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José Santiago Naud 

Poussin, Acis and Galatea

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poesia:


Ensaio, crítica, resenha & comentário: 


Fortuna crítica:


Alguma notícia do autor:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leonardo da Vinci,  Study of hands

 

Bernini_Apollo_and_Daphne_detail

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Poussin, The Triumph of Neptune

 

 

 

 

 

José Santiago Naud


Na rua solitária


Na rua solitária
com o sol a pino
uma reta de ouro se alastra
ofuscando tudo
e tingindo as coisas.
Réstea de espanto
o grito do louco risca o céu
azul
em linha oposta à sombra da árvore.
No aconchego materno de umbu
partem-se paz e sossego, a doçura
e o ponto justo
são de repente um raio na desmesura do grito do louco
com a sua alma em frangalhos num leito de chamas
a espatifar os olhos do menino
presos no silêncio da praça.
Ficou da sensação
o pavor dominado, aquele preciso instante
da visão de um reboco vermelho
no muro descascado,
os tijolos s à mostra
e a calçada
dura,
asperezas,
fascínio,
destemor,
e o grito do louco
riscando de sangue o céu azul.

Assim também (oculta)
a cadeia da herança espiralava
o explícito das formas, pura aparência
com o espírito dentro desde os espaços abertos,
um ato feito em nós:
Deus
escrevendo a peça que dizemos
com a memória das células,
mandado e medo de cumprir
a hora prescrita,
o tempo certo de sair -
clara mandala.
Como o salmão remonta as nascentes
para deixar à aventura do rio os seus ovos
e ali
fluindo
começar a morrer, assim
o louco grita
ou nós, apoderados da razão, desandamos.
Só um cão é companhia
Que volte os nossos olhos para a luz
Ou na treva compasse os nossos passos.
Dentro da gruta
espessa
os nossos nervos pulsam impacientes
e passa de pai a filho o relâmpago das mães.
De repente
as ruínas circulares dos desabamentos fatais estão ali
e são
como o grito do louco
em reta de ouro
o quadrado da praça - um raio
de saudade
agora
aqui
total lembrança,
fiel presença
para sempre fatal
em sombra iluminada.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Bouguereau (French, 1825-1905), A Classical Beauty

 

 

 

 

 

José Santiago Naud



Enquanto o vento roda


Enquanto o vento roda lá fora
e uma folha amarela bate na vidraça
a candeia ali dentro flui essa flor de luz
em torno da mesa
e o chantre conversa com a esposa
enquanto compõe sua música. Tranqüilidade
de fazer o pão para todos
sem estar de candeia às avessas
nem acendê-la para deixá-la embaixo da cama.
Mais fraterno ainda, o cão
se lhe enrola no meio das pernas
e ele o deixa ficar assim
um cachorro astuto
prisioneiro do sono e do tempo
como um novelo. Doce paz
e instante dourado
que duram enquanto lá fora desatam-se os ventos
e ruge a destruição - estremeção do mundo
sem cão nem gato, rato
roendo a perfeição
enquanto a música harmoniza as puras dissonâncias
e entre marido e mulher a candeia
incendeia o aqui
mas habita sem tempo
o centro da harmonia.

 

 

 

William Blake (British, 1757-1827), Angels Rolling Away the Stone from the Sepulchre

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Regina Sandra Baldessin

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leighton, Lord Frederick ((British, 1830-1896), Girl, detail

 

 

 

 

 

José Santiago Naud


 

Em que lugar ficou


Em que lugar ficou
o cruzeiro no meio do caminho
com a ermida mais adiante onde a estrada bifurca?
Já não sei.
Sei que ficou
passando a geografia para a mente
e no fundo de mim o fim da tarde
emoldurando um roble e a montanha posta do lado,
mais longe
a densa natureza da pedra e o ar fino
prende ainda ali o inverno frio
nuns fiapos de outono
e é a retidão de álamo a paisagem vazia
imóvel
dentro de mim. Não sei
nem quero saber:
essa estrada
essa curva e esse quadro
parado no fundo de mim
caminho de partir
ficando
enquanto o auto arfa e pára
lentamente
arqueja e tosse a última pulsação
antes que eu baixe e te tome nos braços
meu amor
no ar fino da tarde.
Beijo fundamente a tua boca
com um beijo radical
esse quadro que ficou ali
ignoto
no ar fino da tarde
e o guardamos para sempre
apócrifo no pó dos nossos nomes.
 

 

 

 

Leonardo da Vinci, Embrião

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Virgílio Maia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jean Léon Gérôme (French, 1824-1904)

 

 

 

 

 

José Santiago Naud


 

A poesia de Soares Feitosa

 

Fico muito feliz, companheiro, de que as melhores vozes nacionais, viradas para a Poesia, reconheceram e proclamaram sua energia lírica, quantas vezes de ressonância épica. E, sobretudo, sua afeição à terra, tão originalmente expressa na singularidade desse envelope peregrino com cheiro de imburana, numa prova de que a Natureza e Vida lhe garantem a seiva na forma da palavra!

« Leia a obra de Soares Feitosa »

 

 

 

Da Vinci, La Scapigliata

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Domi Chirongo