daphne_detail

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Izacyl Guimarães Ferreira

 

 

 

 

 

 

 

 

Caravagio, Tentação de São Tomé, detalhe

 

 

 

 

 

Ivo Barroso



É preciso


É preciso ser duro
como a pedra que parte
como a parte da pedra
que penetra a parede
e a parte

Como a rede que não vaza
como o vaso que não quebra
como a pedra que fende
o paredão da casa

E é preciso ser fraco
é preciso ter siso
e simulacro. É preciso
todos os dias vencer
os deuses pigmeus/golias

É preciso ter cara
e ter coragem

É cada vez mais raro
quem assim reage

É preciso ser duro
como o murro
como o muro
e é preciso ser doce
como se anteparo
de vidro
o muro fosse

É cada vez mais raro
ser duro e doce
cada vez mais torpe
ser apenas duro
cada vez mais nulo
ser apenas doce
cada vez mais duro
ser o muro e a nuvem
como se um só fossem.
 

 

 

 

Maura Barros de Carvalhos, Tentativa de retrato da alma do poeta

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Rodrigo Petronio

 

 

03/10/2005